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3.3 Algorithme de branch and bound par intervalles
Decorrido mais de um século de seu desenvolvimento como corrente filosófica386, é comum circunscrever-se o pragmatismo ao entendimento de que nele a ação eficiente toma o lugar do pensamento e da reflexão, de que aquilo que não opera, que não produz resultados, a rigor não merece consideração; o que conta mesmo, ao cabo de tudo, é o caráter proficiente e utilitário das coisas, como a resolutividade de problemas e não a veracidade intrínseca das proposições teóricas. Assim, sempre que, por exemplo, estivesse em pauta o contraste – conforme aduzido por Habermas– entre o teórico e o prático, o real e o imaginário, entre a aparência e a essência das coisas, o pragmatismo seria interposto aí para justificar –em sua intransigente e dogmática defesa da empiria– a supremacia da experiência, do conhecimento prático dos fenômenos do mundo real como autêntico campo de prova da veracidade das proposições teóricas387.
Realmente, não condiz com o pragmatismo o intuito de engendrar um novo sistema filosófico nos moldes tradicionais –isto é, epistemologicamente encerrado em si mesmo–, até porque seu traço mais característico foi o de nunca haver pretendido tal coisa, porquanto
383 Ibidem, p. 214. 384 Ibidem, p. 215. 385 Ibidem, p. 220.
386 Foi como corrente filosófica –a única, aliás, genuinamente norte-americana– que o pragmatismo se
desenvolveu em meados do século XIX, com os trabalhos dos pioneiros Charles Peirce (1839-1914), William James (1842-1910) e John Dewey (1859-1952), também conhecidos como ‘pragmatistas clássicos’. Mais tarde, sob influência de membros do Círculo de Viena desembarcados nos Estados Unidos, surgiram os ‘neo- pragmatistas’, assim considerados por terem substituído o tema da experiência (dos ‘clássicos’) pelo da linguagem, a partir do que ficou conhecido como ‘virada lingüística’. A essa vertente vinculam-se os nomes de Willard Quine e Donald Davidson, nos anos 40 e 50 do século passado, e, representando, aí mesmo, uma fase mais recente -aberta nos anos 80- figuram nomes como os de Hilary Putnam, Charles Taylor, Susan Haack e Richard Rorty –este, sem dúvida, um dos pensadores mais criativos, originais e polêmicos dessa última fase (Ver “Apresentação” de Paulo GUIRALDELLI Jr., in: RORTY, Richard, Para Realizar a América: o
pensamento de esquerda no século XX na América, Rio de Janeiro: DP&A, 1999).
387 Em boa medida, a presente seção compreende uma reprodução/reelaboração do seguinte texto de nossa
autoria: NASCIMENTO, Antônio J., “Pragmatismo”. Revista Candeeiro, Aracaju, Vols. 09-10, 2003, pp. 05- 10.
102 isso implicaria reproduzir o que sempre condenou, que é a ideia de se perseguir a verdade e estabelecer critérios fundacionais para sua aferição.
De igual modo, tampouco lhe diz respeito proceder a uma divisão da realidade entre, de um lado, sua construção psíquica, sua representação, e, do outro, sua dimensão material, porquanto tal dualismo pressupõe que tanto a mente quanto a experiência pode conter toda a realidade. Para o pragmatismo, não apenas a noção de que a mente possa fornecer uma cópia do mundo é rechaçada, como também a de que a experiência possa encerrar em si mesma toda a realidade, uma vez que a “realidade” que o pragmatismo tem em vista é aquela do naturalismo, encarada sob uma perspectiva de fluxo contínuo no qual se insere a experiência humana. Se não fosse assim, vale dizer, se a realidade se prendesse à totalidade dos objetos conhecidos, a atividade que consistiria em incrementar o conhecimento fundado na experiência tornar-se-ia então impraticável e esvaziaria a tarefa primordial do pragmatismo388.
