há alguns anos o tema educação inclusiva não estava tão em voga como nos últimos anos. Ouvia-se muito mais falar nas pessoas com defi- ciência do que propriamente vê-las no dia a dia. E essas pessoas, em sua grande maioria, frequentavam instituições especializadas, como Escolas Especiais, Centros Educacionais Especializados e Classes Especiais, ou seja, passavam longe das escolas de ensino regular.
Na época em que optei por fazer vestibular, no ano de 1996, para o Curso de Educação Especial da Universidade Federal de Santa Maria-RS, também não tinha a ideia ou visão de que esses alunos poderiam frequen- tar um ensino regular, até porque essa era a realidade que eu conhecia: alunos com deficiência frequentando uma Classe Especial. Embora, se analisarmos nossas legislações, o direito de frequentar o ensino regular já era previsto na Constituição Federal de 1988 (BRASIL, 1988), com base na igualdade de direitos, bem como também já previa o Atendimento Educacional Especializado (AEE), preferencialmente na rede regular de ensino. Mas insisto que esta não era uma visão muito clara, pelo menos na minha concepção.
No decorrer da faculdade, essa visão foi se modificando. Fomos aprendendo a conhecer esse público, a descobrir potencialidades e ver possibilidades de ensino e aprendizagem. As próprias políticas públicas foram se modificando, bem como estudos de sucesso de inclusão de pessoas com deficiência no ensino regular.
No ano de 2000, último ano da graduação, realizei estágio com uma turma de Estimulação. Minha visão educacional ainda continuava muito voltada ao ensino dentro de Instituições Especializadas. Assim concluí mi- nha graduação. No ano de 2001, fui aprovada em um concurso do Estado do Rio Grande do Sul e nomeada no ano seguinte. Minha nomeação foi para assumir uma Sala de Recursos para Deficientes Mentais (como era denominada na época da nomeação).
A partir de então, posso dizer que realmente se iniciou minha caminhada e minha relação com a Educação Especial. Comecei o trabalho com oito alunos, todos com diagnóstico de Déficit intelectual.
No início foi difícil, pois meu papel dentro do contexto escolar não estava definido. Os colegas de escola não entendiam qual era a minha função naquele contexto, achavam que os alunos que eu atendia em Sala de Recursos não deveriam frequentar o ensino regular, mas sim permanecer somente com o suporte educacional da Sala de Recursos. Ressalto que para mim também foi um processo de construção e aprendizagem sobre o que eu defendia: a inserção e inclusão desses alunos dentro da sala de aula regular. Necessitei buscar muito aporte teórico para poder auxiliar meus colegas na compreensão desse pro- cesso inclusivo.
Conforme Ropoli (2010, p. 9), “a escola comum se torna inclusiva quando reconhece as diferenças dos alunos diante do processo educativo e busca a participação e o progresso de todos, adotando novas práticas pedagógicas”. Dessa forma, com o passar do tempo, os professores foram repensando e reestruturando o próprio imaginário que tinham acerca desses alunos. Foi um processo de construção coletivo e emocionante, pois meus alunos estavam conquistando um pequeno espaço dentro da escola.
Até hoje continuo atuando nessa escola, portanto há 12 anos, e creio que já tenhamos conquistado um espaço significativo nessa realidade
C A P ÍT U LO 3
escolar, embora ainda esteja longe do que considero ideal, mas sei que a cada ano temos novas conquistas.
Durante quatro anos consegui desenvolver projetos voltados para os alunos em Sala de Recursos, tais como: Equoterapia, Recreação e Psi- comotricidade. Depois de algum tempo, em função da necessidade de profissional da Educação Especial em outra escola, fui removida 20h para outro estabelecimento de ensino, de forma que não consegui manter esses projetos, ficando somente o atendimento em Sala de Recursos.
Nessa segunda escola, atuo há quatro anos. É uma escola também da rede Estadual de Educação, localizada na periferia da cidade, com reali- dade socioeconômica desfavorecida. Temos muitos casos de familiares e alunos em situação de vulnerabilidade social, drogadição, violência e maus tratos. Grande parte desses alunos recebiam acompanhamento junto ao Conselho Tutelar. E foi nesse contexto aberta a Sala de Recursos e iniciado o atendimento de oito alunos com déficit intelectual. Posso dizer que o processo inicial se deu de forma semelhante ao da primeira escola que atuei no início da minha atividade profissional.
A Sala de Recursos foi vista, tanto pelos professores como pelos pais, inicialmente, como a “sala de reforço”. Então, um grande número de alunos foi encaminhado para atendimento. A grande maioria apresentava difi- culdades de aprendizagem nas áreas de leitura, escrita e cálculo. Sempre realizei as avaliações pedagógicas, pontuando para os professores que aqueles casos não eram casos para atendimento em Sala de Recursos. Na grande maioria das vezes, podia-se perceber a decepção por parte dos colegas, pois na visão deles aquele aluno tinha “algum probleminha”. Confundiam muito déficit intelectual com o fato de o aluno não ler, ou não escrever ou não saber realizar cálculos e operações matemáticas. A grande maioria tinha lacunas em seu processo de alfabetização, além de não possuir uma estrutura familiar e social que lhes permitisse um melhor aproveitamento escolar. Nos casos em que julguei necessário realizar as avaliações médicas, foram feitos os encaminhamentos. Porém, havia mais um entrave: a demora em se conseguir consultas com especialistas pelo Sistema Público de Saúde, tendo em vista que praticamente nenhum de nossos alunos possui plano de saúde. E, quando conseguíamos, muitas vezes,
o responsável não comparecia com o aluno à consulta. Saliento que a falta de laudo médico não impediu o aluno de frequentar a Sala de Recursos.
No ano de 2010, começamos a receber a Sala de Recursos Multifun- cional, do Ministério da Educação, com os equipamentos e mobiliários (Figuras 1, 2 e 3). É uma Sala de Recursos Tipo I, composta por compu- tadores de mesa, notebook, scanner, impressora laser, teclado colmeia, mouse com entrada para acionador, acionador de pressão, mobiliário adequado, com armários, mesas e cadeiras e mais alguns materiais pe- dagógicos como jogos de sequência lógica e memória. Ainda não rece- bemos todos os materiais que compõem a sala, mas nos foi informado que eles são enviados em pequenas remessas. Cabe ressaltar que é uma sala com boas condições de uso e de trabalho. Muitos materiais foram confeccionados por mim, de acordo com a necessidade dos alunos, como jogos de memória, dominós, formas geométricas, entre outros, e a escola também proporcionou a compra de outros materiais que favorecem o atendimento dos alunos.
Não posso dizer que hoje, no ano de 2013, o processo de compreensão e aceitação da inclusão tenha mudado completamente. Ainda existem professores que não compreendem o real papel da Sala de Recursos e do Atendimento Educacional Especializado, mas acredito que estamos todos em constante transformação e aprendizado e que nossa busca pela igual- dade de acesso e condições de permanência desses nossos alunos tende a evoluir cada vez mais, conquistando um especo que é seu por direito.