Este relato traz como princípios norteadores a participação e o diálogo entre escola e comunidade. Participação e diálogo com vistas às ações coletivas na perspectiva de inserção da escola no contexto social, introduzindo, portanto, as questões prementes da comunidade para discussão no âmbito do currículo.
Os objetivos da prática relatada estavam diretamente ligados ao envolvimento das famílias nas tomadas de decisões da escola, avançando, dessa maneira, para uma participação como direito, não mais como concessão. Como espaço de criação e difusão do conhecimento popular, a escola deveria promover o debate sobre a relação entre o conhecimento formal que veiculava e o conhecimento popular que se materializava nas vivências cotidianas daquela comunidade. Assim, essa experiência, como prática potencializadora do diálogo, buscou uma relação das famílias com o projeto político pedagógico da escola e a reflexão acerca das questões que permeavam a comunidade em que a escola estava inserida.
A questão ambiental sempre esteve presente no currículo dessa Emei, por constituir elemento fundamental na educação que se pretende formadora de cidadãos críticos. Contudo, esse tema vinha sendo trabalhado de forma fragmentada, limitando-se às campanhas educativas e ao trabalho com horta e jardim de tempos em tempos. Essas ações tinham sua importância dentro do currículo da educação infantil, mas havia necessidade de avançar para uma discussão que permitisse a reflexão sobre a sustentabilidade do planeta,
possibilitasse a formação de uma consciência solidária e mobilizasse as pessoas para ações efetivas dentro dos seus espaços de atuação.
A partir desse conceito de educação ambiental, a equipe gestora propôs um trabalho integrado com a Cooperativa de Reciclagem Chico Mendes. Esta organização recebia a coleta seletiva da região de São Mateus, Zona Leste do município de São Paulo, bem como de outros bairros próximos. Identificamos a necessidade do trabalho com a Cooperativa, ao constatar que, na região, não existia coleta seletiva realizada pela Prefeitura. Nosso trabalho com as crianças, separando os materiais recicláveis dos resíduos orgânicos dentro do espaço escolar, perdia-se, pois tudo era recolhido da mesma forma pela coleta comum.
Iniciamos o processo com a presença da presidente da Cooperativa e de uma das "cooperadas" no horário coletivo quinzenal que reunia professores, gestão e todos os outros funcionários da escola. A presidente relatou para o grupo que a Cooperativa existia desde 1999 e fora fundada com o objetivo de geração de renda para a comunidade. Expôs as dificuldades de implantação e que relatou que só no ano de 2000, com a ajuda da Igreja, conseguiram um "fusca" para recolher os materiais recicláveis de casa em casa. Ressaltou que as escolas eram colaboradoras necessárias, pois que o bairro de São Mateus não possuía coleta seletiva, que cerca de sete mil toneladas de lixo iriam para o aterro sanitário diariamente e que, dentro de dois anos, este aterro não suportaria mais despejos. Essa situação tornara-se, então, um desafio que seria de responsabilidade de todos: desacelerar o processo de aquecimento global e degradação da natureza.
A coleta seletiva, através da Cooperativa, beneficiava com geração de renda trinta e nove famílias, já que contavam com 13 cooperados e 26 catadores externos. Com o envolvimento das escolas, esses números poderiam ser ampliados, possibilitando, assim, a geração de renda para número ainda maior de famílias, bem como a melhoria da qualidade de vida da região.
Nessas circunstâncias, entendíamos que essas ações se configurariam como um movimento de responsabilidade social da escola, além de qualificar o trabalho acerca do tema ambiental junto às crianças.
A partir do diálogo entre Cooperativa e equipe escolar, indicamos como encaminhamentos:
• iniciar o processo internamente, reduzindo a utilização de materiais descartáveis;
• reaproveitar papéis e materiais plásticos utilizados nas atividades escolares; • separar materiais recicláveis dos resíduos orgânicos produzidos no espaço
escolar;
• organizar reunião entre famílias, cooperativa e equipe escolar para encaminharmos a proposta.
Esta última ação teria por objetivo envolver as famílias no processo de discussão sobre a questão ambiental dentro do projeto da escola.
Na reunião de pais seguinte, as representantes da Cooperativa estiveram presentes. Nessa reunião, debatemos com as famílias os princípios da coleta seletiva, a relação do trabalho da Cooperativa com o projeto político pedagógico e a possibilidade de transformar a escola em um ponto de entrega voluntário (PEV).
Durante a reunião com as famílias, a equipe da Cooperativa relatou, mais uma vez, todo o seu percurso histórico, os dados relativos às famílias beneficiadas e como se daria a coleta seletiva na prática. Fizemos uma relação dessa ação com os temas que as professoras estariam trabalhando. Destacamos a importância da participação das famílias nessa ação do ponto de vista da responsabilidade social, bem como da ressignificação do currículo da escola. Houve, também, uma demonstração dos materiais produzidos com a reciclagem de papel, plástico e vidro e a relação quantitativa dessa produção com os recursos naturais, como a preservação de árvores e a extração de minérios. Enfatizou-se a questão do prolongamento da vida útil dos aterros sanitários e o quanto isto estava relacionado com a qualidade de vida da comunidade.
