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R AISONS QUI EXPLIQUENT LES COUPURES ET LA NON - PRISE DE L ’ AIDE COVID-19

3. ETAT DE LA SITUATION SUR BASE DES INFORMATIONS RÉCOLTÉES

3.2. R AISONS QUI EXPLIQUENT LES COUPURES ET LA NON - PRISE DE L ’ AIDE COVID-19

Pertencente à linha pós-estruturalista, Authier-Revuz centra seus estudos na enunciação, e além de considerar a estrutura, dá lugar à relação da linguagem com a sua exterioridade (AUTHIER-REVUZ, 1998). Assim, ela fundamenta a noção de heterogeneidade enunciativa, tomando como referência o dialogismo do Círculo de

Bakhtin, e a noção de inconsciente na psicanálise freudiana, marcada por Lacan, pontos de vista considerados elementares, mas separados do objetivo original – a autora mantém, assim, sua aproximação com a Linguística.

Authier-Revuz destaca a noção de um sujeito atravessado pelo outro, mas “um outro que não é nem o duplo de um frente a frente, nem mesmo o ‘diferente’, mas um outro que atravessa constitutivamente o um” (2004, p. 21). Desse modo, a linguista concebe o sujeito como constitutivamente heterogêneo, pois é atravessado pelo social, pelo que lhe é externo, pelo outro. Ainda segundo a linguista, essa heterogeneidade pode mostrar-se no discurso, pois à medida em que o locutor faz uso de palavras “dá lugar explicitamente ao discurso de um outro em seu próprio discurso” (2004, p. 12).

Baseando-se no dialogismo do Círculo de Bakhtin, Authier-Revuz (1990, p. 26) lembra que “as palavras são, sempre e inevitavelmente, ‘as palavras dos outros’”. Assim, um discurso sempre pressupõe um já dito pelo outro. Nessa perspectiva, as palavras não são neutras, pois são sempre atravessadas por outros discursos.

De acordo com essa concepção, o discurso é atravessado pelo inconsciente, ou seja, ele é produto do interdiscurso. Nesse sentido, considera-se que a fala é determinada de fora, ou seja, exterior ao sujeito e à vontade dele. Porém, esse funcionamento exterior é ignorado “pelo sujeito que, na ilusão, se crê fonte deste seu discurso, quando ele nada mais é que o suporte e o efeito” da linguagem (AUTHIER- REVUZ, 1990, p. 27). De acordo com a autora, trata-se de uma ilusão necessária, na qual o sujeito contenta-se em fazer escolhas e tomar decisões ao enunciar.

A linguista explica que a heterogeneidade enunciativa se divide em dois planos interligados: a heterogeneidade mostrada (marcada e não marcada) e a heterogeneidade constitutiva. Esta última diz respeito à natureza heterogênea da própria língua, enquanto a primeira, a heterogeneidade mostrada, corresponde às “formas linguísticas de representação de diferentes modos de negociação do sujeito falante com a heterogeneidade constitutiva do seu discurso” (AUTHIER-REVUZ, 1990, p. 26). Na heterogeneidade mostrada no discurso ocorre uma alteração no fio discursivo correspondente à inscrição do outro, seja de forma marcada ou não.

No caso das formas marcadas, uma das ocorrências diz respeito à autonímia. Na autonímia simples, “a heterogeneidade que constitui um fragmento mencionado, entre os elementos linguísticos de que faz uso, é acompanhada por uma ruptura sintática” (AUTHIER-REVUZ, 1990, p. 29). Em outras palavras, o fragmento é apresentado

como objeto, como por exemplo, termos colocados entre aspas, destacados em itálico, ou ainda, em forma de glosa.

Outra forma de heterogeneidade mostrada marcada diz respeito à conotação autonímica, na qual são feitos comentários, glosas e retoques sobre um fragmento da cadeia discursiva, que se apresenta assinalado ou não. Ocorrem, assim, dois empregos do fragmento, um relativo ao uso e outro referente à menção. Trata-se, portanto, de uma “[...] zona de não-coincidência representada, a não-coincidência interlocutiva tal como é encenada no discurso [...]” (AUTHIER-REVUZ, 2004, p. 84), inscrevendo-se no campo da metaenunciação. Isso porque, de acordo com a linguista, em um dizer modalizado autonimicamente, o enunciador faz uma afirmação e, no discorrer do discurso, duplica um elemento enunciado por meio de um comentário – que passa a ser entendido, nessa perspectiva teórica, como um comentário metaenunciativo.

Ainda em relação às formas marcadas de heterogeneidade mostrada, Authier- Revuz (1990, p. 33) explica que estas “representam uma negociação com as forças centrífugas, de desagregação, da heterogeneidade constitutiva”, ou seja, mostram-se como formas do desconhecimento da heterogeneidade constitutiva. São nos lapsos, nos pontos em que há uma quebra da homogeneidade, que a presença do outro emerge no discurso.

