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4 ADJUSTMENTS AND ALIGNMENTS
Nos questionários aplicados às respondentes, foi perguntado qual a frequência das aulas de História no 5º ano: quantas vezes essa disciplina era trabalhada, com horário e dinâmica próprias, na sala de aula, ao longo das semanas de aula. O resultado pode ser observado no gráfico a seguir.
Gráfico 8
Fonte: elaboração da autora, 2015.
A análise destes dados nos fornece a impressão de que a disciplina História está sendo regularmente ministrada no 5º ano do Ensino Fundamental, na cidade de
Salvador, com a frequência mínima de uma vez por semana (46%) e uma média de duas vezes (33%), ao longo dos cinco dias letivos que compõem uma semana de aulas. Vozes dissonantes deste consenso existem, pois, as professoras assumiram que a disciplina é ministrada apenas quando não há outros projetos ou demandas mais urgentes para aquela semana (15%).
Maria e Cecília representam algumas das vozes que discordam dos números que afirmam que a disciplina é ministrada, regularmente, seguindo o currículo prescrito pela SMED. As professoras da escola Luiz Anselmo afirmam que as aulas de História ocorrem somente quando é possível.
Fica a dúvida: se a disciplina não está sendo ministrada, quais os motivos que levam as professoras, em número majoritário, a assinalar que a disciplina é trabalhada regularmente? Uma inferência possível é que algumas professoras respondentes do questionário assinalaram o que deveria estar acontecendo, segundo a Matriz Curricular do Município ou aquilo que gostariam que ocorresse, segundo suas concepções pedagógicas: uma aula de História ministrada regularmente todas as semanas. Segundo a Matriz Curricular do Município de Salvador, a disciplina História possui quarenta horas (40h), a serem ministradas em duzentos (200) dias letivos, distribuídos por quarenta (40) semanas de aulas (Anexo 1), o que equivale a uma aula (1h/a) de História por semana. A professora P16 responde, em seu questionário:
A gente tem toda a carga horária e a pressão do sistema em Língua Portuguesa e Matemática. Temos projetos que vêm da Secretaria e temos os projetos da própria unidade escolar. A maioria dos projetos é de Língua Portuguesa e Matemática. (Cecília, 2014)
A carga horária seria de duas aulas de História, durante a semana. Duas aulas de 50 a 55 minutos cada. Mas não é constante. A gente acaba atropelando o ensino de História, para trabalhar o básico que é Português e Matemática. A gente até pode falar que ministra aula de História, mas a verdade é que ninguém que eu conheço ministra ou sabe dar aula de História. Eu mesma somente dei História neste ano [2014] umas cinco vezes, durante o ano todo. (Maria, 2014)
A prioridade é dar Português, Matemática e Ciências. Porém, coloquei no horário duas aulas, 1 x por semana, por considerar importante para os alunos o ensino da História do nosso país e do mundo. (P 16, 2015)
Outras explicitaram a existência das aulas de História e uma parte das professoras afirmou que a disciplina é ministrada em decorrência da obrigatoriedade da disciplina, no currículo oficial e no cronograma organizado nas unidades escolares pelas coordenações. O não escrito abertamente nos questionários, por parte destas professoras, é que, por iniciativa delas, a disciplina talvez não fosse ministrada ou fosse, mas em uma frequência menor do que a que ocorre na atualidade. Nos dezessete questionários em que as respondentes complementaram a resposta, somente em um houve a sinalização de que a disciplina é ministrada por ser importante para a formação da criança, o que remete à uma quase inexistente preocupação quanto ao aprendizado da disciplina História por parte das crianças.
Tabela 3
Relação entre motivos e frequência de realização das aulas de História
Subcategorias Frequência Percentual %
Ocorre todas as semanas por ser obrigatório
4 25%
Carga Horária determinada pela Secretaria de Educação
8 50%
Segue cronograma feito pela escola
4 25%
Total 16 100%
Fonte: elaboração da autora, 2015.
Em nove (9) questionários, a grande carga horária das disciplinas de Português e Matemática, disciplinas cobradas nas avaliações externas, como a Prova Brasil e o Salvador Avalia, foi a principal razão pela qual a disciplina História não está sendo ministrada, regularmente, no cotidiano da escola. Daí advém o fato do coletivo de professoras atribuir, a estas áreas do conhecimento, uma grande importância para o aprendizado da criança, em detrimento de outras disciplinas, como História, Geografia e Ciências.
Cecília e Maria, em suas falas, referiram-se, recorrentemente, à pressão exercida pela SMED para o alcance de bons resultados dos alunos nestas avaliações, no cotidiano escolar. Cecília explicou o Salvador Avalia e explicitou suas percepções sobre esta avaliação.
Para Maria, as avaliações externas são o principal motivo pelo qual a língua portuguesa e a matemática são as disciplinas mais exigidas, em detrimento de História, Geografia e Ciências.
Estas avaliações denotam o controle externo existente na contemporaneidade sobre o trabalho docente, que constitui um ponto de tensão no ambiente escolar. “[...] O docente tem perdido progressivamente a capacidade de decidir qual será o resultado de seu trabalho, pois este já lhe chega previamente estabelecido em forma de disciplinas, horários, programas, normas de avaliação etc.” (ENGUITA, 1991, p. 48).
