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AFFICHEUR LCD
O destaque impresso na atividade do pesquisador deve levar em conta a dimensão ética contida no ato de pesquisar em dois momentos distintos e relevantes: o encontro do pesquisador e seu outro; o encontro do pesquisador e seu texto. O pesquisador, dessa forma, inserido no processo de investigação motivado por suas questões de pesquisa, deixa-se surpreender pelo universo do outro, enfrentando, assim, as
contradições que esse encontro com o outro proporciona. Com isso, por meio das relações que estabelece com os sujeitos com quem pesquisa, tanto pesquisador como sujeitos pesquisados se transformam e não conseguem se manter isentos, neutros. Imprimem e marcam seus discursos com seus valores axiológicos.
Entendemos assim a necessidade de expressar as relações de alteridade presentes em um trabalho de pesquisa que surgiu em meio a um contexto saturado de responsabilidades, no sentido bakhtiniano de ser. Sem álibi para esquecer ou deixar sem visibilidade o que estava acontecendo na instituição em que exerço a docência, fui me direcionando para o meu objeto de estudo: as identidades constituídas nos enunciados materializados no gênero discursivo memorial.
Aos poucos, o trabalho realizado com as turmas de Magistério começou a ter um sentido mais relevante. Já abordei anteriormente que a primeira turma (2012) da qual participei ativamente do processo de orientação de escrita dos memoriais tinha apenas doze alunas que passavam por uma crise de identidade e também alteritária muito forte. Não se enxergavam como futuras professoras. Não sabiam ao certo porque estavam ali. O outro que me ajuda a me constituir como ser de linguagem era questionado a todo o momento, visto como um opositor. Nesse terreno infértil, talvez, após muitos embates, conseguimos justificar o trabalho com a escrita de memórias e, atrelado a isso, aos poucos, o grupo começa a caminhar e as questões de identidade começam a ter espaço para discussão e reflexão.
Acredito que esse desenvolvimento só foi possível pelo alto nível de envolvimento dos docentes (orientadores e coorientadores) dos memoriais e das alunas quando entenderam a importância do resgate das memórias, mostrando-se comprometidas com o projeto Memorial, explicitando assim as dificuldades e as transformações ocorridas durante e após o processo de escrita e apresentação dos memoriais a uma banca. Essa constatação se materializa nas palavras de Amorim,
Não há trabalho de campo que não vise ao encontro com um outro, que não busque um interlocutor. Também não há escrita de pesquisa que não se coloque o problema do lugar da palavra do outro no texto. Esta questão pode, evidentemente, ser evacuada. Podem-se utilizar métodos ou convenções de escrita que ignorem ou que esqueçam que, do outro lado, há um sujeito que fala e produz texto tanto quanto o pesquisador que o estuda (AMORIM, 2004, p. 16).
Concordamos com Amorim (2004) no tocante a essa relação alteritária tão forte e presente em trabalhos como é a escrita dos memoriais. Como pesquisadora, tenho de
ser responsável por isto: os sujeitos de pesquisa (as futuras professoras) que se expressam, reconstituem-se e constroem suas identidades (docentes) durante um curso de formação. Inicialmente, produziram os memoriais para interlocutores identificados: professores de uma banca. Em um segundo momento, compõem um corpus de uma pesquisa. Analisar esses enunciados produzidos por meio do gênero discursivo memorial requer um posicionamento ético. Meu compromisso é construir um sólido entendimento das experiências vivenciadas por meio das análises dos enunciados.
Acreditamos que realmente a prática instituída há muitos anos na instituição e retomada no ano de 2012 cumpre o seu papel quando recebemos o retorno dessas mesmas alunas relatando que quase todas se decidiram verdadeiramente pela docência e por isso buscaram cursos de licenciatura e Pedagogia para poderem continuar no mercado de trabalho ou ingressarem nesse espaço, como escolha pessoal, preparadas e não por falta de opção.
É assim que, no ano seguinte (2013), o projeto Memorial recebeu um formato mais idealizado, ou seja, pensamos e planejamos todas as atividades, interações de forma mais intensa ainda, supondo que estávamos no caminho certo, pois essa metodologia de formação poderia também ter desdobramentos mais relevantes. Realmente foi o que aconteceu. Agora com uma turma de 38 alunas o projeto seria mais audacioso. Conquistar as alunas para a escrita do memorial, envolver toda a equipe de professores e conseguir que todas apresentassem os seus trabalhos a uma banca. Sem ter muito controle, eu já estava transitando nesse universo complexo que é o de professora-pesquisadora, vislumbrando que aquelas produções poderiam tornar-se nosso objeto de estudo. Mas antes disso era necessário imprimir um projeto (memória de futuro) em cada uma daquelas alunas, fazê-las enxergar o horizonte de possibilidades tendo como base o presente (a formação em nível médio). A esse respeito, Geraldi (2003, p. 19) acrescenta:
[...] sem nenhuma memória de futuro, a ação pedagógica seria absolutamente inviável: é preciso projetar um futuro para dele extrair os critérios de seleção do que é passado que possa funcionar como alavanca de construção desse futuro. Nesse sentido, o ato pedagógico tem algo de estético, necessariamente: antevê um acabamento provisório no futuro, dele tem uma memória, e com essa memória calcula as ações possíveis no presente com o material que nos fornece o passado, mas selecionados para realizar o futuro: saberes, conhecimentos, crenças, utopias, etc.
As experiências com o trabalho de produção dos memoriais configurou-se como parte inerente à formação das futuras professoras, responsável por transmitir uma
relembradas e materializadas em enunciados concretos, as alunas conseguiam extrair saberes, refletir sobre seu processo de identidade docente, desmistificar crenças e criar novos sonhos.