As formas não marcadas da heterogeneidade mostrada, por sua vez, são consideradas pela autora como “[...] uma outra forma mais arriscada, porque joga com a diluição, com a dissolução do outro no um, onde este, precisamente aqui, pode ser enfaticamente confirmado mas também onde pode se perder” (AUTHIER-REVUZ, 1990, p. 34). Isso ocorre pelo fato de essas formas não aparecerem explicitamente na cadeia discursiva, sendo necessário que sua heterogeneidade seja reconstituída. Como exemplo desses casos, temos a ironia, o discurso indireto livre, metáforas, dentre outros. Na escrita acadêmico-científica, ao reportar outros estudos o pesquisador faz uso da citação. No artigo intitulado “A representação do discurso outro: um campo multiplamente heterogêneo” (2008), Authier-Revuz desenvolve uma discussão no âmbito da heterogeneidade enunciativa, denominando o discurso citado como representação do discurso outro (RDO). Dentre as razões apontadas pela autora em relação à preferência por esse termo, está o fato de que:

[...] escolher o termo ‘RDO’ é posicionar explicitamente o domínio visado no campo, englobante, da metadiscursividade (discurso sobre

discurso) com a especificação da alteridade (do discurso outro) pela qual se distingue da auto-representação do discurso se fazendo (AUTHIER-REVUZ, 2008, p. 108).

Na perspectiva da heterogeneidade enunciativa, o domínio da RDO configura-se como uma vertente do metadiscurso, por se tratar de um discurso sobre um outro discurso. Esse entendimento difere daquele tido por gramáticos que, de acordo com a linguista, inscrevem o “discurso outro” no campo do metalinguístico – discurso sobre a linguagem, sobre a língua. Além disso, para Authier-Revuz, as formas da RDO diferenciam-se da representação do dizer se fazendo, pois, na primeira vertente, a alteridade (discurso do outro) é marcada e mostrada linguisticamente; enquanto que, na segunda, “[...] a representação se acresce, como um comentário, ao discurso que, hic et nunc, se produz [...] ” (AUTHIER-REVUZ, 2008, p. 110, grifo da autora). No estudo ao qual estamos nos referindo, o foco principal de Authier-Revuz é a vertente da RDO.

A linguista explica que, as formas de RDO, enquanto práticas metadiscursivas, mostram imagens de um discurso outro (DO), as quais passam pela utilização de quatro operações: a predicação do DO, a modalização do dizer pelo DO, a produção de paráfrase e a mostração de palavras. De acordo com a autora, essas operações se cruzam, apresentando formas variadas e “[...] uma gama extensa de graus de marcação, desde casos de sobremarcação até as formas integralmente interpretativas” (AUTHIER- REVUZ, 2008, p. 111).

Para a linguista, o dizer outro, na predicação, é tomado como objeto da enunciação; enquanto, na modalização do dizer, “[...] é este segundo o qual ele fala [...]” (AUTHIER-REVUZ, 2008, p. 111, grifo da autora). A autora também explica que essas duas operações intervêm nas outras duas (a produção de paráfrase e a mostração de palavras) em relação à imagem do DO.

Ainda conforme a autora, quando a imagem do DO é construída por paráfrase discursiva, o enunciado produzido torna-se equivalente ao DO em termos de sentido e de conteúdo. No plano da predicação, esse modo de citar corresponderia às formas de discurso indireto (DI) e suas variações, em que o dizer outro é interpretado pelo sujeito que enuncia. No plano da modalização do dizer, seria correspondente às formas de modalização do dizer como discurso segundo, em que “[...] se fala de um objeto qualquer segundo um outro discurso [...]” (AUTHIER-REVUZ, 2008, p. 112).

Entendemos que, tanto nas formas de DI, quanto nas formas de modalização do dizer como discurso segundo (MDS), as palavras do outro são parafraseadas.

Na operação em que a imagem do DO é construída com mostração de palavras, de acordo com Authier-Revuz (2008, p. 111), “a imagem que o dizer constrói passa por uma mostração de palavras (menção, autonímia) remetidas ao outro discurso, a mostração de uma mensagem outra”, ocorrendo uma especificação do dizer outro no enunciado. De acordo com a linguista, no plano da predicação, essa forma de citar corresponde à zona discurso direto (DD), em que o sujeito realiza a transcrição literal do dizer outro. No plano da modalização do dizer, esse modo de citar diz respeito à modalização autonímica de empréstimo. Neste último caso, o dizer outro passa por modalização e também apresenta trechos transcritos literalmente, marcados entre aspas. Inferimos, assim, que no discurso direto e na modalização autonímica de empréstimo as palavras do outro são transcritas literalmente, reproduzidas no enunciado.

Dando continuidade à abordagem do aporte teórico que ancora esta investigação, tratamos, a seguir, acerca da modalização no discurso científico.

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