2.6 A way to handle the field problem
2.6.2 An algorithm to find an exponential solution over an algebraic
Figura 68 - Aboro aibá (Ipomoeae pes-caprae)174
Autor: Fernando Batista
ascida e criada no Ilê Axé Opô Afonjá, Maria Aparecida Santos parece haver herdado a beleza e imponência da bisavó: a lendária Mãe Senhora, Oxum Miwa. Não à toa, em 2014, também encontrava a bisneta que costuma vender acarajé sob uma sumaúma no canteiro em frente à reitoria da UFBA, estampada em outdoors espalhados pela capital baiana em campanha protagonizada por Ivete Sangalo, denunciando a violência sexual contra crianças e adolescentes.
Cida me revela que foi a imagem da bisavó, falecida em 1967, dois anos antes do seu nascimento, que viu no meio do barracão do Afonjá convidando-a para dançar, evidenciando
174 Segundo Voeks (2013), planta associada a Nanã. No entanto, Ekedy Sinha a vincula a Yemanjá. Comum em
áreas litorâneas, as belas e abundantes flores lilás só abrem nas primeiras horas da manhã. Talvez daí a denominação inglesa Beach morning glory (VOEKS, 2013, p. 403). No Brasil, é popularmente conhecida como “pé de cabra”, apresentando significativo valor farmacológico como demonstra o estudo de Krogh (2001).
que a matriarca Maria Bibiana do Espírito Santo permanece bem viva na memória dos seus descendentes.
Foi a primeira manifestação d’aquela que nasceu para ajudar, Nanã Nantejuá, que Cida afirma haver nascido em 26 de julho, data em que foi recolhida para (re)nascer sob o aludido orunkó. “Dia de Nanã”, frisa a neta do ilustre filho biológico e único de Senhora, tão lendário quanto a mãe, Deoscóredes Maximiliano dos Santos, Mestre Didi, escritor, artista plástico175 e Alapini, cargo máximo exclusivamente reconhecido a um homem no culto de Egungun e fundador da Sociedade Cultural e Religiosa Ilê Aṣipà, em 1980, em Salvador.
Seria a primeira vez que Nídia de Yemanjá176, Yadetá, a mãe biológica e uma das filhas de Didi177, não iria à missa em louvor à matriarca da Sagrada Família para os católicos.
Cida, assim, ouviu-a comentar178. Mas não lamentar, pois percebo que os membros do
Candomblé baiano que descendem de uma linhagem histórica dentro da religião, orgulham-se em ver os herdeiros dando continuidade ao legado religioso179.
É na sala da casa da mãe biológica – na ocasião, a de Cida estava sendo pintada –, sob a imagem de Mãe Senhora iconizada por Pierre Verger, reproduzida em um quadro imenso na parede daquela sala, que a bisneta de Senhora, “filha de santo de Mãe Stella”, como a própria ressalta, se põe a revelar quais árvores e quais espaços as mesmas assumem no Terreiro fundado por Mãe Aninha, Obá Biyi, em 1909, o Ilê Axé Opô Afonjá.
Essa nossa conversa ocorreu na tarde do domingo, 22 de novembro de 2015, data estabelecida por Cida, às vésperas de ela seguir ao Axipá, onde, com outras pessoas do
175 Sobre a obra de Mestre Didi, v.: <http://murilocastro.com.br/2008-mestre-didi-da-ancestralidade-a-
contemporaneidade/>. Acesso em: 09 jan. 2016.
176 Nídia Santos foi iniciada por Obaráyì, no Ilê Axé Opô Aganju. É mãe biológica de mais sete filhos, além da
minha interlocutora: Cátia, Iraildes (que vivem com a mãe numa mesma casa no Afonjá), Nicéia (que vive no RJ), Iaracira, José Félix (atual otun alagbá do Ilê Axipá), Antônio Carlos e Luís Carlos.
177 Embora os sítios que noticiaram o falecimento do Mestre Didi apontem a cantora lírica Inaicyra Falcão dos
Santos como única filha biológica, o Alapini é pai biológico de mais duas filhas: Nídia (a mãe da minha interlocutora) e Iara.
