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Como foi possível constatar a partir das experiências palhacescas e da pesquisa bibliográfica realizada, a atuação palhacesca nos palcos hospitalares depende da abertura para a interação com as características do espaço, dos seres que o habitam, e mesmo das variações que se dão entre os diferentes polos presentes no contexto hospitalar, como a vida e a morte. Compreendido como imprescindível na atuação de palhaças e palhaços em palcos hospitalares, a arte do encontro figura é mote criativo central e é percebida como determinante na criação cênica hospitalar. A teatralidade, assim, emerge da abertura para a relação entre artistas e espectadores.

Foi possível perceber, ainda, que no contexto dos hospitais se faz necessário um treinamento pessoal no âmbito das Artes Cênicas por parte de cada artista, bem como no campo das especificidades de atuação nos palcos hospitalares. Esse preparo, como observado, alia-se às situações presentes por meio da sensibilidade das palhaças e dos palhaços, que, ao se encontrarem com crianças hospitalizadas, seus acompanhantes, equipe médica e funcionários do hospital, desenvolvem relações de jogo no tempo e no espaço da ação.

O jogo cênico criado no contexto hospitalar valoriza a singularidade dos indivíduos envolvidos, intensificando-se nesse espaço. Palhaças e palhaços de diferentes formações artísticas, com distintas técnicas e experiências de vida são convidados pelo próprio espaço a articular seus saberes e vivências no momento do encontro com os espectadores, que se tornam ativos na constituição das cenas. O jogo cênico com os integrantes dessa plateia, assim, não permite uma relação que desconsidere as suas subjetividades, pois muitas vezes é composta apenas pela figura palhacesca e uma pessoa em situação cotidiana. As peculiaridades de ambos é que, nestes casos, determinam as ações.

Assim a atuação das palhaças e dos palhaços no contexto hospitalar aproxima-se de um jogo mediado pelo encontro entre seres humanos, ao passo que se distancia de uma forma espetacular convencional de teatro, da rua ou do circo. Nesses palcos permeados pela lógica e pelo universo hospitalar, percebeu-se uma quebra de paradigmas na atuação palhacesca, de modo que palhaças e palhaços passaram a desenvolver suas ações mais sobre o pressuposto de encontrar-se do que de apresentar- se.

As regras desse jogo são distintas, já que, no picadeiro circense ou nos palcos teatrais, os espectadores estão concentrados em um só espaço, onde uma apresentação ocorre para que todos a vejam ao mesmo tempo. Nos palcos hospitalares, as cenas emergem de cada encontro, que, por sua capacidade de transgredir o cotidiano, surpreendem os espectadores com suas proposições. Subvertendo as limitações de tempo e espaço cênicos, esse tipo de atuação compromete-se fundamentalmente com as circunstâncias presentes, distanciando-se delas apenas para promover novas lógicas de ação, que ainda assim são por elas impregnadas.

Portando recursos e memórias milenares, as figuras palhacescas têm por característica a geração de risos coletivos, favorecendo a troca entre seres humanos e, a partir dessa troca, estabelecendo situações de jogo. Dialogando com o tempo e o espaço em que vivem, palhaças e palhaços tanto se repetem como se renovam ao longo dos milênios, e em decorrência desse movimento passaram a ocupar os contextos hospitalares. Neles, compuseram palcos de atuação onde a vida e as Artes da Cena se fundem de maneira intensa.

Neste trabalho, busquei, a partir da valorização das experiências de profissionais que atuaram ou que atuam em espaços hospitalares, além da minha própria experiência vivida como Doutora Brum, constituir uma atitude metodológica que abarcasse esses saberes, concebidos em momentos de treinamento e de atuação. Buscando dialogar com uma sabedoria fundada no corpo, em suas sensibilidades e em sua sabedoria, entrei em contato e propus a compreensão da filosofia de Merleau-Ponty para fundamentar estas reflexões.

Situando as sensibilidades do corpo enquanto importante meio de investigação do fenômeno da atuação de palhaças e palhaços em palcos hospitalares, pude, ainda, ingressar no campo das experiências de profissionais da palhaçaria. Nessas experiências, estiveram sempre presentes o diálogo com o jogo, com as técnicas e sensibilidade palhacescas, bem como com os encontros teatrais, nos quais há uma imprescindível abertura dos artistas para com a alteridade. Essas unidades de significados propuseram-se como importantes caminhos na investigação da atuação palhacesca que acontece em contextos hospitalares.

