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Quanto mais pessoas se conectarem à rede e mundial de computadores maior será a diversidade social. Teoricamente, para o jornalismo, quanto mais internautas maior será a polifonia de narrativas, mais fontes, mais blogs, mais participação e colaboração do cidadão aos sites de notícias, mais gente nas redes sociais. Para Keen (2009), entretanto, essa pluralidade até o momento não tem representado um aumento na qualidade do jornalismo que convive cada vez mais com observações superficiais do mundo e sem julgamentos. “O negócio da informação está sendo transformado pela internet no puro barulho de 100 milhões de blogueiros, todos falando simultaneamente sobre si mesmos”. (KEEN, 2009, p, 20).

Keen (2009, p.47) critica o chamado jornalismo cidadão ou jornalismo pessoal – ou seja, “o jornalismo feito por não jornalistas” - observando que a internet faz um “culto ao amador” desconsiderando o trabalho profissional. “A simples posse de um computador e de uma conexão com a internet não transforma uma pessoa num bom jornalista” (KEEN, 2009, p.48). No jornalismo, explica o autor, uma notícia publicada por quem não tem aprendizado ou expertise tem o mesmo valor que uma veiculada por um profissional que adquiriu sua habilidade por meio de uma formação específica e da experiência acumulada durante anos nas

redações. Diferente de muitos teóricos que defendem essa liberdade como um atributo democrático, Keen (2009), acredita que tal situação provoca uma condição caótica entre verdade e mentira.

Estamos sendo seduzidos pela promessa vazia da mídia democratizada. Pois a consequência real da revolução da Web 2.0 é menos cultura, menos notícias confiáveis e um caos de informação inútil. Uma realidade arrepiante nessa admirável nova época digital é o obscurecimento, a ofuscação e até o aparecimento da verdade. (KEEN, 2009, p.20).

Com a afirmação acima, podemos concluir que Keen (2009) define o conteúdo informativo divulgado pelos internautas como ausente de um valor que sempre foi considerado um dos maiores patrimônios tanto das empresas jornalísticas como dos profissionais da imprensa: a credibilidade.

Serra (2006) explica que a credibilidade, por não ser material, não está grudada a um grupo de pessoas, a uma espécie de profissional ou a um determinado veículo, mas é relacional, ou seja, não é um estado emocional, mas é resultado de um processo. Um jornalista ou um veículo da imprensa vai se tornando crível a medida que vai ganhando a confiança de seus receptores a partir de vários critérios que Serra divide em quatro leis fundamentais:

A primeira, a que chamaremos a lei da progressão geométrica, diz que a cada caso/episódio de credibilização a credibilidade de A não só aumenta como aumenta cada vez mais; a segunda, a que chamaremos a lei da indução, diz que não bastando um número potencialmente infinito de casos/episódios de credibilização para que a credibilidade de A atinja o seu valor máximo, basta, no entanto, um único caso/episódio de quebra de credibilidade para que a credibilidade de A se reduza a zero;a terceira, a que chamaremos a lei da associação, diz que a credibilidade de A aumenta quando A é associado por B a uma entidade C a quem reconhece, por sua vez, credibilidade; a quarta, a que chamaremos a lei da transferência, diz que se A se mostrou credível num determinado contexto, ele mostrar-se-á credível num contexto diferente do anterior. (SERRA, 2006, p.3).

Em que pese as distorções ocorridas na produção e na rotina das redações da mídia tradicional a busca pela verdade está no ethos do jornalista que utiliza uma série de procedimentos técnicos para conseguir chegar próximo a verdade e assegurar a credibilidade. (TRAQUINA, 2012). Esse conjunto de procedimentos e técnicas que fornece uma estrutura de notícia considerada crível é fruto de uma negociação de praticamente um século entre emissores e receptores, entre jornalistas, donos da mídia e consumidores. “Envolveu a adaptação crescente da informação mediática aos “desejos” do público, mas simultaneamente,

a criação no público desses mesmos “desejos”, num verdadeiro processo de causalidade circular. (SERRA, 2006, p.6). O processo circular entre público e profissionais valida tanto o que é notícia como permite que o receptor faça uma distinção qualitativa.