Os pais relataram sua dificuldade para encontrar uma forma de proceder à coleta seletiva. Alguns disseram que até a desejavam, por considerar de extrema importância esse processo; mas, no dia a dia, tornava-se "impossível" diante da falta de coleta pela Prefeitura. No município de São Paulo, apenas alguns bairros, os mais centrais, dispõem de coleta seletiva pela Prefeitura. Falaram também dos espaços da região onde os moradores descartavam lixo sem nenhum critério e o quanto isso comprometia a qualidade de vida de todos.
As famílias consideraram, enfim, que aquele trabalho seria importante para o aprendizado das crianças e para a melhoria da qualidade de vida no bairro. Seria uma forma de utilizar o espaço da escola para se organizarem em torno de uma questão que afligia a todos.
O diálogo com as famílias deixou evidente que simplesmente oferecer um contêiner no espaço escolar para depósito de materiais recicláveis, de maneira mecânica, não promoveria mudança de atitudes. A opção pelo diálogo com as famílias sobre os porquês de tal ação propiciou um momento precioso de trazer à tona a discussão sobre as condições em que as famílias estavam inseridas, dando- nos, também, o conhecimento sobre a própria realidade das crianças. Ademais, desencadeou ações que modificaram, minimamente, essa realidade traduzida nas ações cotidianas como redução do lixo produzido nas residências.
Também se revelou que o conhecimento trazido pelas famílias e pela Cooperativa ultrapassava o próprio conhecimento que a escola tinha, no sentido de que os dados eram reais e impregnados de experiências cotidianas. Enxergamos que, diferentemente do que está no imaginário das pessoas, havia de fato uma preocupação, por parte das famílias, em discutir as questões ambientais e as possíveis soluções para o que se apresentava como problemas do entorno.
Outro ponto importante foi a reflexão sobre a razão de a Prefeitura efetuar a coleta seletiva apenas nos bairros mais centrais.
Trabalhamos com os conceitos de reduzir, reutilizar e reciclar. Após o consenso de que a escola trabalharia como PEV, sistematizamos a proposta, combinando as ações. A Cooperativa providenciaria um contêiner para o depósito de materiais recicláveis, como
• papel: (embalagens tetrapak, jornais, folhas de papel, listas telefônicas, caixas de papel e papelão);
• plástico (garrafas de água e refrigerante, brinquedos, embalagens de produtos de higiene e limpeza e utensílios domésticos);
• metal (pregos, parafusos, arames, fios elétricos desencapados, objetos de cobre, zinco, ferro e latão);
• vidro (garrafas, copos, potes de alimentos, cacos de vidro).
Os materiais deveriam estar limpos e livres de gordura ou outros resíduos. No entanto, não haveria necessidade de lavá-los, apenas esvaziá-los bem. Os vidros deveriam ser embrulhados para evitar acidentes.
A Cooperativa retiraria os materiais às quintas-feiras. Sempre que houvesse necessidade, deveríamos entrar em contato para retirada. O esvaziamento dos materiais e a retirada periódica seriam importantes para que não houvesse prejuízo no que concerne à limpeza do espaço escolar, bem como à possibilidade de
proliferação de roedores. Há que se ressaltar que em alguns momentos houve conflitos no que se refere ao aspecto da limpeza. O volume de resíduos orgânicos que seria enviado para a coleta comum e, posteriormente, para os aterros sanitários, seria diminuído consideravelmente. Assim, iniciou-se o trabalho conjunto de escola, família, Cooperativa e crianças.
Com a chegada do contêiner, as crianças, juntamente com as famílias, traziam os materiais recicláveis diariamente e demonstravam satisfação naquele ato, o que, de certa forma, revelava que o trabalho pedagógico começava a se impregnar de sentido.
Entendíamos, portanto, que o valor dessa prática estava precisamente no fato de se trazer a "vida" para o currículo da escola, conferindo-lhe, assim, significados reais. Por outro lado, a própria participação das famílias introduzia a dimensão da apropriação do espaço público pela população usuária, já que a escola é a instituição pública mais próxima da vida cotidiana da população.
Essa experiência desencadeou, em particular, a possibilidade do olhar para o outro na perspectiva da alteridade. A relação mais humanizada entre os sujeitos revelava, para nós, o verdadeiro sentido da educação, qual seja, a recuperação da humanização do homem nas suas dimensões social, histórica e cultural.
Reunião: escola, famílias e Cooperativa Chico Mendes
Figura 25 Escola, famílias e Cooperativa Chico
Mendes I. Arquivo da autora.
Figura 26 Escola, famílias e Cooperativa Chico
Mendes II. Arquivo da autora.
Figura 27 Escola, famílias e Cooperativa Chico Mendes. Arquivo da autora.
Consulta sobre as demandas das famílias para reunião de Conselho de Escola (mães representantes do Conselho)
Figura 28 Demandas ao Conselho da Escola I.
Arquivo da autora. Figura 29 Demandas ao Conselho da Escola II. Arquivo d autora.
Visita da coordenadora pedagógica e professoras à Cooperativa Chico Mendes
Figura 30 Visita à Cooperativa Chico Mendes I. Arquivo da autora.
Figura 31 Visita à Cooperativa Chico
Mendes II. Arquivo da autora.
Figura 32 Visita à Cooperativa Chico Mendes III. Arquivo da
autora.
Figura 33 Visita à Cooperativa Chico Mendes IV. Arquivo