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Aire de répartition actuelle d’après les indices de présence

3. RÉSULTATS

3.3 Aire de répartition actuelle d’après les indices de présence

Buscar elementos da Idade Média em um filme do mundo atual e demosntrar a dinâmica histórica com que esses elementos reaparecem no filme, foi a proposta deste trabalho. Acreditamos ter contribuído com o fazerda história, uma vez que sugerimos algumas perspectivas de análise. Anticristoé um elo entre o medievo e o presente, representa uma possibilidade importante de pensar as permanências e rupturas(BRAUDEL, 1990) na história, e mais que isso,propôr uma dinâmica, um ―como funciona?‖ Sobretudo, porque, partimos de um extrato subjetivo, um filme e os lapsos(FERRO, 2010),que ali se apresentam por intermédio da visão do diretor, uma visão repleta de elementos medievais, como tentamos demonstrar, Lars Von Trier nos fez pensar o quão presente é a Idade Média em nossas relações, nos fez desejar perceber a dinâmica dessas permanênciase rupturasemsua viagem no tempo.

Trabalhamos com um exercício teórico, apontamos alguns elementos medievais que estão na longa duração e reaparecem no filme analisado. Acreditamos que esse foi um dos desafios deste exercício: demonstrar tal percepção,utilizando métodos e teóricos da história. Toda essa gama de elementos simbólicos sobre o medievo presente na película de Trier foram tratadas, neste trabalho, como Lapsos ou Reminiscências Medievais e que reaparecem em

Anticristo. Afirmamos que isso é possível, pois tais elementos subjetivos permanecem na zona Intermediária da cultura em uma longa duração. Com base nessas ferramentas teóricas

– que tem na longa duração seu sustentáculo –tentamos mobilizar esses conceitos e com base na dinâmica estabelecida entre eles, apresentamos o neologismo lapso reminiscente, como vestígio do medievo na película. Como, por exemplo, a frase que dá origem à ideia deste trabalho: “A natureza é a Igreja de Satã”, essa é um lapso reminiscente do medievo, na medida em que evoca ideias e percepções medievais, como tentamos demonstrar aqui, utilizando a estrutura teórico-metodológica anteriormente citada.

Assim, nos valemos de tais perspectivas para analisar alguns dos elementos subjetivos de Anticristo, comoa percepção de natureza e de feminino, que, segundo uma de nossas hipóteses, podem ser um eco da tensão entre o cristianismo oficial e as dissidências, ou seja, nos parece que essa relação entre natureza e feminino, seria um saber que deriva da experiência empírica do mundo medievo e das práticas religiosas desse tempo. Entre outros aspectos,a confluência entre as representações mitológicas cátaras (dissidentes) e católicas possibilitaram a existência de elementos que permaneceram na zona intermediária da cultura, e existe uma conjuntura social e política que permite a emersão destes sentimentos em uma

obra cinematográfica do século XXI, que mostra o feminino como causadordo mal que está no mundo físico. O filme traz um mal estar incontestável, pois engendera questões e pensamentos muito antigos sobre a natureza e o feminino. Trier foi e ainda é acusado de ser um diretor misógino e sexista, não sabemos se de fato ele o é, e tão pouco isso interessa ao nosso estudo neste momento, mas sugerimos que Anticristo, muita mais aponta, o mal estar no tempo presente com relação ao feminino e a natureza, como produto das relações geradas pelo cristianismo, e que, de certa forma, se estabelece no mundo medieval.

A mulher é vista como a tentadora do homem, aquela que perturba a sua relação com a transcendência e também aquela que conflitua as relações entre os homens. Ela é ligada à natureza, à carne, ao sexo e ao prazer, domínios que tem de ser rigorosamente normatizados: a serpente, que nas eras matricêntricas era o símbolo da fertilidade e tida na mais alta estima como símbolo máximo da sabedoria, se transforma no demônio, no tentador, na fonte do pecado. E ao demônio é alocado o pecado por excelência, o pecado da carne. [...] a mulher e a sexualidade foram penalizadas como causa máxima da degradação humana (KRAMER, SPRENGER. 1991, p. 12).

Talvez, o filme muito mais defenda do que ataque o feminino, o que ele faz — esse foi nosso esforço— é demonstrar que essas relações também precisam ser pensadas. E nós acrescentamos, que se pode fazê-lo, a partir da história, e de suas possibilidades teórico- metodológicas, com o auxílio de outras áreas do conhecimento certamente.

Acreditamos que conseguimos atingir parte de nossos objetivos neste trabalho, mas ao mesmo tempo sabemos que o que fizemos aqui é um esboço para uma possibilidade de análise que demanda pelo menos dez séculos, algo que evidentemente é impossível de se realizar com um trabalho de conclusão de curso, mas que sem dúvida funcionou como estímulo para que a pesquisa possa continuar em outros níveis.

Tratamos como um risco trabalhar com tantos detalhes e elementosem nossa análise, que além de levantar aspectos historiográficos sobre o medievo, eleborou uma dinâmica teórico-metodológica de análise para o filme, para que pudéssemos dizer com alguma certeza que medievo era esse, que tanto insistia a partir daquele filme. Entendemos que corriámos o risco de cair na cilada das generalizações, no desejo, às vezes, incontrolável, de querer encontrar aquilo que se busca na história, e que nem sempre corresponde àbusca e sim, ao desejo. Temos clareza que o trabalho apresenta pontos básicos e iniciais para um possível estudo mais avançado das questões propostas e que,por isso, poderia ser tachado de superficial, ainda que não tenhamos trabalhado nesta direção. Mas o que é a vida? Senão correr riscos. O que é a História? Senão uma possibilidade concreta de pereceber esses riscos e seus rastros no tempo. Estamos entre aqueles que desejam ardentemente entender a vida e sabem que a História pode ser um caminho para isso também. O que fizemos aqui foi assumir

um risco – um pequeno risco frente a magnitude das coisas – de dizer o que percebemos, o que somos, pois, acreditamos que o objeto de estudo tem relação intrínseca com quem o analisa, estamos dissolvidos na matéria deste pequeno trabalho: também somos a natureza, também somos História, também somos uma das irmãs.

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