A abertura oferecida pela internet para a livre publicação elimina os antigos filtros usados pela imprensa para oferecer valor notícia aos fatos e assim definir qual deveria receber o status para ser publicado ou não. Com isso, todos os acontecimentos se transformam em notícia turvando a visão de qual conteúdo deve ter a credibilidade do internauta. “cabe a cada um dos receptores decidir, por si próprio, que informação é ou não é credível, que informação é mais ou menos credível”. (SERRA, 2006, p. 7).

A falta de critérios e a enorme quantidade de conteúdo disponibilizado na web provoca distorções. “Toda semana um escândalo erode ainda mais nossa confiança na informação que obtemos na web”. (KEEN, 2009, p.64). Em maio de 2014, na cidade de Guarujá, uma mulher morreu depois de ter sido espancada por moradores que a confundiram com um retrato falando publicado em uma página do Facebook que denunciava uma pessoa acusada de sequestros de crianças para rituais de magia negra.62

Keen (2009, p.79) conta a publicação de 2007 do site Insight que publicou uma reportagem de um chamado repórter anônimo afirmando que a senadora Hillary Clinton planejava acusar Barack Obama de ter frequentado a igreja islâmica quando criança. A notícia foi negada por ambas as campanhas e não foi confirmada por nenhuma fonte, mas foi retransmitida pela Fox News e ganhou repercussão nos Estados Unidos.

Em um meio contaminado por mentiras e distorções, o internauta pode utilizar critérios já enraizados para selecionar o conteúdo. Um exemplo está na pesquisa de Rodrigues (2006) com blogs portugueses. Embora uma das grandes características do jornalismo open

source da internet seja a narrativa sem autoria, muitos leitores estão optando por publicações

assinadas, por talvez estas conferirem mais credibilidade:

O facto de os blogs mais lidos em Portugal serem de autores devidamente identificados pode significar que, ao assinarem, podem ser responsabilizados pelo que publicam. Isso transmite confiança aos leitores representando igualmente um aumento da credibilidade. Podemos ainda acrescentar, tal como refere Varela, que “os bloggers mais respeitados são os mais transparentes e os que citam as melhores fontes. (RODRIGUES, 2006, p.76).

62 A notícia circulou por vários jornais e sites da época. Aqui utilizamos o 1.globo.com/sp/santos-

regiao/noticia/2014/05/mulher-espancada-apos-boatos-em-rede-social-morre-em-guaruja-sp.html, acessado em 06/06/2015.

Esses critérios podem ajudar a entender porque em alguns levantamentos, os sites mais acessados pelos internautas estão ligados as mídias tradicionais. Nos Estados Unidos, onde “dos 200 sites americanos de informação online mais visitados, os das mídias tradicionais correspondiam a 67% do tráfego”. (RAMONET, 2012, p.19)63.

No Brasil, a Pesquisa Brasileira de Mídia revela que excluindo Facebook, procurado por 63,3% dos entrevistados, a sequência dos sites mais acessados é a seguinte: Globo.com (7%), G1(5,6%), Yahoo (5%), Youtube (4,9%) e UOL(4,8%)64; ou seja, três pertencem a grupos da mídia tradicionais; apenas um é puro da internet. Quando o questionamento é credibilidade os dados mostram os brasileiros confiam mais na mídia tradicional do que na internet. Em valores médios, 52% disseram confiar sempre ou muitas vezes nas notícias da televisão, rádio, jornais e revistas e 27% disseram confiar sempre ou muitas vezes nas notícias em sites, blogs e redes sociais. Os dados mostram que pelo menos por enquanto, a mídia jornalística tradicional, provavelmente por estar consolidada há mais tempos detém maior credibilidade e, portanto, se aplicado aqui os conceitos de Bordieu citados por nós no primeiro capítulo, possui o maior capital simbólico e maior poder simbólico.

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