Nacarato, Varani e Carvalho refletem acerca da influência das avaliações externas no desenrolar do trabalho docente:
[...] as avaliações externas tendem a se tornar uma camisa de força para o docente, fixando-lhes os conteúdos a serem trabalhados em cada série. Os docentes, ao prepararem o seu planejamento, vêem-se diante de uma série de exigências, com múltiplas variáveis [...]. (NACARATO; VARANI; CARVALHO apud GERALDI; FIORENTINI; PEREIRA, 1998, p. 90)
A exigência da SMED, em relação ao trabalho docente, voltado para a melhoria dos índices nas avaliações externas, pautadas em Língua Portuguesa e Matemática, proporciona uma paulatina diminuição na autonomia da ação docente, em sala de aula, em relação a suas práticas educativas, à seleção dos conteúdos e às escolhas metodológicas no processo de aprendizagem-ensinagem.
Seria um projeto de avaliação de primeiro ao nono ano, onde todas as escolas recebem as avaliações de Língua Portuguesa, Matemática e Produção textual, elaboradas por uma empresa de São Paulo, que foi contratada. Isso aconteceu em abril e aí a gente trabalhou durante o ano, porque agora, em novembro, será a segunda avaliação, e novamente vai ser cobrada a produção textual. Então, assim, a Secretaria está cobrando isso, além da prova do IDEB, a Prova Brasil, que acontece nos anos ímpares. ACM Neto achou pouco e agora a gente vai ter avaliação também nos anos pares, o Avalia Salvador. (Cecília, 2014)
Em nenhuma dessas avaliações, nenhuma delas contém História, Geografia e Ciências. É sempre Português e Matemática. Então, a gente acaba focando demais no ensino da Língua Portuguesa e da Matemática até por causa dessas avaliações exteriores. (Maria,
Os processos de racionalização do trabalho do professor, a separação da concepção e da execução não significam apenas uma dependência dos professores em relação às diretrizes externas, mas este processo de dependência externa se produz necessariamente ao preço da coisificação dos valores e das pretensões educativas. (CONTRERAS, 2012, p. 212)
Esse processo é considerado, nas colocações de outros docentes, quando observam que a História fica muitas vezes como “[...] apoio para o desenvolvimento” (P 14) de Língua Portuguesa e Matemática ou que “perpassa por outras disciplinas” (P22), o que foi confirmado por 18,51% das professoras, que afirmaram que a História é ministrada de forma “interdisciplinar”. Entretanto, também foram apontadas outras razões para a inexistência das aulas de História no dia a dia da sala de aula.
Tabela 4
Motivos da Ausência de regularidade das Aulas de História
Subcategorias Frequência Percentual %
Importância de Português e Matemática 8 66,66% Inexistência de livros didáticos 1 8,33%
Material disponível para impressão de material didático 1 8,33% Inexistência de sala multimídia 1 8,33%
Ritmo lento dos alunos 1 8,33%
Total 12 100%
Fonte: elaboração da autora, 2015.
Em sua fala, Maria referiu-se, de forma recorrente, a esta preocupação com as disciplinas de Português e Matemática.
Ao serem indagadas sobre por que a preocupação é tão aparente e marcante nestas duas disciplinas (Português e Matemática), Cecília e Maria acrescentaram:
A gente tem essa agonia para querer que eles dominem o Português e a Matemática. [...] É uma preocupação dos professores e também da rede, do município. E a gente tem hoje, se não me engano, cinco avaliações externas, além das avaliações que acontecem dentro da escola, todas com ênfase em Português e Matemática. (Maria, 2014)
Oliveira (2006) assinala, em seus estudos, a percepção que as professoras dos Anos Iniciais possuem, quanto ao objetivo deste segmento de ensino: ensinar a ler e a escrever, a partir das aulas de Português. Em Salvador, esta preocupação aumenta, em virtude dos resultados ruins obtidos na primeira etapa do Salvador Avalia, quando de sua implantação, após a correção dos testes feitos pelos estudantes.
Cecília acrescenta, ainda, que o maior objetivo de toda a rede passou a ser a melhoria dos índices no PROSA:44
44 Programa Salvador Avalia.
Eu acho que é uma questão de currículo, de organização mesmo do currículo. Que precisa ser pensado. Eu acho que a dificuldade que eles [os alunos] têm, na base, do Português e da Matemática, é muito grande e juntando essas duas coisas acaba acontecendo isto: a ausência das outras disciplinas no dia a dia da escola. (Maria, 2014)
Na rede, a ênfase maior é em Língua Portuguesa e Matemática. Tanto que a carga horária são seis horas semanais de Português e seis horas de Matemática e História e Geografia só tem uma hora. A gente estava fazendo essas contas na semana passada. E as cobranças e as avaliações externas são todas em Língua Portuguesa e Matemática. Ninguém se lembra de História e Geografia. Ciências até tem mais aulas, são quatro horas semanais e a História e a Geografia pouco se fala. (Cecília, 2014)
A gente aplicou as provas para os alunos, envelopou e enviamos para São Paulo. Lá houve a correção de todas as avaliações e deram o feedback, aluno por aluno, para os professores. Foi algo inédito. Deram os resultados da turma, da escola e dos alunos. Habilidades que os alunos têm ou não e aí ficou comprovado que os alunos da rede não sabem praticamente construir textos. (Cecília, 2014)
A gente tem o AC quinzenal, com duas especialistas de Língua portuguesa e de Matemática, e elas estão trabalhando conosco, em cima da melhoria dos índices de leitura e operações matemáticas, para a gente poder trabalhar melhor com os alunos, porque o PROSA vem aí. Vamos todo mundo batalhar. (Cecília, 2014)