Em correspondência, pois, com aquilo que alegara Nietzsche389, a saber, que, para fazer justiça à vida, seria necessário eliminar o pensamento metafísico, foi exatamente a isto, como tarefa, que o pragmatismo se dedicou com pertinácia. Por certo, nenhum outro aspecto traduz melhor sua peculiaridade, como construção filosófica, que o que diz respeito ao acerto de contas com a tradição metafísica do ocidente, entendida ali como a busca sistemática, por trás dos acontecimentos, das unidades doadoras de significação390.
Assim, noções dualistas como as de aparência-essência, real-imaginário, verdadeiro- falso –típicas daquela tradição– são estranhas ao pragmatismo, e nele tampouco tem lugar algo do tipo “conhecimento real do mundo”, “realidade intrínseca” ou “verdadeira essência das coisas”. No modo pragmático de ver, tudo isto não passa de tralhas do legado metafísico platônico-cartesiano que impregnou a filosofia e a ciência ocidentais com a crença de que existe, lá fora, uma realidade oculta em algum lugar aguardando para ser desvelada, esquadrinhada, dissecada em todos os seus termos constitutivos pelo sujeito da consciência, o sujeito cognoscente de Descartes.
Para o “pragmatismo”, o que há são descrições do mundo, e a nenhuma delas está reservado qualquer privilégio que tenha que ver com a melhor representação do mundo, e
388 Cf. SHOOK, John., Os pioneiros do pragmatismo americano. Tradução: Fábio Said. Rio de Janeiro: DP&A
Editora, 2002, p. 18.
389 Cf. NIETZSCHE, F., 2008, op. cit..
390 Cf. BEARDSWORTH, Richard, Nietzsche. Tradução: Beatriz Sidou. São Paulo: Estação Liberdade, 2003,
103 muito menos com a certificação de sua veracidade391. Do que decorre que a ideia de verdade como correspondência, como espelhamento do mundo, deve ser de uma vez por todas abandonada392.
A título de reforço do que se vem de registrar, há que se sublinhar, ainda que en
passant, o contributo de Wittgenstein para a filosofia da linguagem –relacionada por
Habermas entre os motivos que concorreram para o fim do pensamento metafísico. Emblematicamente, nenhum outro filósofo contemporâneo empenhou-se tanto em conduzir sua própria obra à autossuperação como Wittgenstein, o que acabou por lhe render a reputação de filósofo do fim da filosofia. De fato, como antiteórico radical e pensador antimetafísico, Wittgenstein estava convencido de que a orientação dos princípios gerais da tradição teórico-filosófica do ocidente compreendia uma espécie de patologia, que concorrera mais para criar do que para resolver problemas, gerando, assim, “câimbras mentais” e “hematomas” no intelecto arremessado contra os limites da linguagem393.
Nessas condições, a tarefa da “filosofia”, tal como ele a entendia, deveria ser eminentemente “terapêutica”, no sentido de nos ajudar a dissolver problemas: “a solução do problema da vida é uma maneira de viver que faça desaparecer o problema”394, tornando- nos aptos a viver numa cultura em que, no limite, não tenhamos mesmo mais necessidade alguma de filosofar. Até lá, contudo, o fato de a filosofia permanecer em atividade deve ser atribuído à sua serventia em descrever “jogos de linguagem”, em se prestar como pharmakon
391 Mas a despeito de sua bem marcada posição antimetafísica, não se deve depreender que o pragmatismo
jamais dialogou com filósofos da tradição metafísica. Peirce, por exemplo, nunca omitiu a ascendência kantiana em seu pragmatismo (Cf. SINI, Carlo, “Il problema della storia e della società nel pragmatismo americano”, in: VIMERCATI, F. Che Cos’è il Pragmatismo. Milano: Jaca Book, 2000, p. 14). Afinal de contas, Kant foi o primeiro dos filósofos, ressalta Putnam (PUTNAM, Hilary, El Pragmatismo: un debate abierto. Traducción: Roberto R. Reynolds. Barcelona: Gedisa, 2006), a nos advertir para o fato de que descrever o mundo não equivale a imitá-lo, a ter dele uma cópia fidedigna, insuscetível de desacordo quanto à aceitação daquilo que nos está sendo oferecido como descrição, como se fosse o objeto tale e quale. Kant sugere que toda vez que nós, seres humanos, apresentamos uma descrição do mundo, fazemo-lo, antes de mais nada, apoiados em escolhas conceituais, de acordo com nossa natureza e interesses. Não sendo assim, somente resultaria cabível pretender uma descrição das coisas como são em si mesmas se se pudesse –o que não é bem o caso– empregar para isso uma “linguagem própria” (do mundo), e não a dos humanos, falantes. Por isso, a rigor, o termo em si mesmo é destituído de sentido, sem razão de ser, é completamente vazio.
