O período anterior ao golpe de 1964 foi de muita efervescência cultural. Destacam-se os movimentos populares como o Movimento de Cultura Popular (MCP) criado em Recife pelo prefeito Miguel Arraes; o CPC criado no Rio de Janeiro e intimamente ligado a UNE e que teve a participação de jovens que, posteriormente, adquiriram visibilidade nacional como Oduvaldo Viana Filho, Cacá Diegues, Carlos Vereza, Arnaldo Jabor, Ferreira Gullar, e o MEB, desenvolvido pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). O MEB tinha por objetivo alfabetizar as populações do interior do Brasil por meio do sistema de aulas radiofônicas. Merecem destaque os teatros de ARENA e OFICINA, movimentos que elevaram as artes cênicas no Brasil a um novo patamar, com a inserção nos palcos do Brasil de temas diretamente articulados com os problemas nacionais e o sistema de alfabetização de adultos criado pelo professor Paulo Freire, originalmente em Pernambuco, mas que se espalhou por outros Estados do Brasil, deram uma nova dinâmica e uma nova dimensão aos movimentos culturais no país.
Apesar de terem ocorrido em espaços geográficos diferentes, esses movimentos culturais tiveram alguns aspectos em comum: todos eles eram voltados para as camadas populares e humildes do país, queriam levar a cultura para as ruas, para as massas, de encontro ao povo.
No que diz respeito ao CPC, Moraes (2011, p. 22) salienta que:
Para uma saleta de dez metros quadrados, nos fundos do auditório da UNE, confluíram jovens atores, autores, cineastas, músicos e artistas plásticos atraídos pela empolgante ideia de levar a produção cultural às massas subalternas nos subúrbios e na periferia. Passavam dias e noites ali envolvidos em múltiplas tarefas para a popularização da arte. O CPC não escolhia meios de transporte: seus militantes deslocavam-se por caravanas, carros, ônibus, trens e caminhões. As peças teatrais, os filmes e os shows musicais eram apresentados em sindicatos, favelas, clubes, quadras de escolas de samba, praças públicas ou a entrada de estações rodoviárias e ferroviárias. O importante era ir onde o povo estivesse, com espetáculos que refletissem suas aspirações e necessidades mais imediatas. Os inimigos a denunciar eram o capitalismo, as elites gananciosas, o imperialismo, o latifúndio, a corrupção e a exploração dos trabalhadores pelo capital. O caminho dos artistas e intelectuais do CPC era o da arte popular e revolucionária.
Esses movimentos estavam voltados para um trabalho de despertar e de conscientizar as massas populares. O teatro, o cinema, as campanhas de
alfabetização do MEB ou do método Paulo Freire traziam em seu âmago a necessidade de desenvolver uma visão crítica e libertadora por parte dos trabalhadores. Era preciso que os pobres conhecessem, de uma maneira racional, a realidade local em que eles viviam, a realidade econômica e social em que eles estavam inseridos. Ao mesmo tempo, esses movimentos procuravam utilizar a educação e a cultura como elementos de transformação das estruturas sociais e econômicas e de que essas mudanças deveriam contar com a participação popular.
O cinema brasileiro não ficou imune à onda de transformações econômicas e sociais que afetavam o país. A partir de 1960, uma nova geração de jovens cineastas, inspirados no neorrealismo italiano24 e na nouvelle vague francesa, que defendia um cinema de autor, despojado, fora dos grandes estúdios e com imagens e personagens os mais naturais possíveis, começou a se destacar em terras brasileiras. O cinema novo com os filmes de Glauber Rocha, Rui Guerra, Leon Hirzman, dentre outros, passou a ter grande visibilidade no Brasil e obteve sucesso de crítica e de público a nível internacional. Os temas abordados por esses jovens cineastas procuravam expor, discutir e analisar os dramas da realidade brasileira daquela época. Os problemas do Brasil invadiram, assim, as telas de cinema.
Napolitano (2014, p. 25) afirma que:
Entre 1960 e 1964, grandes filmes foram realizados em nome do movimento: Barravento (Glauber Rocha, 1960), acerca dos pescadores do nordeste; Vidas secas (Nelson Pereira dos Santos, 1963), que retrata o drama dos retirantes, baseado no livro de Graciliano ramos; Os Fuzis (Rui Guerra, 1964), a respeito de um grupo de soldados que deve proteger um armazém ameaçados por flagelados da seca nordestina; e o famoso Deus e o Diabo na terra do Sol (Glauber Rocha, 1964), parábola sobre o processo de conscientização de um camponês que passa pelo messianismo, pelo cangaço e termina sozinho, desamparado mas livre, correndo em direção ao seu destino.
Não é difícil perceber que os problemas do nordeste (a seca, os retirantes, o latifúndio, o coronelismo) e dos centros urbanos (as favelas cariocas) estavam entre os temas preferidos desses cineastas, escancarando para as plateias brasileira e a estrangeira, as entranhas da nossa formação social e econômica. Pesquisas realizadas no meio universitário, no final dos anos 50 e início dos 60, indicam que
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De acordo com Campos e Claro (2012. p. 678) o neorrealismo foi um movimento artístico que surgiu na Itália após a Segunda Grande Guerra (1939-45) e que “estava fora dos padrões hollywoodianos. Este movimento estava preocupado em captar a vida e os lugares do homem comum, distantes do grande espetáculo oferecido por Hollywood”. Dentre os grandes cineastas dessa corrente artística destacam-se Roberto Rosselini, Vittório De Sica e Luchino Visconti.
esse público, que vinha crescendo bastante com o processo de urbanização e desenvolvimento dos setores secundário e terciário, estava mais preocupado em estudar, entender, discutir e debater o Brasil, incluindo aí, os seus problemas e contradições. Formava-se aí um público mais engajado politicamente, que se envolvia com os problemas nacionais, que discutia a política e que propunha a necessidade de mudanças na estrutura econômica e social do país. Foi nesse ambiente de forte efervescência política, econômica, social e cultural que a república populista deu os seus últimos passos.