178 O que evidencia que não obstante a atual Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, Mãe Stella de Oxossi Kayodê,
liderar, no início dos anos 1980, um movimento que afastou, desde então, as imagens católicas de dentro daquele Terreiro e dissociou práticas rituais do Candomblé de templos católicos no âmbito do Afonjá, o sincretismo não se desfez nos agentes religiosos por decreto, com o simples ocultar daquelas imagens. Embora à época da iniciação da minha interlocutora as associações sincréticas devessem obter maior ênfase entre os agentes religiosos, com maior vantagem, digamos assim, para os Santos católicos, a menção ainda hoje e a oferta anual, no dia de Sant’Ana, de um munguzá, pela minha interlocutora, demonstram a perenidade do sincretismo em relação, especificamente, a algumas deidades. No entanto, parece-me que se um tempo atrás, não tão longíquo assim, os santos católicos venciam esses duelos sincréticos, hoje me parece que os Orixás asseguram vantagem. Minha interlocutora afirma: “Nasci no Dia de Nanã [26 de julho]”. Assim, parece-me que poucos são os que têm como imagem de Nanã uma deidade diferente da que se apresenta nos barracões. Mais do que nunca, “aqui, na Bahia, ..., é o catolicismo que recebe a influência do fetichismo” (NINA RODRIGUES, 2014, p. 125).
179 Assim ocorre com José Félix dos Santos, irmão biológico de Cida Santos que assumiu a liderança do Aṣipá
após a morte do avô em 2012. V. depoimento em: <http://blogdoacra.blogspot.com.br/2011/12/trajetoria-do-ile- axipa-ancoragem-dos.html>. Acesso em: 02 jan. 2016.
Afonjá, permaneceria por uma semana na Sociedade fundada pelo avô por força de obrigações internas. Chego ao Afonjá e encontro Cida, o marido Fernando, a irmã Cátia180, Obaterê e alguns outros membros daquela roça em momento de lazer, compartilhando feijoada, cerveja, churrasco, conversas e gargalhadas ao som do arrocha. Por isso, após algum tempo, Cida me conduz à sala da casa da mãe de modo a assegurar menos interferências sonoras a nossa conversa. De nada adiantou, pois da rua brotava o ensurdecedor pagode baiano que figura como trilha sonora para a nossa conversa, não emudecendo a voz clara e límpida de Cida.
No Afonjá uma muda de baobá foi plantada por trás da Casa de Oxossí, que “tem todo um enredo com a ancestralidade”, afirma a minha interlocutora, mencionando, ainda, que “[o baobá] talvez seja uma árvore mais forte, mais energia, porque vem da parte das ancestrais, das Iyás, né?”, num esforço para informar qual o espaço que a Adansonia digitata ocuparia entre o Iroko, a Apaocá e o Idacô, às quais na atualidade se estendem, exclusivamente, as práticas rituais dispensadas aos Orixás cultuados ali.
Portanto, embora Nanã Nantejuá atribua sacralidade a todas as árvores daqule Ilê e recorde duas mangabeiras (Hancornia speciosa)181 que ali haviam e marcaram sua infância, são Iroko, Apaocá e Idacô que assumem uma indispensabilidade às práticas rituais, embora os critérios para associá-las aos Orixás não me pareçam claros. Pois se em um momento a minha interlocutora alude a uma associação por gênero: a Iroko se encontra associados os Orixás masculinos; a Apaoká (figura 69) – que “é uma árvore feminina, assim como deve ser ‘a o baobá’”, vinculam-se as Yabás; em outro afirma que à Apaoká se encontra associada a Família da Palha, a qual, como se sabe, possui dois membros masculinos: Omulu e Ossaim; a
Idacô, minha intercolutora vincula os “Orixás funfun, tudo branco, da Família de Oxalá”.
Vale ressaltar que a associação dessas três árvores aos Orixás ali cultuados, faz-se mediante a prática para a qual Mãe Cici me recomendou silêncio.
180 Assim como Cida, Cátia, de voz mais aguda que a irmã, é uma das condutoras dos cânticos entoados no culto
de Babaegun no Ilê Aṣipá, como presenciei no ritual ali realizado no dia 06 de janeiro de 2016.
181 Nativa do Brasil, mais especificamente do bioma caatinga, a Hancornia speciosa também é encontrada no
cerrado e em áreas litorâneas do Nordeste brasileiro. No litoral nordestino poderia figurar como uma das espécies vegetais mais vitimizadas pelo histórico adensamento populacional que caracterizou essa área do território brasileiro e que, nos últimos anos, tem-se acelerado em virtude da especulação imobiliária e turística que vem, a olhos vistos, deformando e privatizando a orla nordestina. Para saber mais sobre a mangabeira, v.: <http://livraria.editora.ufla.br/upload/boletim/tecnico/boletim-tecnico-67.pdf>. Acesso em: 03 jan. 2016.
