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Dans le document PROCÈS-VERBAL (Page 16-21)

Começaremos agora a análise do primeiros materiais em vídeo por nós selecionados. As reportagens a seguir foram exibidas pela rede Globo no Jornal Nacional nos dias 11 e 12 de fevereiro de 201655, no dia do anúncio da detecção e no posterior. Novamente, recapitulando,

esse telejornal é de grande abrangência nacional, sendo o telejornal de TV aberta mais assistido pela população brasileira, inclusive na semana dos dias das reportagens selecionadas, como já dito anteriormente na Seção 6.3. A transcrição desse e dos próximos materiais que serão analisados (Seção 7.6) podem ser encontradas no Anexo 1.

Novamente, seguiremos a abordagem que utilizamos para analisar as notas lançadas pela SBF, já que ambas reportagens foram lançadas em dias consecutivos e, inclusive, a reportagem do dia 12 se inicia recapitulando a reportagem do dia 11.

Acerca dos locutores detectados nas reportagens, detectamos novamente a utilização dos três locutores: O locutor enquanto responsável pela enunciação [L]; o locutor enquanto ser no mundo [l]; por fim, o locutor impessoal [LI]. Representando o locutor [L], selecionamos o seguinte recorte:

(60) Para o pesquisador que ajudou nas descobertas sobre ondas gravitacionais, as viagens instantâneas estão distantes. Mas no caminho pra se chegar lá já foi dado o primeiro passo (JORNAL NACIONAL, 2016b)

Ao longo das duas reportagens, vemos uma aproximação muito grande entre [L] e [l], ou seja, não havendo uma dissociação entre eles, com constantes julgamentos acerca da notícia. Porém, em outras ocasiões o locutor [l] fica muito mais evidente, como nos recortes abaixo:

(61) Cientistas anunciaram hoje nos Estado Unidos uma conquista fundamental no estudo do universo. Eles conseguiram detectar as ondas gravitacionais existentes no espaço e no tempo (JORNAL NACIONAL, 2016a)

Encontramos nesse recorte um forte julgamento acerca da detecção. Quando o locutor nos diz que a detecção é uma conquista fundamental no estudo do universo, vemos a sua presença dele no mundo. Outro exemplo desse locutor pode ser visto no seguinte recorte:

55 Disponíveis em: https://tinyurl.com/y8fd79fw (reportagem do dia 11 de fev. 2016) e

148 (62) Ainda é um sonho, mas esse corredor formado por dois pontos distantes que o homem do futuro poderia criar tem o nome estranho: buraco de minhoca. A ideia é simples. Imagine uma minhoca percorrendo uma maçã. Em vez dela caminhar por toda a casca para chegar ao outro lado, um buraco se abriria no fruto e ela atravessaria mais rapidamente para atingir o objetivo (JORNAL NACIONAL, 2016b)

Novamente vemos aqui uma analogia, mas nesse caso acerca de algo diferente do que havíamos observado anteriormente. Ao invés da analogia referir-se à natureza do espaço-tempo, essa analogia refere-se à questão dos buracos de minhoca. A evocação a uma possibilidade de viagem no tempo ou mesmo através de um buraco de minhoca está presente em ambas as reportagens.

Já referente ao locutor [LI], percebemos a utilização tanto do discurso científico quanto histórico, como nos recortes abaixo:

(63) O grupo conseguiu ouvir o som de um evento catastrófico que aconteceu um bilhão e trezentos milhões de anos atrás, quando a vida na Terra ainda era embrionária. Dois buracos negros muito distantes estavam girando um em torno do outro em órbitas cada vez mais rápidas e se chocaram. Por uma fração mínima de segundo, a colisão produziu o equivalente a cinquenta vezes mais energia do que todas as estrelas do universo juntas (JORNAL NACIONAL, 2016a)

(64) Com telescópios o ser humano olha para as estrelas há séculos. Nas últimas décadas, a ciência começou a usar radiotelescópios para captar ondas eletromagnéticas e a nossa visão do universo melhorou muito (JORNAL NACIONAL, 2016a)

Já a citação à Einstein e à teoria da relatividade geral, embora tente utilizar o discurso científico e histórico para alcançar uma impessoalidade, está longe de conseguir isso:

(65) Ouvir o universo é uma perspectiva nova, mas não para o legado de Albert Einstein. Cem anos atrás, logo depois de escrever a teoria geral da relatividade, o físico de família judia nascido na Alemanha, propôs exatamente essa tese: a de que os grandes choques, as grandes explosões do universo, criam ondas gravitacionais e produzem sons. Einstein não tinha a ajuda de instrumentos sofisticados, mas um século depois, continua liderando a ciência (JORNAL NACIONAL, 2016a)

Há diversos julgamentos nesse último recorte e, embora tente utilizar o discurso científico (os grandes choques, as grandes explosões do universo, criam ondas gravitacionais e produzem sons) e histórico (Cem anos atrás, logo depois de escrever a teoria geral da

149 relatividade, o físico de família judia nascido na Alemanha), vemos esse locutor mais em coerência com [l] do que com [LI].

Já referente aos enunciadores, detectamos os três nesses textos: o primeiro [E1] apresenta visões condizentes com os mitos propostos por McComas (1998), o segundo [E2] a visão do cientista e, por último, [E3] a visão do historiador. Começando por [E1], vamos primeiramente analisar o recorte (60):

(60) Para o pesquisador que ajudou nas descobertas sobre ondas gravitacionais, as viagens instantâneas estão distantes. Mas no caminho pra se chegar lá já foi dado o primeiro passo (JORNAL NACIONAL, 2016b)

p – A descoberta das ondas gravitacionais é o primeiro passo para que possamos, em um futuro distante, realizar viagem de maneira instantânea.

pp – A detecção das ondas gravitacionais não quer dizer respeito apenas com questões teóricas de sua existência, mas também possui aplicações práticas.

s – O desenvolvimento científico possui finalidades atreladas ao desenvolvimento tecnológico de maneira intrínseca.