Com base na experiência de profissionais palhaças e palhaços que atuam ou atuaram em contextos hospitalares, busquei identificar os principais aspectos desse espaço e tempo de atuação. Quais sejam: a elaboração de uma atitude de abertura para o

outro e para as circunstâncias do cotidiano, a constituição de jogos que envolvem técnicas e sensibilidades de cada artista ao longo dos encontros teatrais gerados no hospital.

Partindo desta investigação, na qual me debrucei com intensidade, assumo a impossibilidade de definir em sua totalidade as figuras palhacescas, bem como suas significações materiais e imateriais. Profundamente vinculadas às manifestações humanas do corpo, essas figuras geram conteúdos internos e externos que se fazem num perpétuo movimento de mudança.

Espero que, com esta pesquisa, eu possa aderir a esse movimento de mudança, somando meus pensamentos a um campo que é repleto de transformações. Antes de sentenciar afirmações ou elaborar um manual de atuação palhacesca hospitalar, pretendi, aqui, ampliar as possibilidades de discussão desse fenômeno a partir da experiência de profissionais das Artes Cênicas, assim como de minhas vivências sensibilidades em relação a este tipo de trabalho.

A “[...] intervenção cênica na vida real.” (Wellington Nogueira) traz vasta gama de contribuições para a área das Artes Cênicas e é capaz de ligá-la a diversas áreas do conhecimento, redimensionando suas possibilidades e gerando imbricações para além dos campos do Teatro e do Circo. Dialogar sobre a atuação palhacesca hospitalar, assim, pode significar uma possibilidade de pensar a arte em contato direto com a vida, com diversos campos e saberes.

Nos palcos hospitalares observou-se ainda o desenvolvimento de importantes espaços formativos, onde se desenvolvem pesquisas na arte da atuação palhacesca. As peculiaridades reveladas por este tipo de espaço ampliam saberes e experiências, que influenciam no trabalho artístico em diversos espaços da sociedade. Influenciam também no desenvolvimento da sensibilidade humana, como colocado aqui, elemento essencial a ser desenvolvido no campo da palhaçaria hospitalar. Seja na área das Artes ou no cotidiano, o hospital revelou-se como um potente local de ensino e aprendizagem. Para mim, a atuação palhacesca hospitalar trouxe novas maneiras de estar em contato com arte e com a vida, novos pensamentos e ligações com áreas antes pouco conhecidas, como por exemplo, a da saúde. Posso afirmar com segurança que atuar como palhaça em hospitais infantis foi um dos maiores desafios que, até hoje, encontrei na arte e na vida – como se possível fosse apartá-las. Foi também o desafio pelo qual me apaixonei em desmedida e ao qual dediquei largas horas do dia e da noite entre

sonhos e realidades.

Em ato de entrega para a atuação palhacesca hospitalar, ocorreu-me contextualizar a composição milenar dessas figuras, bem como enveredar pelas experiências de artistas que as compõem diariamente, compreendendo que o passado e o presente se tornam um só neste campo de trabalho. Ao propor esta discussão por meio das linhas aqui escritas, saliento que o tempo aqui empregado foi capaz de dilacerar e reinventar este ser que vos escreve.

Vejo-me em cada letra deste trabalho, que para mim é espelho e avesso. Ao tecer estas linhas, senti sabores, cheiros, sons, cores e texturas que vivi nos palcos hospitalares. Os mesmos nós que insistem em fechar a minha garganta foram os que conduziram esta escrita. Minhas experiências, desse modo, não estiveram presentes apenas ocupando o tempo e o espaço deste trabalho, mas compuseram-no e compuseram-me de maneira vital.

Consta abaixo, para finalizar esta dissertação, uma das primeiras imagens minhas como palhaça atuando em palcos hospitalares. Nela podemos perceber uma tentativa de interação entre as Artes Cênicas e a natureza da Vida:

Figura 14 - Doutora Brum (2013).

Posso concluir que, nesse campo de atuação, se não se dissolvem por completo, muito se atenuam as fronteiras entre a arte e a vida. Com este trabalho, concluo importante ciclo como artista e pesquisadora, desejando oferecer contribuições para outras trajetórias que são artísticas e também cotidianas. Anseio que essas intersecções se ampliem no Brasil e no mundo, somando novos saberes tanto para as Artes Cênicas quanto para o cotidiano hospitalar.

Por acreditar na potência do encontro do Teatro com o cotidiano das pessoas, foi possível tecer estas linhas, alimentadas de múltiplas experiências. Desejosa de que se ramifiquem os diálogos entre a Arte e a Vida, ofereço este trabalho, que de algum modo se propôs a investigar e a contribuir para a construção dessas tão necessárias relações.

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