Segundo Antunes (1999: p.29-30), até hoje se vem enfrentando a chamada crise do capital, que teve origem nos anos 70 e vem repercutindo gravemente na vida dos trabalhadores com baixas nas taxas de lucro, o esgotamento do modelo fordista / taylorista de produção, o desemprego estrutural e a crise do Estado de Bem-Estar Social. Nesta situação, a maneira como o capital se reestrutura em busca de um padrão de acumulação diferente, sob a hegemonia do capital financeiro, afeta duramente as condições de vida e de trabalho.
Se dão a partir desta crise a precarização das relações de trabalho, a flexibilização dos direitos dos trabalhadores, o aumenta do desemprego. A maioria dos países capitalistas adota o projeto neoliberal com a justificativa de reduzir os investimentos do Estado em saúde, educação, moradia e outras políticas sociais, em geral, além de fomentar a economia para aumentar a competitividade global (Ibid, p.31). É a partir dos anos 80 que se intensifica o processo de internacionalização das economias como resposta à implantação de diversas modificações do capital em
seus processos produtivos e sair de sua crise sem perder o projeto de dominação social. Para isso desenvolve novas formas de acumulação flexível, como a dos programas de qualidade total e a utilização do modelo japonês ou “toyotismo”. (Ibid: p.32)
Nos anos 90, as relações de trabalho são mais precárias e incidem decisivamente nas condições de trabalho da classe trabalhadora de uma forma geral. No tocante ao serviço social de empresa, as transformações no mundo do trabalho não mudaram algumas das demandas tradicionais como os serviços socioeducativos e assistenciais aos trabalhadores e suas famílias, porém foram acrescentadas outras demandas, ligadas a promover discursos participativos de cooperação, trabalho de equipe e valorização do trabalhador. Entretanto, essas novas demandas são concebidas como contraditórias, pois os trabalhadores convivem com a redução dos postos de trabalho e com a perda de direitos trabalhistas e com os diferentes contratos de trabalho entre funcionários de uma mesma empresa. (MOTA e AMARAL, 2000).
“Compondo o cenário das novas necessidades do processo de acumulação capitalista – centrada na fratura das alteridades do trabalho – emerge no horizonte do trabalho uma fragmentação objetiva do trabalhador coletivo, expressa na constituição de dois grandes grupos de trabalhadores: os empregados estáveis do grande capital e os trabalhadores excluídos do emprego formal, estes últimos, sujeitos ao trabalho desprotegido”. ( p.31).
Guerra, (2001) afirma que a dinâmica que circunda toda relação de trabalho, sem importar que tipo de instituição seja, apresenta um cenário de contradições onde deve atuar, neste caso, o assistente social, o qual termina intervindo na mediação de interesses de classe para atender às demandas impostas pelas ditas instituições.
Afirma a autora que:
“Para garantir sua sobrevivência, o serviço social, como profissão, tem que responder às demandas. Estas não são unidirecionais; ao contrário, são atravessadas por interesses antagônicos, oriundos do capital e do trabalho, daí serem atividades profissionais mediadas pela contradição” (p. 04)
Esta contradição está na origem mesmo da profissão, criada para ter uma visão crítica da sociedade, para apoiar o desenvolvimento das classes populares e
trabalhadoras e, sem dúvida, aparece a serviço das empresas capitalistas, contradição que se acentua quando o assistente social é consciente que não pode ter uma visão messiânica da profissão, mas, tampouco pode trabalhar com injustiça. A justiça se transforma em seu ponto de articulação e em seu permanente paradóxico, e nas empresas mais ainda, pois quanto mais se procura este ponto de articulação, mais afastado da empresa parece estar.
Mota afirma, (1998: p. 56-57) que por ser um profissional capacitado, o assistente social é requisitado pela empresa para trabalhar nas áreas dos recursos humanos, mediante a prestação dos serviços sociais, e também desenvolvendo tarefas educativas. As demandas dos empresários levam os assistentes sociais a mediar os conflitos de interesses do empregador e do empregado, onde a prioridade é o processo produtivo.
Afirma a autora que “a especialidade da profissão nas áreas das empresas é a administração dos benefícios sociais dos trabalhadores, pode-se afirmar que é a modernização ou gerenciamento das carências sociais do trabalhador a partir das técnicas das áreas da gestão humana”. (Ibid. 57).
Com relação à questão social, explica que as empresas a admitem a partir de pactos de dominação com o Estado, o que por sua vez, se reflete também em tensões entre empregado e empregador, as quais se expressam nas pressões que os trabalhadores fazem com suas demandas. As pressões podem apresentar-se de maneira organizada e também consciente ou não. Isto leva as empresas a apelar às “ciências do comportamento” e a alcançar, manejar, ou melhor, dizendo, manipular os “problemas” dos trabalhadores à sua conveniência. (Ibid. 1998: p. 47-48).
Observa-se que no interior das empresas os assistentes sociais são procurados para dar resposta às demandas que são por natureza contraditórias, por um lado as do capitalista, e por outro as dos trabalhadores. É nesta situação, que vai conformando sua própria imagem como profissional das ciências sociais. Suas intervenções se legitimam na medida em que têm capacidade para responder a ambas as demandas. Todo o tempo os assistentes sociais se enfrentam com essa contradição, e que é inerente às relações desiguais que se dão entre capital x trabalho expressadas
sempre em: baixos salários, problemas de moradia, educação, saúde, segurança, entre outros, dos trabalhadores usuários dos serviços sociais.
