Instrumentos de autorrelato e métodos projetivos de avaliação psicológica constituem recursos investigativos sobre componentes psicológicos do indivíduo, cada qual com sua área de alcance informativo em função da teoria que os embasa. Uma das peculiaridades dos métodos projetivos é seu objetivo de buscar componentes inconscientes (além dos disponíveis à razão) de comportamentos humanos, ou seja, a acessar aquilo que o indivíduo não quer ou não consegue expressar (Anzieu, 1986; Cohen, Swerdlik & Sturman, 2014).
Os métodos projetivos caracterizam-se por ofertar ao indivíduo estímulos poucos estruturados, solicitando-se construção de respostas relacionadas a essa estimulação, no geral envolvendo percepções e registros verbais ou gráficos. A maneira como o indivíduo executa essas tarefas e as respostas oferecidas fornecerão evidências acerca de suas necessidades, medos, desejos, impulsos e conflitos, sejam eles conscientes ou inconscientes (Cohen, Swerdlik & Sturman, 2014). Dessa maneira, os métodos projetivos permitem o estudo do funcionamento psíquico em uma perspectiva psicodinâmica, considerando as condutas do indivíduo, suas possíveis articulações e potencialidades para mudança (Chabert, 2004).
Diante dessa possibilidade informativa ofertada pela metodologia projetiva de avaliação psicológica, considerou-se relevante identificar trabalhos científicos que utilizaram métodos projetivos para investigação de personalidade de cardiopatas. A partir dessa busca faz-se possível destacar alguns estudos realizados com o Método de Rorschach.
A investigação realizada por Abduch (1990) examinou indicadores do funcionamento psíquico de pacientes com Doença Arterial Coronariana, avaliando 40
54 pacientes com diagnóstico médico, sendo 20 participantes de cada sexo, com maior concentração em escolaridade de nível fundamental (n=35). Os participantes tinham idade entre 30 e 50 anos, sendo 27,5% (n=11) de 30 a 40 anos e 72,5% (n=29) de 41 a 50 anos e os fatores de risco investigados foram colesterol elevado (n=31), tabagismo (n=33) e histórico familiar (n=21). Os instrumentos utilizados foram uma entrevista semidirigida e o Método de Rorschach (Escola Francesa), destacando as variáveis: Fórmulas Vivenciais, mecanismos de Controle e Adaptação Intelectual e Afetiva. Seus resultados apontaram predomínio de tipos afetivo coartado, coartativo e introversivo no Tipo de Ressonância Íntima (TRI) e na Fórmula Complementar do TRI. Não houve alteração da produtividade frente às pranchas coloridas, evidenciando a tendência desse grupo em apresentar bloqueio ou inibição na manifestação e vivência de seus afetos. Em relação ao Controle e Adaptação Intelectual, também foram observados aspectos sugestivos de restrição afetiva, com utilização de pensamento estereotipado e diminuição da produtividade como tentativa de menor envolvimento com o teste. No tocante ao Controle e Adaptação Afetiva, houve sinais de instabilidade emocional, sentimentos de angústia reprimidos e dificuldade no contato humano, tornando-o distante e formal. Em síntese, constatou-se que os pacientes com Doença Arterial Coronariana tenderam a relacionar-se de maneira mais formal, utilizando a racionalização e a função lógica como mecanismos de defesa recorrentes para bloqueio e inibição afetiva (Abduch, 1990).
Em revisão da literatura científica sobre o tema do psicodinamismo e cardiopatia, Bertran (1996) focalizou o uso do Método de Rorschach para o estudo de doenças coronárias. Segundo o pesquisador, os primeiros trabalhos encontrados utilizando métodos projetivos para avaliar pacientes cardiopatas foram escritos por Arlow (1945 apud Bertran, 1996) e Kemple (1945 apud Bertran, 1996). Detalha que Arlow (1945) estudou 13 pacientes com doença coronária, descrevendo-os com sinais de fuga das neuroses pela deformação do caráter e conflito de identificação com a figura paterna, apresentando ao mesmo tempo medo e admiração. No entanto, Arlow (195) teria excluído dois casos que não corroboravam a sua hipótese, enfraquecendo seus achados. Já Kemple (1945) fez estudos com quatro grupos diferentes de pacientes hospitalizados e encontrou que aqueles que apresentavam doenças coronarianas se revelavam mais agressivos, ambiciosos e lutavam de forma mais compulsiva para conseguir poder e prestígio (Bertran, 1996).
