3. CURRENT CHALLENGES
3.6. Ageing
As cartas estavam na mesa, mas em mim havia sempre a dúvida se o outro lado as tiraria dali e jogaria comigo. Tudo nasceusem pretensão deser um espetáculo, talvez uma cena deno máximo 10 minutos, um exercício para porà prova minha capacidade, ounão, de transpor imagens que povoam e perambulam pela minha cabeça para corpos que desejo povoar, ocupar umespaço neles com minha encenação. Essesentimentomelevaapensar nas palavrasde Peter Brook (2010), quandoele fala dacentelha.
A raiz do problema consiste em saber se a cada momento, no ato de escrever ou de aturar, existe uma faísca, uma pequena centelha que se acende e dá intensidade a este momento comprimido, destilado. Porque a compressão e condensação não bastam. Mesmo se fazendo cortes numa peça longa demais ou muito prolixa, ela pode continuar sendo chata. O que importa é a centelha, que nesta peça surge muito raramente. É uma prova de que a forma teatral é terrivelmente frágil e exigente, pois essa centelhazinha de vida tem que estar presente a todo instante. (BROOK, 2010, p.10)
O medo habitava na centelha que euteria que alimentarem uma montagem, emquem assiste, em quem me acompanha em cena. A desistência de um de três já fragilizouminha confiançaemtomarfrenteaeste projeto, me restava Fernando, e eu dependia dele. Fernando Bruno, colega de turma, entrou no curso no mesmo momento que eu,trabalhamos juntos em várias disciplinas, sempre nas mesmas cenas, criando um laçoentre nós, uma afinidade na maneira de trabalhar, Fernando tem umtrabalho muito interessante no ramo da performance, mais um dos motivos que me alegram de tê-lo comigo neste projeto, a visão estética dele acrescentoumuito nesta montagem. Abalada pela desistênciadeum,mesmoassim,voltamos a ação e assim, preparei então nosso primeiro encontro, nosso primeiro ensaio de onde partiríamos dotexto para alguma prática, levei tudo esquematizado,sequênciadeexercícios e dinâmicas para começara preparar o campo para otexto, mas desde o primeiro encontro já nos deparamos com o problema que seria um gigante durante todo processo, espaço para ensaio, salas.
O primeiro encontro prático então ficou para o dia 19 de abril. Dois meses após o previsto, este desencontro de meses claramente colocou dúvidas sobre a realização desse projeto, é sempre mais fácilabandonarno começo, maseu não poderia fazê-losemaomenos
tentar. Então nodia19de abril, exatamente, às 14h, nos encontramosnasalaInterpretação do bloco 3Mda Universidade Federal deUberlândia. Fernando Bruno eeu, desta vez eu ditava o que fazer, e para qual finalidade, eu não negarei, Fernando a esta altura já era alguém próximo, disposto a me ajudar sem julgamentos, mas aindaassim eu estava nervosa. Neste dia saberia se conseguiria direcionar o outro para um entendimento do que busco de certa forma em silêncio, o que mais temia era o escuro,a hesitação, quenão embarcássemos nos jogos, nasexperimentações.
Então levei o que havia planejado, introduzindo de maneira suave até chegar nos exercícios que eram mais direcionados a criação de imagens que poderiam me ser úteis na criação e fechamento das cenas. Fui muito cautelosa em comocomeçara propor, pois não busco aautoridade de um diretor, mas a parceria, uma relação horizontal. Este foio ensaio planejadoerealizado:
Amantes mofados 2a vez / ensaio 19 de abril,2017.
1a experimentação prática. - Raízes - Alongamento
- Exercício de enraizamento
Exercício muitoutilizado na preparação corporal propostapela Professora Ana Wuo, na disciplina Interpretação V, onde tiveaoportunidadede aprender conceitos e práticas sobre mimese corpórea, e a criação totalmente desagregada do texto, que aplico na parte inicial nos trabalhoscomasimprovisações.
- Exercício de impulsos - com os pés enraizados começo com pequenos "saltos" sem tirar o pé do chão. Até que o movimento cresça e se reverbere pelo corpo e aí pode-se sair e finalizar a ação.
> objetividade na ação
- Exercício das saídas - todo movimento é uma tomada de decisão. *vento *fumaça * concreto *eu
Na condução encontramos indicações que chamo de objetividade e tomada de decisão, que tratam de uma qualidade na vivência do jogo, uma chamada de atenção para a conexão e consciência do que se está testando e criando, friso a importância do caráter deliberativo, pois, se trata de um método que se relaciona diretamente com as escolhas minhas e de Fernando, escolhas de movimento e de como eles se apresentam,toda variação deve ser uma tomada clara de decisão, internae externamente.
- Pontuar livremente de 1 a 5 etapas/ fotografias desses movimentos. - Repetir alterando a ordem/linkar o texto.
- Transpor para área de atuação ( espaço reduzido) com texto.
- Conexão/ se olhar, toque. Finalizar - Conversa sobre a prática
- Pedir imagens para Fer. Fotografias/ pinturas/ etc.
Propus então exercícios de enraizamento e impulsos para adentrarmos na improvisação por meio das imagens mentais, da memória e sensação, as imagens vinham daquilo queo textome deu, e eu rezavaem silênciopara que não fosse umgrande devaneio e que eu fosse entendida, não era nada tão complexo: explorar pelos espaços corporalmente a sensação, a memória, os movimentos que essas imagens lhe traziam. As imagens para jogo propostas eram:vento,fumaça,concreto e eu (EU - palavrapara jogo).
Na medida em que avançávamosna criação fui objetivando essaimprovisação de modo que fechássemos em algumas imagens que seguissem uma frase que se revelasse em partitura de movimentos E sim, aconteceu. Como metodologia, registrei todo o processo com filmagens, fotografiase anotações em meu diário de trabalho,osquais,são consultados e selecionados constantemente para composição esse memorial. Quando sai dali e assimilei, o que havia acontecido, me entusiasmei de uma forma que eu não saberia dizer. Era possível, eu conseguiria, meu primeiro ensaio oficial de um trabalho meu, onde tudo depende de mim, da minha força, com toda insegurança e de certa forma inexperiência
puxando meus pés eu me ergo, isso irá além, de um feto, apesar dos sangramentos indesejadoselenascerá, porque ele existe, oteste deu positivo!