desespero, durante um incêndio ou afogamento, o devoto faz a promessa, momento em que assume o compromisso que, se atendido, realizará o Ensaio. O quilombola destaca que o Ensaio tem suas origens na África e aponta para um território negro em Teixeiras, salientando que o espaço é uma região quilombo- la. Diante deste passado com origens africanas, argumenta que a devoção estava presente em todos os negros. O promesseiro pode demorar a pagar o Ensaio, pois necessita de tempo para juntar o valor necessário, pois o pagamento é um “sacrifício”. O Ensaio de Pagamento de Promessas a Nossa Senhora do Rosário, ou Ensaio de Quicumbi que foi realizado nos dias cinco e seis de maio de 2018, visou a agradecer o pedido do promes- seiro, Seu Luís Faustino, que há dois anos havia feito a promes- sa que se caso ficasse recuperado de um infarto pagaria com um Ensaio.
Claudia Daiane: E este pagamento exige todo um preparo
do promesseiro com alimentação?
Seu Luís Faustino: Existe todo um preparo de alimentação.
O Ensaio... quando se faz um voto pra Nossa Senhora de pagar um Ensaio de Promessa, conforme você faz, você tem que pagar. Quando você faz um voto, por exemplo, eu fiz um voto pra Nossa Senhora que eu iria pedir ajuda a todos irmãos das Irmandades para fazer este Ensaio, por- que tem um custo. E tudo que sobrasse desta nossa festa iríamos fazer doação e amanhã de manhã vamos entre- gar tudo que sobrar, daqui vamos para uma instituição, que é Apae de Mostardas. Então, ele tem um custo. Mas, conforme eu fiz a promessa, eu paguei. Eu pedi doação para todos os meus irmãos. Um deu uma galinha, outro deu quilo de massa, outro deu meio quilo de café, outros trouxeram pão. E tudo que sobrar, eu vou doar 63.
MEMÓRIA & PATRIMÔNIO "Ô Chora Makambra, Chora Nauê"
O relato de Seu Luís Faustino aponta para a existência de uma rede de solidariedade entre os escravizados que se esten- de à atualidade. O quilombola comenta que, antigamente, na época da escravidão, seus ancestrais pagavam o Ensaio a par- tir da arrecadação de doações depositadas na Caixinha. Neste contexto, teria surgido o dito “correndo sete Senhora”, quan- do uma pessoa não estava em casa fazendo alusão àqueles que iam em cada residência da comunidade solicitar doações. Seu Luís Faustino, ao fazer seu voto a Nossa Senhora do Rosário, informou que iria pedir ajuda a todos os irmãos para pagar sua promessa e assim fez,cada irmão ajudou com alguma ali- mentação. Além de servir para pagar parte do Ensaio daqueles promesseiros que não têm condições econômicas, o dinhei- ro arrecadado com a Caixinha também servia para comprar alimentos para as pessoas pobres. A fala de Seu Luís é muito rica e aponta para uma rede extremamente importante para o litoral do Rio Grande do Sul, pois no dia do Ensaio havia as duas Irmandades que unidas dançaram noite adentro pagan- do a promessa. Além disso, o Ensaio só foi possível porque os irmãos doaram alimentos para serem servidos durante as mais de doze horas do ritual.
A Irmandade do Rosário dos Homens Pretos de Nossa Senhora, fundada no século XViii, em Mostardas, revive, em cada Ensaio, em cada devoção, em cada promessa, a fé na Santa. A fé na Santa é ativada em vários momentos do cotidiano e já
analisamos o quanto o livro de arrecadação e a Caixinha pos- suem um significado para os devotos, mas nos momentos de “desespero”, de “aflição”, “que tudo está perdido”, os campone- ses negros acionam as promessas de Ensaio. Pagar um Ensaio é uma tarefa “séria”, “pesada”, “não é nenhuma brincadeira” e
envolve um grande gasto econômico e sabemos o quanto não pagar uma promessa pode ser perturbador para o promesseiro e, em caso de sua morte, de seus familiares. Daí a importância da Caixinha, que concentra as arrecadações dos devotos dis- postos a ajudar os promesseiros sem condições econômicas.
Conclusão
Ramos (2015, p. 142) traz uma importante reflexão sobre o Ensaio, pois o considera não apenas como uma tradição ou devoção, pois há aspectos de territorialidade, já que “o terri- tório negro se estende e percorre a região quando ocorre o Ensaio, e, ainda, os seres extra-humanos – também relacio- nados ao processo – territorializam e se territorializam”. O território negro estende-se e percorre a região, pois a Irmanda- de vai pagar o Ensaio no local escolhido pelo promesseiro. No Ensaio que esta historiadora observou, os camponeses negros levaram sua cultura para a área urbana de Mostardas.
Destaco que embora os irmãos sejam todos homens, as mulheres são de extrema importância para a manutenção do Ensaio, são elas que além de serem a memória do grupo organi- zam o espaço onde será realizado o ritual, cuidando da decora- ção do altar e da feitura da alimentação. A Irmandade só existe/ resiste por que as mulheres negras dão o suporte necessário para que os homens possam dançar por mais de 12 horas em agradecimento à Santa.
Referências
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MEMÓRIA & PATRIMÔNIO