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Addressing the “technology at home problem” in Québec

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Na escrita autoficcional, entendemos que o nome próprio do autor é uma alusão referencial determinante para incitar o leitor a refletir sobre as possibilidades da inserção de informações autobiográficas na narrativa. Ou seja, a coincidência onomástica entre autor, narrador e personagem é um requisito importante quando buscamos aprofundar o entendimento sobre as intenções do autor ao abordar um elemento que alude à referencialidade em um contexto de ficção. Talvez a maior alusão à referencialidade no que tange à questão da identidade ocorra a partir do nome próprio. Essa identificação a partir de um nome, conforme já comentado anteriormente, pode acontecer de diferentes formas, que variam de uma maneira

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mais explícita, como é o caso das ocorrências nas produções de Lísias, como de maneira mais implícita, quando o autor opta por apelidos, sobrenomes, codinomes, iniciais, ou até mesmo pelo ocultamento do nome, como ocorre na obra O filho

eterno, de Cristovão Tezza, o que Lecarme considera como “um refinamento do

dispositivo da autoficção”. Muitos teóricos estudiosos da autobiografia e da autoficção, tais como Lejeune, Doubrovsky, Lecarme e Colonna, defendem a particularidade da coincidência onomástica entre autor, narrador e personagem como determinante para a classificação dessas modalidades de escrita de si. No entanto, é justamente o nome próprio, devido à sua certeira alusão à referencialidade (tendo em vista ainda que ao depararmos pela primeira vez com a produção de um autor ser essa a única informação autobiográfica de que dispomos) que gera uma grande hesitação no leitor quanto ao registro de leitura a ser seguido, devido à inserção do nome próprio do autor em um contexto de ficção. Além disso, há também o uso do nome próprio dos demais personagens, tendo em vista que quando o autor opta por nominar um personagem fazendo alusão a alguém “famoso ou conhecido”, acaba por aumentar o efeito de real dessa informação. Em se tratando de um contexto literário em que fica evidente o uso de elementos autobiográficos ao longo da narrativa, nominar os demais personagens da trama com um nome próprio que remete ao referencial e/ou que faz parte do círculo íntimo e social do autor pode contribuir de maneira bastante significativa no efeito de referencialidade e consequentemente no caráter híbrido da narrativa.

Em Divórcio, Ricardo Lísias faz uso do nome próprio do autor como importante elemento autoficcional, ao desenvolver a narrativa a partir de um narrador protagonista que possui seu nome:

Quando o medo de ter enlouquecido ficou muito forte, parei em um sinal vermelho e repeti o meu nome. Ricardo Lísias. O meu nome é Ricardo Lísias. Hoje não, mas depois de amanhã vou dar aula. Agora moro no cafofo. Estou andando há cinquenta minutos. Ou melhor, já passei de uma hora. Gastei todo o meu dinheiro para casar. Não tenho mais onde assistir meus DVDs. Dei todos os móveis antes de ir morar com ela. Agora sobraram os livros. (LÍSIAS, 2013, p.78-79)

A antagonista do romance, no caso a ex-esposa, não é nomeada ao longo de toda a narrativa. Pouquíssimos personagens são nomeados, dentre eles o amigo Marcelo, o amigo de adolescência Léo, e a travesti Ramona, que trabalhava perto de sua casa e com quem fez amizade. Na maior parte do romance o autor utiliza-se do

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ocultamento do nome próprio dos personagens, empregando o uso da letra [X] como substituição ao nome, como por exemplo quando se remete ao advogado de sua ex- esposa

:

Senhor Ricardo,

Gostaria de lembrá-lo de que no curso do divórcio serei advogado das duas partes. Em tese devo estar presente no ato de assinatura do documento. Aguardo suas considerações, att, [X].

Então, senhor [X], não sei de qual curso o senhor está falando. Muito menos de qual tese. Vou dizer uma coisa, meu caro [X], curso de direito hoje em dia tem em qualquer esquina. Não me venha falar em tese, tese quem fez fui eu. Aliás vou te dizer: não entendo por que tenho que chamar advogado de doutor. Que tese o senhor doutor fez? E não me venha dizer que é advogado dos dois, porque foi contratado pela transtornada. Você só pode ser igual a ela. Então não me venha falar em curso, porque você fez um que muita gente faz em todas as esquinas do mundo, tese você não tem ideia do que é. Sabe, [X], você no fundo me acha um idiota por ter entrado nessa situação. Não precisa me dizer, cale a boca. (LÍSIAS, 2013, p.64-65)

O ocultamento do nome próprio pode ter diversos significados, quais sejam provocar a curiosidade do leitor, ou muito provavelmente, em se tratando de uma obra de autoficção, o de resguardar o autor de possíveis consequências quanto ao uso de um nome próprio real em uma obra deste formato, tendo em vista que o próprio autor Ricardo Lísias já se envolveu em mal-entendidos oriundos de interpretações equivocadas sobre seus textos de ficção. Lísias poderia haver optado por nomes fictícios ao longo do romance, mas preferiu referenciá-los a partir da letra [X], como o faz ao remeter-se ao cineasta com quem sua então esposa teve um caso:

Poucos dias depois de encontrar o diário, mandei um e-mail para minha ex- mulher perguntando se ela e esse tal [X] tinham usado preservativo. A resposta é de novo inverossímil e também só poderia aparecer em um romance: não, Ricardo. Mas foi só uma vez. Está vendo como você é, nem todo africano tem aids. Você quer me condenar pelo que fiz em Cannes e por esse bendito diário, mas você é racista. (LÍSIAS, 2013, p.116)

Assim sendo, entendemos que Lísias utiliza-se do nome próprio com o intuito de provocar e desestabilizar o leitor, que ao deparar-se com um nome que remete à referencialidade em um contexto de ficção, não sabe se opta por um registro autobiográfico ou fictício no decorrer da leitura. Por outro lado, o ocultamento do nome próprio dos demais personagens, em uma obra de proposta autoficcional, como é o caso de Divórcio, de certa forma protege o autor das consequências da

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exposição da imagem do outro, que teria grande visibilidade em virtude da exibição de seu próprio nome.

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