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A partir análise sobre as notificações, foi possível visualizar a magnitude da

violência cometida contra crianças e adolescentes em Belém-PA e a vulnerabilidade

dessas, quanto à exposição a este agravo. O tipo de violência mais prevalente foi a sexual,

com maior prevalência na faixa de 11 a 14 anos de idade, cometida contra o sexo feminino

por indivíduos identificados como amigos ou conhecidos, seguido do padrasto. Geralmente

a violência sexual esteve associada à violência física e/ou psicológica. Para meninos a

violência sexual também foi o tipo mais incidente, seguida da violência física, porém, na

faixa-etária de 6 a 10 anos. O domicílio continua sendo o lugar onde a maioria dos casos

de violência foi praticada o que confirma a necessidade de atuação junto às famílias e a

comunidade por ser o lugar onde crianças e adolescente se desenvolvem e permanecem por

um longo período de tempo. Somado a isso, os agressores de crianças e adolescentes são

em sua maioria conhecidos das vitimas e até mesmo tem laços de parentesco, o que pode

potencializar de forma negativa as consequências e traumas, além de desencadear sequelas

irreversíveis tanto físicas como psicológicas.

Também foi identificado que os profissionais da atenção básica são os que menos

notificam os casos de violência. Além disso, chamou atenção sobre a necessidade de

preenchimento correto e completo das fichas de notificações visto que através deste,

medidas irão ser tomadas, a fim de cessar a violência e elaborar políticas públicas

direcionadas, assim como, irão fomentar a capacitação dos profissionais conforme suas

necessidades para a realização desse procedimento.

Em relação aos profissionais de saúde participantes do estudo, ficou demonstrado

que estes sabem indicar os principais sinais de que uma criança e adolescente está sendo

casos em sua rotina de trabalho, com destaque para os ACS. Entre os tipos de violência, a

negligência apareceu como a mais identificada, porém a menos notificada e a violência

sexual, embora seja a menos identificada é a mais notificada. Quando se observou essa

questão a partir da função exercida, em relação à violência física, o profissional da

medicina apareceu como o que mais a identifica e nos casos de violência sexual observou-

se maior participação do Assistente Social. Na violência psicológica, o profissional

Psicólogo aparece como o que mais a identifica, seguido do profissional do Serviço Social

e da Odontologia. E em relação à negligência observou-se que os profissionais da

Odontologia e do Serviço Social foram àqueles que mais a identificam, seguidos dos

profissionais da Medicina e da Enfermagem.

No tocante as atitudes dos profissionais frente à questão, apesar de considerarem

ter realizado a notificação, em especial para a violência sexual, parece que a fizeram, sem

o preenchimento da ficha de notificação. Direcionam seus encaminhamentos para os pais

das crianças e adolescentes, com destaque para as mães, assim como para os colegas e as

chefias imediatas. O Conselho Tutelar foi o órgão mais citado como fazendo parte da rede

de proteção a crianças e adolescentes vítimas de maus-tratos. Outra situação que ficou

ressaltada é que a maioria dos profissionais não conhece a ficha de notificação de violência

e/ou se existe um protocolo na unidade para aturarem nesses casos.

Apesar de ser uma estratégia prioritária do MS, as portarias e normas relativas à

questão da violência contra crianças e adolescentes, em especial a questão da notificação

dos casos, ainda não está presente na rotina dos profissionais de saúde, enquanto um

procedimento padrão. Ficou evidenciado que os profissionais de saúde precisam de

capacitação e educação permanente, mas que a estrutura dos serviços de saúde também

atendimento dos casos de forma integrada e resolutiva, o que também é indispensável para

fortalecer a rede de apoio às vítimas deste agravo, em especial às crianças e adolescentes.

Outra questão observada está relacionada a influência do macrossistema sobre o

microssistema e sua interface com as políticas públicas voltadas para a questão da

violência no âmbito da saúde. Ou seja, as políticas públicas, precisam ser efetivadas, para

além das normas e se estabelecerem na prática cotidiana dos profissionais de saúde, a

partir da articulação com todos os setores, órgãos e instituições que fazem parte das redes.

A intersetorialidade e os princípios norteadores das ações dos profissionais de saúde da

atenção básica, no município de Belém-Pa, precisam ser efetivados de modo a garantir a

continuidade das ações. Para tal, seria necessário um indivíduo mais participativo inserido

nos diversos níveis do sistema ecológico (Bronfenbrenner, 1994). Além disso, para este

indivíduo o macrossistema (enquanto ambiente percebido) deveria ser um sistema com o

qual ele tivesse contato, formas de interação e intervenção, pois o desenvolvimento dos

indivíduos é uma conquista da relação com os vários níveis do sistema (Franco & Bastos,

2002).

Por fim, Minayo (2003) ressalta que não se deve partilhar a inevitabilidade da

violência, como algo fora de controle que frequentemente se ouve na grande mídia e que

são evidenciadas pela opinião pública. Como seres históricos podemos criar novas

possibilidades de presente e de futuro, pois temos a nosso alcance muitos dispositivos e

tecnologias (sociais e de cuidado), que podem ser criados e recriados.

5.1. Limitações e recomendações para futuros estudos

Algumas limitações precisam ser consideradas, para que futuros estudos possam

à questão dos maus-tratos contra crianças e adolescentes. A primeira a ser destacada diz

respeito a necessidade de aperfeiçoar os instrumentos de pesquisa, neste caso os

questionários utilizados, em especial o questionário 2. Apesar de ter sido possível a

obtenção de dados relevantes sobre o conhecimento dos profissionais sobre a questão,

talvez fosse importante reduzir o número de itens e questões para facilitar a aplicação e a

sistematização dos dados. Além disso, oferecer outras possibilidades de preenchimento dos

questionários como pela internet. Essa modalidade de aplicação, apesar de não garantir a

ampliação da participação dos profissionais, talvez fosse mais aceita em função do

anonimato. A aplicação dos questionários face a face são importantes para o pesquisador,

no entanto, podem causar algumas limitações para os participantes.

Cabe ressaltar ainda que, pode ter ocorrido um viés de memória visto que alguns

profissionais atuam em outras unidades de saúde da rede privada e podem trocar

lembranças dos casos identificados entre esses diferentes contextos. As questões culturais,

tais como valores, crenças, religião, visão de mundo e outras que poderiam influenciar

atitudes profissionais, não foram avaliadas, o que também é uma limitação e deve ser

considerada em futuros estudos.

5.2. Recomendações para o fortalecimento das ações dos profissionais de saúde