Figura 69 - Apaoká do Ilê Axé Opô Afonjá, em 27/01/2016, 12h03182
Autor: Fernando Batista
Mas ao reforçar a sacralidade de todas as árvores, mesmo quando dissociadas de práticas rituais, Nanã Nantejuá deixa transparecer que do baobá sabe que a árvore é utilizada como abrigo, além de ser uma árvore muito antiga, ligada aos ancestrais e, especificamente, às Mães Ancestrais.
As árvores todas são sagradas. O baobá porque criou todas as raízes, né? Todos os seus velhos lá dentro. Foram criadas todas Iyás, fazendo ali todas as concentrações delas, as reuniões delas.
Trata-se de um dado que parece levá-la a associar o baobá à Casa da Família da Palha, onde se encontram assentados Nanã, Omulu, Oxumarê e Ewa, “a família vodun toda junta”, diz a minha interlocutora, corroborada pelo filho de Omulu e Ogan do mesmo Orixá no
182 Encontra-se num barranco por trás da Casa da Oxum, próxima ao baobá. Sob a permissão do Ogan Hernandes
Afonjá e cunhado de Cida, Hernandes Souza183. A essa Família, Cida também associa Ossaim, “ao qual pertence todas as árvores”, mas que é assentado fora de qualquer edificação.
Essa peculiaridade – uma Casa para vários Orixás, “como o baobá que cabem várias pessoas lá dentro, né?” – é própria da Família da Palha, pois os outros Orixás se encontram dispersos em Casas individuais nesses quilombos urbanos que são os vários Terreiros espalhados pela Região Metropolitana de Salvador.
Cida menciona o Oxogum Ladê, em São Cristóvão, Sergipe, liderado pelo “meu tio Régis”, para onde transportou um baobá e que lá foi plantado “atrás da Casa dos ancestrais” e “tá bem bonito”. Trata-se do Ilê Axé Opô Oxogum Ladê, na área rural de São Cristóvão, Sergipe, descendente do Opô Afonjá, fundado por Reginaldo Daniel Flores184, Ogum Toripe,
em 1999, e local do trabalho de campo de Gromberg (2011)185.
É ali, no Terreiro localizado na antiga capital sergipana, que Cida distribui anualmente, em 26 de julho, “Dia de Nanã” – reafirma a minha interlocutora –, um munguzá que começou a ser distribuído no Afonjá quando ela tinha apenas cinco anos. Na ocasião era “produzido” por Yadetá, sua mãe biológica, que acatou a sugestão de Oxum Tokê, “Tia Mãezinha” e mãe biológica de Ogum Toripe, ao ver que a pele da menina Cida se enchia de erupções, “todo ano, no ‘mês de Nanã’ [julho]”186 e lembrar que o avô da menina, Mestre Didi, já afirmava ser a neta, “filha” da mais antiga divindade das águas. Ofertado o munguzá, Cida recorda que dias depois, em agosto, sua pele já estava livre das erupções. O prato simboliza a junção do filho Omulu, cujo principal elemento ritual é o milho – mais precisamente o milho estourado, a pipoca, chamado doburu –, com a mãe, Nanã, simbolizada naquele prato pelo caldo grosso, a lembrar a lama das áreas pantanosas sobre as quais a Yabá exerce domínio.
183 Em comunicação pessoal, via whatsApp.
184 Descendente da família Daniel de Paula – a mesma de Obaràyí – Reginaldo Daniel Flores nasceu na Ilha de
Itaparica em 1953 e foi iniciado por Mãe Stella. No Afonjá foi criado por Nídia Santos, Yadetá, após o falecimento de Tia Mãezinha, como Cida se refere, também, a Clarice Daniel de Castro, Oxum Tokê, mãe biológica de Reginaldo. “Ele chama mãe de mãe não é só porque mãe é de Yemanjá, não! É porque mãe ajudou a criar ele”, afirma Cida em relação a esse “irmão mais velho”, o qual, no entanto, é por ela tratado como “meu tio Régis”.
185 Como lembra este autor (GROMBERG, 2011, p. 108), o calendário religioso do Oxogum Ladê só é definido
após definidos os do Afonjá e do Aṣipá, de modo a evitar coincidência de datas, assegurando, consequentemente, a presença de membros imprescindíveis – parece-me – à realização dos cultos nas três Casas: além de Cida, do marido Fernando Souza, um dos doze mobás de Xangô do Afonjá e um dos ojés no Aṣipá; Yadetá; Obaterê.