392 Cf. RORTY, R., Philosophy and the mirror of nature. Princeton, New Jersey: Princeton University Press,
1979.
393 D’AGOSTINI, Franca, Analíticos e continentais. Tradução: Benno Dischinger. São Leopoldo: Editora
Unisinos, 2002, p. 54.
394 CHAUVIRÉ, Christiane, Wittgenstein. Tradução: Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Zahar,
104 para a cura de problemas genuínos, à margem da edificação de novas doutrinas e sistemas filosóficos ocupados, desde sempre, segundo Wittgenstein, com falsos problemas.
De mais a mais, ao tornar desacreditadas as concepções de verdade e objetividade, condenando, de uma vez por todas, o paradigma representacionista, por meio da refutação da correspondência da linguagem a estados de coisas, Wittgenstein contribuiu dessa forma para o entendimento –quem o diz é Richard Rorty– de que, a partir da descrição dos diversos jogos linguísticos em seu uso corrente, o pragmatismo pode também nos ajudar a perceber que “compreendemos o conhecimento quando compreendemos a justificação social da crença e, desse modo, não há necessidade de ver o conhecimento como exatidão de representação”395.
Disso decorre que o que compete ao conhecimento não é propriamente fundar ou criar uma realidade, mas sim descrever e explicar seu modo de funcionamento. Não o fazer equivaleria, ao contrário do que prega o pragmatismo, a reproduzir o modus operandi da filosofia tradicional, que sempre perseguiu, pelo conceito, apropriar-se, como se diria no léxico heideggeriano, do ser das coisas como verdade fundamental.
Por fim, observe-se o seguinte: foi com Platão que teve lugar um acontecimento que marcaria de uma vez por todas o destino da metafísica ocidental: a harmonia original da natureza é rompida e o pensamento é apartado da realidade. Mas para o pragmatista Rorty é bem outra a leitura que se pode fazer disso que temos procurado ressaltar aqui como a história de um velamento engendrada por Platão. Seu entendimento é o de que Platão –“que afinal nos teria predisposto a preparar as coisas para a manipulação”– nos conduziu a “identificar o sentido da vida com a obtenção do que queremos, com a imposição da nossa vontade”396. Juntos, Platão e Aristóteles –acrescenta Rorty– forneceram-nos uma “descrição técnica e instrumental daquilo para que servia pensar”397.
Por essa via transversa, Rorty elaborou sua curiosa interpretação da essência do platonismo em Heidegger, com a finalidade de buscar, no pensador da hermenêutica existencial, apoio para o seu pragmatismo, que ele defende, a nosso ver, como o inevitável de algo inscrito a que se chegou não por desvirtuamento de um pensar originário, mas como desdobramento de um aprendizado que nos preparou para a superação do ceticismo
395 RORTY, R., 1979, op. cit., p. 170: “...we understand knowledge when we understand the social justification
of belief, and thus have no need to view it as accuracy of representation”.
396 RORTY, R., Ensaios sobre Heidegger e outros. Tradução: Eugénia Antunes. Lisboa: Instituto Piaget, 1999,
p. 57.
105 epistemológico. No fundo, Rorty vê o pragmatismo como o legado vitorioso da interpretação “técnica” do pensamento ocidental398, à luz do que sugere, provocativamente, que, se Heidegger tivesse que optar entre o ceticismo platônico e o pragmatismo, a escolha dele recairia sobre este último.