55 Dentre os artigos encontrados, Bertran (1996) destacou algumas semelhanças diante do Método de Rorschach: diminuição no número de respostas, diminuição nas respostas de movimento humano e diminuição nas respostas associadas a determinantes cromáticos (resposta cor). No entanto, a autora destaca a dificuldade em comparar os estudos em função dos diferentes sistemas avaliativos utilizados no Rorschach. Suas sugestões para estudos futuros incluíam maior controle da definição da doença e dos fatores de risco associados à patologia; controle sobre o tempo entre a crise coronária e a administração do método projetivo; empenho em sistematizar as variáveis do Rorschach nesse campo de estudo de modo a permitir análises comparativas entre sistemas avaliativos, unificando-os.
Praticamente duas décadas mais tarde, Dritto et al. (2015) procuraram mensurar características da personalidade tipo D (inibição social e afetos negativos) por meio do Método de Rorschach. Para tanto, foram avaliados 40 pacientes cardíacos, sendo 32% (n=13) mulheres e idade média de 64,0±8,9 anos. O autor informa que utilizou abordagem psicanalítica para aplicação e análise do Rorschach, conhecida na atualidade como Escola de Paris. Como resultados, obteve-se prevalência de conteúdos Animal (63%), Humano (14%) e Anatomia (13%). Quanto aos determinantes, verificou-se maior frequência das respostas de movimento humano (63%), seguidas de movimento animal (35%) e de objetos inanimados (1%). Houve predomínio do tipo vivencial introversivo, além de 42% de respostas banais, principalmente nos cartões I, III, V, VIII e X. A partir das respostas fornecidas, os autores associaram o número acima do esperado de respostas anatômicas como excessiva preocupação somática que estaria relacionada a preocupação com saúde física. O baixo número de respostas de cor em comparação com as respostas de movimento, em particular de movimento animal foi interpretado pelos autores como sinais de inibição social, enquanto o aumento no número de banalidades foi considerado como sinal da necessidade de aceitação social, embora não seja marcador patológico. Dessa forma, o estudo concluiu que por meio de métodos projetivos foi possível ter acesso a traços de inibição social, como os caracterizados pela personalidade tipo D, comumente associada a quadros de cardiopatia.
Em um artigo mais recente, Meyer, Katko, Mihura, Klag e Meoni (2017) investigaram indicadores de validade de métodos de autorrelato e métodos baseados em desempenho para avaliar a hostilidade como fator de predisposição a doenças cardiovasculares em médicos. Para tanto, foram utilizados dados obtidos da avaliação
56 de 416 estudantes homens que cursaram a faculdade de medicina na Universidade John Hopkins entre os anos de 1948 e 1964. A aplicação foi realizada de modo individual e a partir das normativas do Rorschach no sistema Beck, porém Meyer, Katko, Mihura, Klag e Meoni (2017) codificaram os protocolos a partir do Sistema Compreensivo de Exner. Os estudantes foram avaliados na graduação e seu estado de saúde foi acompanhado anualmente, até 2003. Para avaliação da hostilidade e agressividade nos protocolos de Rorschach foram utilizadas duas variáveis: conteúdo agressivo (CAg) e passado agressivo (PAg). O CAg foi avaliado pelas respostas que continham comportamento hostil, armas e instrumentos agressivos. Já o PAg foi avaliado a partir das consequências da agressão, caracterizada pelas respostas que continham estrago, prejuízo ou objetos estragados. A hostilidade autorrelatada foi avaliada a partir do questionário Habits of Nervous Tensions (HNT), que conta com 27 itens que mensuram as respostas de raiva associadas ao estresse ou à pressão. Como covariáveis foram avaliados outros fatores potenciais de risco: pressão sanguínea diastólica e sistólica, níveis de colesterol, frequência cardíaca, índice de massa corporal, número de cigarros consumidos diariamente e uso de álcool. Considerou-se também se os pais sofriam de doenças cardiovasculares prematuras (55 anos para os pais e 65 anos para as mães) e qual o status profissional dos pais. Como a pesquisa foi constituída apenas de homens, considerou-se como ponto de corte para definir doença cardiovascular prematura a idade de 55 anos. Identificaram que 9% (n=37) dos casos desenvolveram doença cardiovascular precoce, com idade média de 48,4±6,5 anos e 5,5% (n=23) apresentaram especificamente doença cardíaca prematura, com idade de 48,7±4,8 anos. Os dados apontaram que altos níveis de raiva e hostilidade implícita e explícita foram estatisticamente relacionados com desenvolvimento precoce de doenças cardiovasculares e cardíacas, mesmo após controle das covariáveis tabagismo (para ambas as patologias) e colesterol elevado (para doenças cardíacas). Os achados deste trabalho, bastante robusto em termos metodológicos, ilustram com clareza as relevantes informações advindas das características de personalidade (examinadas pelo Método de Rorschach em especial) para compreensão dos quadros de doenças cardiovasculares.