186 Embora seja o filho mítico de Nanã, Obaluayê, o Rei Dono da Terra; ou Omulu, o Filho do Senhor
(VERGER, 1997, p. 212), que é considerado “o patrono de todas as doenças de pele, estando associado, principalmente, a doenças eruptivas que causam feridas” (GROMBERG, op. cit., p. 175). Daí a pipoca assumir uma simbologia especial no culto do “Velho”, pois pela semelhança com feridas, o milho estourado assume “uma dupla polaridade, não só de figura representativa da própria doença, mais (sic) também daquela que possui poderes de cura” (Ibid.).
As narrativas produzidas em torno das erupções cutâneas que acometiam a menina Cida se mostram, assim, repletas de significados que refletem os contextos sociais vivenciados por aqueles agentes. Destaca-se, sobretudo, a natureza coletiva de tais narrativas, ao apresentar falas de diversos atores sociais envolvidos nas práticas cotidianas por eles compartilhadas, a sugerir conjunção de várias opiniões que se consolidam num só diagnóstico.
Práticas que evidenciam que nos contextos sociais em que aqueles agentes se encontram inseridos, as deidades asseguram lugar privilegiado, se mostrando mais imanentes que transcendentes. Nesse aspecto, os três elementos verificados por Bruno Latour – proximidade, atualidade e transformação – encontram-se presentes no discurso religioso, pois
assim como as sentenças amorosas devem transformar os ouvintes, tornando-os próximos e presentes, sob pena de serem nulas, os modos de ‘falar religião’ devem trazer o ouvinte e também o falante à mesma proximidade e ao mesmo sentido renovado de presença — sob pena de serem menos que insignificantes (LATOUR, 2004, p. 355).
No dia desse nosso encontro, Nanã Nantejuá se mostrou receptiva à ideia de eu fotografá-la novamente187, dessa vez junto a uma árvore do Ilê Axé Opô Afonjá que lhe fosse significativa. “Aos pés de Iroko”, propôs lépida a minha interlocutora, apesar de recordar de duas mangabeiras (Hancornia speciosa) que ali existiam e “que fazia de gangorra” nos momentos de infância.
A oportunidade para o registro fotográfico da minha interlocutora só surgiu 2 meses e 5 dias depois, quando, sabendo do retorno de Cida após algumas semanas em Sergipe, vou ao Afonjá para o amalá “arreado” semanalmente, às quartas-feiras, ao Orixá Xangô. Trata-se de um momento já tradicional daquele Terreiro que faz com que ali muitos acudam, aos quais, também, é servido um pouco do prato votivo do Orixá patrono do Afonjá, caso afirmativa seja a resposta à pergunta: “Já salvou Xangô?”
No entanto, naquele dia, 27 de janeiro de 2016, encontro Nanã Nantejuá em sua cozinha, sem fôlego para fotografias, envolta que estava no preparo de abarás e massa de acarajé, para retornar, na tarde daquele dia, ao ponto da “baiana”, como a própria a si mesma se refere.
187 Alguns anos atrás a fotografei, sem pretensões acadêmicas, acomodada sobre as raízes da gigantesca
sumaúma existente à direita da entrada do Ilê Axé Opô Afonjá, trazida, segundo Martins & Marinho (2002), por Carybé de Cuba e por ele ali plantada. E agora faço uso dessa fotografia na subseção 1.4.1 (figura 24) desta dissertação.
E foi naquele ponto, sob a espessa copa da sumaúma ali existente, que a “baiana”, que trazia à mostra, enroscada ao pescoço, uma conta rajada em alusão a um dos integrantes da família da palha188, ofereceu-me este sorriso:
Figura 70 - Cida de Nanã Nantejuá comercializando seus quitures sob a sombra da Ceiba petandra no canteiro
localizado no entroncamento das ruas Padre Feijó, João das Botas e Dr. Augusto Viana, próximo à reitoria da UFPE. Vale do Canela, 27/01/2016, 16h15.
Autor: Fernando Batista
188 Conforme Martins & Marinho (2002, p. 57), os Orixás que compõem a família da palha “usam contas rajadas
(ou riscadas), as preferidas dos Voduns: Omolu as usa marrons, riscadas de preto; Oxumarê, amarelas, rajadas de preto [como a que está sendo usado por Cida, acima], ou verdes, rajadas de amarelo; Euá, amarelas, rajadas de vermelho; Nanã, brancas, rajadas de azul.”