Iamamoto, 1998 (In Valeria: 2010. p 4) diz que nas empresas o serviço social tem características diferentes de acordo com o tipo de empresa (comercial, industrial, bancária, serviços), ou associações patronais (SESI, SESC e SENAI), ou como associações de empregados e cooperativas, dentre outras. Assim, em termos gerais, a atuação do assistente social tem em comum a função educativa. Também intervém com serviços simbólicos como: orientações, encaminhamentos que influenciam nos modos de agir, sentir e pensar da classe trabalhadora, graças ao uso da linguagem, seu principal instrumento.
O serviço social, em quase todas as empresas, é demandado para atender aos interesses do lucro, de maior produtividade e não só para ações sociais e humanitárias. Observa-se, portanto, que o assistente social não intervém somente garantindo o acesso às coisas materiais, incide ainda nos conhecimentos, valores e cultura, de forma direta e indireta, na vida dos trabalhadores, influencia a adquisição dos valores da empresa, para que asumam as metas e propósitos da mesma.
Portanto, pode-se afirmar que, a intervenção social tem uma utilidade social no processo produtivo. É assim que o serviço social está ligado à área de recursos humanos das empresas. Sua intervenção está vinculada à necessidade de preservar a ordem, e tem um cunho “educativo”, “moralizador” e disciplinador, ou seja sua ação tem cunho político e ideológico. (Ibid, p4).
Dessa forma, o profissional não tem condições de atender exclusivamente às demandas dos trabalhadores em razão de sua condição também de trabalhador assalariado, inserido em processos de trabalho, pois contrariamente tem que dar respostas profissionais ao empregador que o contrata. Não tem todos os recursos para intervir nas empresas, portanto são os empregadores que facilitam todos os meios necessários para desenvolver suas ações nas empresas. Por deter conhecimentos, teorias e metodologias provenientes de sua formação, como assistente social, tem uma relativa autonomia.
“Na empresa, não é o trabalhador que requisita o trabalho do assistente social, e sim o capital, no intuito de gerenciar os conflitos e problemas dos empregados e de suas famílias que possam travar o “bom andamento do processo produtivo”. Portanto, embora o trabalhador qualifique a atuação do profissional como uma “ajuda” no sentido de minimizar suas dificuldades, ao mesmo tempo, percebe que essa ajuda tem uma utilidade para a empresa, que é o aumento da produtividade no trabalho. (p.5)
Para o trabalhador a situação também se define em sentido duplo, por um lado quer aceder aos serviços, que através do assistente social lhe oferecem, como um modo de melhorar sua situação social e econômica. Mas de outro é consciente que a empresa, através do assistente social, lhe oferece um serviço, como uma maneira de pressão para que melhore a produtividade. Tudo o que o capitalismo proporciona através da empresa se transforma em publicidade para a mesma, o trabalhador chega aos seus direitos por meio do que a empresa mostra como doações e dádivas, este é o modo como a empresa tenta transformar o conflito e fazer aparecer os direitos do trabalhador como benefícios e garantias.
A maneira como o assistente social responde às novas demandas lhe vem exigindo habilidades e conhecimentos atuais. Em termos gerais se requer um novo perfil profissional para ter um desempenho no trabalho que corresponda às exigências em termos de produtividade e qualidade, não necessariamente são competências teóricas, mas sim no plano do comportamento, tais como: agilidade nas respostas, exatidão na execução de suas atividades, ambiente positivo, cooperação, esforço extra, manejo do stress, entre outros. Contudo, a legitimação da profissão nos recursos humanos está relacionada à capacidade de intervir na administração das necessidades humanas.
Por sua vez não se pode desconhecer, que as condições de trabalho dos assistentes sociais nas empresas, se vem intensificando, tem racionalização do uso da informação, participam de planejamento, vivenciam situações de redução dos postos de trabalho com instabilidade, baixos salários, falta de clareza nas estruturas, poucos recursos, precariedade dos vínculos laborais, formas de organização de trabalho autoritárias, as quais não oferecem, muitas vezes, a oportunidade de crescimento
profissional e reconhecimento pelo trabalho realizado. Todos esses fatores geram desgaste dos profissionais nas empresas.
O mundo globalizado de hoje, no qual as empresas cumprem um papel fundamental trazem desafios para os assistentes sociais que os obriga a uma maior qualificação (estudos de mestrado em administração, gerência, economia, política, direito, etc.) com o fim de obter estabilidade laboral e conservar um nível de desempenho da profissão que já foi adquirido em tempos anteriores. De igual maneira, estas novas mudanças têm significado um desgaste maior, pois não só o assistente social deve estar disponível além de seu tempo de serviço legal, mas, também, deve executar trabalhos para os quais não tenha sido preparado na academia. Soma-se a estes, a baixa remuneração que recebe por uma atividade que implica cada vez maior esforço e dedicação.
Assim, observa-se que a teoria e as experiências gerais acima apresentadas buscam relacionar as funções do serviço social no mundo do trabalho e suas determinações a partir deste mesmo campo.
Dessa forma, no capítulo a seguir, serão apresentados os resultados das determinações da prática do serviço social nas empresas privadas de Medellin, segundo os dados colhidos na pesquisa de campo.
CAPÍTULO 4