Vemos nesse recorte uma mescla das questões científicas (a detecção das ondas gravitacionais) com de cunho tecnológico (possibilidade de viajar pelo espaço). Podemos pegar aqui um trecho no qual McComas (1998, p. 67, tradução nossa) explica sobre essa mescla de maneira equivocada:

Um equívoco comum é a ideia de que ciência e tecnologia são as mesmas. De fato, muitos acreditam que a televisão, os foguetes, os computadores e até mesmo as geladeiras são ciência, mas uma das características da ciência é que ela não é necessariamente prática, enquanto os refrigeradores certamente são.

Já referente ao enunciador [E2], podemos retomar o recorte (65) para análise:

(65) Ouvir o universo é uma perspectiva nova, mas não para o legado de Albert Einstein. Cem anos atrás, logo depois de escrever a teoria geral da relatividade, o físico de família judia nascido na Alemanha, propôs exatamente essa tese: a de que os grandes choques, as grandes explosões do universo, criam ondas gravitacionais e produzem sons. Einstein não tinha a ajuda de instrumentos sofisticados, mas um século depois, continua liderando a ciência (JORNAL NACIONAL, 2016a)

150 p – Einstein, há um século, realizou proposições acerca do universo que só puderam ser comprovadas com a ajuda de instrumentos sofisticados, mas mesmo assim ele continua liderando a ciência.

pp – Os cientistas estão, há um século, buscando por comprovações das predições de Einstein

s – A ciência não é algo completo, mas alguns poucos cientistas conseguem realizar previsões que moverão gerações de futuros cientistas.

Nesse recorte, dos por nós já analisados, encontramos a imagem de Einstein mais condizente com uma imagem mítica até agora, no sentido de não ser

uma mera narrativa, nem uma forma de ciência, nem um ramo da arte ou da história, nem uma narrativa explicativa. Ele cumpre uma função sui generis intimamente ligada à natureza da tradição e à continuidade da cultura, com a relação entre a idade e a juventude e com a atitude humana em relação ao passado. A função do mito, resumidamente, é fortalecer a tradição e dotá-la de um valor e prestígio maiores, remontando-a a uma realidade superior, melhor e mais sobrenatural dos eventos iniciais (MALINOWSKI, 1948, p. 112, tradução nossa)

Além disso, existem alguns problemas conceituais tanto físicos quanto históricos de certa maneira graves nesse recorte. Quando é dito que Einstein propôs exatamente a tese de que grandes explosões do universo, criam ondas gravitacionais e produzem sons, percebemos erros físicos, pois as ondas gravitacionais não são ondas sonoras. Já vimos em [T5] e em [T7] o conceito de ouvir as ondas, com uma especificidade maior acerca do que isso significaria em [T7], mas em nenhum deles é tido que grandes explosões produzem som, até porque não haveria sua propagação no vácuo. Percebemos um problema conceitual histórico ao atribuir esse erro físico como sendo exatamente o que Einstein previu.

Já para analisarmos o enunciador [E3], mais uma vez retornaremos a um recorte já apresentado, dessa vez o recorte (64):

(64) Com telescópios o ser humano olha para as estrelas há séculos. Nas últimas décadas, a ciência começou a usar radiotelescópios para captar ondas eletromagnéticas e a nossa visão do universo melhorou muito (JORNAL NACIONAL, 2016a)

p – A humanidade utiliza telescópios há séculos para observar o céu, mas apenas nas últimas décadas utilizamos outros aparelhos para aprimorar as observações.

151 pp – O ser humano se interessa há séculos pelas estrelas e busca novas maneiras de observar o céu.

s – A observação do céu só se desenvolveu a partir da utilização de aparatos auxiliares, como telescópios e, mais recentemente, radiotelescópios.

Vemos nesse recorte mais um equívoco histórico. Os avanços tecnológicos com certeza são fundamentais para o desenvolvimento da astronomia, mas o ser humano olha para o céu mesmo antes do desenvolvimento de aparatos auxiliares, como os telescópios. A observação celeste não é algo que se data em séculos, mas sim em milênios. “Mais de 3000 anos se passaram desde que os registros históricos pela primeira vez indicaram o papel das estrelas e membros do sistema solar como pontos fiduciários para a orientação local e temporal na Terra” (WALTER e SOVERS, 2000, p. 5, tradução nossa).

Nas duas reportagens lançadas pelo Jornal Nacional, vemos que a maneira como a detecção é anunciada é distinta dos materiais em texto até agora analisados. Há um caráter sensacionalista na forma como elas são estruturadas, atribuindo uma visão mítica a Einstein, cometendo alguns equívocos físicos e históricos e tentando reforçar como isso poderia ser útil em um futuro distante através de viagens por buracos de minhoca.

Isso provavelmente se deve pela forma como essa mídia é consumida, de forma diferente das demais já analisadas: enquanto no caso dos textos a pessoa ou vai atrás da notícia ou ao menos se compromete a lê-la, os telejornais precisam, de alguma forma, manter o telespectador interessado no assunto que está sendo tratado para que ele não deixe de assisti-lo. Dessa maneira, tentar trazer uma utilidade ou mesmo citar um nome famoso faria com que a pessoa mantivesse esse interesse.

7.6 Grupo 6: Fantástico, The Late Show With Stephen Colbert e

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