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7 Markov Models

2.3 Algorithm Flowchart Microarray Data Simulator

Assim, a uma experiência literária orientada por parâmetros estéticos naturalistas, que entravam em declínio, segue-se, sob o mesmo génio criador, o reacendimento da velha paixão romântica que nascera nos anos da formação de Eça de Queirós em Coimbra, através das influências de Michelet, Poe e Nerval, que lhe despertaram a atração por temáticas associadas ao sonho e à fantasia.40 Como diz João Gaspar Simões: “Todos os que têm escrito sobre Eça de Queirós são unânimes a assinalar que na sua obra transparece claramente um fundo romântico jugulado por uma invulgar disciplina realista.” (Simões, 1973: 31) Julgamos, portanto, que é possível afirmar, neste contexto, que OM e AR surgem como uma espécie de cadinho de fusão de caminhos estético- literários, onde, por um lado, encontramos reminiscências do jovem autor das Prosas

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Veja-se o que diz António José Saraiva: “Estes anos de Coimbra aparecem em Eça cheios de um prestígio lendário: são algo como a sua idade de ouro, onde se situam todos os sonhos criados por um desejo que quer libertar-se da realidade e ganhar um mundo ilimitado, imaterial, luminoso e dócil a toda a fantasia. (Saraiva, 2000: 59)

69 Bárbaras (1866), cuja inspiração, de um lirismo romântico, o mergulha na atmosfera do sonho, da imaginação e da fantasia, longe da observação da realidade, e por outro lado, cruzam-se com estas reminiscências, a que se agregam os cenários exóticos e lendários, certos princípios doutrinários e temas do Realismo, tais como a crítica de costumes sociais e religiosos e a problemática da educação, como iremos ver mais detalhadamente quando nos ocuparmos da análise das obras. É nesta mesma linha de pensamento que António Machado Pires, no seu artigo a propósito do realismo e da fantasia n’ OM, nos fala de uma harmonização de tendências contrárias, numa solução de compromisso entre:

Por um lado, pois, o desejo de agora oferecer ao leitor a liberdade de imaginação, o exótico, o requintado, o longínquo, a aventura, o sobrenatural, por outro lado a constante atenção, a disciplina da realidade observada, a contenção e o rigor arduamente conquistados, flaubertianamente aprendidos nas obras anteriores. (Pires, 1980: 29)

Esta solução de compromisso terá depois continuidade n’ AR, conforme é asseverado pela epígrafe que serve de abertura ao romance: “Sob o manto diáfano da fantasia, a nudez forte da verdade”.

O que nos parece é que esta combinação de estéticas anuncia aquilo que chamamos um novo paradigma da prática literária queirosiana, onde se esbate o rigor no cumprimento das diretrizes do quadro teórico realista e naturalista, bem como o compromisso de intervenção social e de representação do real, assumido por estas doutrinas literárias. Ora, este posicionamento irá ganhar consistência e expressão, em nosso entender, nos romances e escritos da última fase de Eça de Queirós, a que daremos atenção na parte final do nosso trabalho.

Na opinião de João Gaspar Simões, “Não é possível dizer em que momento o escritor perde a confiança na realidade e se deixa arrastar pela fantasia. Vacila entre a literatura de observação e a literatura de imaginação.” (Simões, 1973: 453). Maria do Rosário Cunha atribui como causa desta vacilação duas tendências contraditórias da personalidade artística de Eça: “por um lado, a observação atenta da realidade aliada a um desejo efetivo de nela intervir, que encontrará no Realismo-Naturalismo o meio e os fundamentos dessa intervenção; por outro, a fantasia e uma resistência a imposições de escola que a disciplina realista nunca conseguirá controlar em absoluto.” (Cunha, 1997:

70 32) Como dissemos atrás, OM e AR aparecem na obra do escritor como dois testemunhos importantes desta tensão e da forma como ela seria contornada41, na medida em que, fazendo uma pausa nas constrições do projeto realista, o autor concebe duas obras onde pôde dar asas à sua imaginação e fantasia, sem, no entanto, abandonar completamente a doutrina realista que retomará mais tarde, mas já de uma perspetiva diferente.42

Podemos dizer que este procedimento do escritor corresponde a uma estratégia literária adotada no esforço para encontrar uma síntese e uma harmonização entre ideias, teorias, princípios doutrinários que acabam por dar corpo a uma teoria da arte que se iria configurar como eixo do seu perfil artístico eclético e multifacetado. Sustentamos a nossa opinião em diversos contributos fornecidos, por um lado, por críticos que estudaram a obra e as ideias queirosianas, como é o caso de António José Saraiva, quando se refere a duas fontes de ideias que sabiamente Eça aglutinou na construção da sua ficção: a noção de que a arte é um produto do meio e do contexto histórico em que nasce, oriunda da teoria científica de Taine; e o propósito moralizador subjacente à obra de arte, de filiação proudhoniana (Saraiva, 2000: 106). Por outro lado, podemos apoiar- nos também na própria consciência doutrinária que o escritor expressamente revelou, no artigo intitulado “Positivismo e Idealismo”, a propósito da turbulência que se vivia em França, no fim do século, criada pelas contendas ideológicas entre positivistas jacobinos e a nova geração de idealistas neo-cristãos.43 Para o escritor português a causa dessas revoltas, que acabaram por fazer colapsar o Naturalismo, reside na incapacidade de articulação equilibrada entre duas ideologias, representadas pelas duas esposas – Razão e Imaginação - que, apesar de opostas, se podem complementar mutuamente:

O homem desde todos os tempos tem tido (se me permitem renovar esta alegoria neoplatónica) duas esposas, a razão e a imaginação, que são ambas

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Dizemos contornada e não superada ou resolvida porque isso só viria a acontecer mais tarde com a publicação d’

Os Maias, cuja produção acompanhou a referida tensão, e da qual nos é dado testemunho através, por exemplo, da

discussão no Hotel Central entre Alencar, João da Ega, Carlos da Maia e Craft, e, de forma definitiva, com o reaparecimento da personalidade do dândi Fradique Mendes, assumidamente antirrealista, antifrancês e antiburguês, defensor da recuperação do Portugal genuíno, (cf. Reis, 1999: 160)

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A sua reflexão metaliterária na carta-prefácio a OM aponta-nos precisamente na direção da transformação ideológica que vai ganhando consistência ao longo da década de 80.

43Conforme nos diz Eça, esta luta fora também assimilada pelas artes, entre elas a literatura: “Em literatura, estamos

assistindo ao descrédito do naturalismo. O romance experimental, de observação positiva, todo estabelecido sobre documentos, findou (se é que jamais existiu, a não ser em teoria), e o próprio mestre do naturalismo, Zola, é cada dia mais épico, à velha maneira de Homero. A simpatia, o favor, vão todos para o romance de imaginação, de psicologia sentimental ou humorista, de ressurreição arqueológica (e pré-histórica!) e até de capa e espada, com maravilhosos imbróglios, como nos robustos tempos de D’ Artagnan.” (Queirós, 2002b: 349-350)

71 ciumentas e exigentes, o arrastam cada uma, com lutas por vezes trágicas e por vezes cómicas, para o seu leito particular – mas entre as quais ele até agora viveu, ora cedendo a uma, ora cedendo a outra, sem as poder dispensar, e encontrando nesta coabitação bigâmica alguma felicidade e paz. (Queirós, 2002b: 354)

Assinale-se, por último a opinião de Guerra da Cal, para quem toda a obra de Eça de Queirós se vai construindo sobre uma luta para obter a síntese entre razão e imaginação, numa combinação perfeita entre a realidade e a fantasia, porque estes dois pólos o atraem com igual intensidade.44