Para essa formação sugerimos que a tecnologia utilizada deva ser familiar à comunidade escolar, para que germine dentro da própria instituição e seja aprimorada pelos membros da comunidade. Tomamos como exemplo dessa dinâmica o movimento do software livre, que adota pequenas e simples tecnologias para que, no coletivo, sejam aprimoradas, como um bazar, o qual, de acordo com Raymond, foi essencial para o crescimento da comunidade do software livre. “Nenhuma catedral calma e respeitosa aqui – ao invés, a comunidade Linux pareceu assemelhar-se a um grande e barulhento bazar de diferentes agendas e aproximações” (1998, p. 5). O importante é apropriarmo-nos dessa filosofia e criar um espaço coletivo para que os professores possam discutir sobre
suas práticas, teorias, metodologias49, tecnologias e angústias que emergem do dia-a-dia.
49 No contexto desta tese, metodologia assume o sentido proposto por Morin, de construção de uma
Conforme for a apropriação dos conceitos por parte dos professores, pode-se modificar esses ambientes, assim como ampliar as reflexões acerca da recriação da prática curricular.
Kirkwood (2006, p. 27, tradução nossa), ao descrever a importância da associação da web 2.0 aos ambientes virtuais de aprendizagem, afirma: “A ideia de que a direção e forma de um sistema auto-regulado não pode ser previsto – deve estar no centro de uma tal arquitetura, a fim de apoiar o imprevisível”. Neste sentido, pensamos em conectar os professores, em que cada sujeito seja um ponto e adiciona mais informação e conhecimento a esse espaço de aprendizagem. Num dado momento um professor propõe uma reflexão, posteriormente outro e, assim, sucessivamente, sendo o conhecimento teórico e prático colocado a serviço da comunidade acadêmica. Trata-se de incorporar os recursos tecnológicos no cotidiano das instituições, não como algo imposto de fora, mas como uma necessidade de formação permanente do professor, de acordo com a cultura da comunidade institucional.
Segundo Kirkwood, para que uma comunidade tenha sucesso, um princípio fundamental é
pensar cuidadosamente sobre o plano geral da arquitetura on-line, a fim de assegurar que as medidas operacionais estão no local que irá fornecer aos alunos as ferramentas para poder ajudar com o projeto do curso e negociar a estrutura do curso, e contribuir para o conhecimento compartilhado e busca de informação e divulgação (2006, p. 16, tradução nossa).
Em outras palavras, é no coletivo docente que se define a arquitetura de ferramentas para compor o ciberespaço. É crucial que se tenha cuidado para não utilizar tecnologias muito sofisticadas, nem obsoletas, pois ambas podem ocasionar uma fuga de membros do DPDLiC. De um lado, implica dificuldades de assimilação e familiarização e, de outro, uma subutilização das tecnologias disponíveis. De preferência que seja uma tecnologia que o grupo já utilize ou de fácil aprendizagem, pois
o esforço mental exigido para aprender a utilizar o software não deve exceder os benefícios de pensamento que dele resultam. Se forem necessárias semanas de esforço para aprender a trabalhar com o software, este torna-se o objeto de aprendizagem, em vez das ideias que estão a ser estudadas (JONASSEN, 2007, p. 33).
de forma genérica esperando resultados milagrosos. “O objetivo do método, aqui, é ajudar a pensar por
si mesmo para responder ao desafio da complexidade dos problemas” (MORIN, 2015, p. 36, grifo
Geralmente, podemos usufruir de uma diversidade de tecnologias, tais como: redes sociais, blogs, fotoblogs, youtube, dropbox, ambientes virtuais de aprendizagem, listas de discussão, correio eletrônico e outras tecnologias que fazem parte da cultura da comunidade de professores.
Para a construção do ciberespaço e a ampliação da interação no DPDLiC
utilizamos, inicialmente, um CMS50 ou LMS51, ou ainda, Ambientes Virtuais de Ensino
e Aprendizagem (AVEA)52. São inúmeros os AVEA disponíveis para a utilização livre:
Tidia-Ae53, Sakai OAE54, Teleduc55, Atutor56, Claronline57, Amadeus58 e o Moodle59,
para citar os mais conhecidos. Esses ambientes possuem ferramentas síncronas60 e
assíncronas61. Mediante inscrição, os alunos compõem o banco de dados do curso. A
partir disso sabemos quantas vezes o aluno acessou, o que ele fez, quanto tempo ele permaneceu no ambiente. Permite gerenciarmos prazos de entrega dos trabalhos e atividades propostas, enfim, trata-se de um ambiente que facilita a vida do professor na hora de avaliar e interagir com alunos ou com outros professores, pois o mesmo tem o registro de todos, os acessos, as atividades, as avaliações, as notas, e ainda admite utilizar recursos para calcular automaticamente as notas. Trata-se da simulação de uma sala de aula presencial.
Como membro do grupo sugeri, inicialmente, o MOODLE62, que é distribuído
gratuitamente com a licença GNU-GPL63. Os cursos do e-tec Brasil do IFFAR utilizam
50 CMS – acrônimo de “Content Management System”, ou seja, um Sistema de Gerenciamento de
Conteúdo.
51 Learning Management System.
52 No livro intitulado “Ambientes Virtuais em diferentes contextos”, organizado por Alice Cybes Pereira,
encontramos várias definições para AVEA: desde pacotes informatizados fechados para gerenciamento e controle de turmas e do processo de aprendizagem, até ferramentas mais individualizadas que permitem mais flexibilidade ao conceito. Diante disso, “a definição de AVEA deve ser ampla, considerando não somente um pacote de software pronto, mas também qualquer tentativa de criar ambientes baseados em ferramentas individualizadas”(PEREIRA, 2007, p. 6). 53 http://tidia-ae.usp.br 54 http://sakaiproject.org 55 http://teleduc.nied.unicamp.br 56 http://www.aautor.ca 57 http://www.claronline.net 58 http://amadeus.cin.ufpe.br/blog 59 http://www.moodle.org
60 Promovem comunicação instantânea, em tempo real. Ex.: chat e telefone. 61 Não permitem comunicação instantânea. Ex.: e-mail; fórum.
62 MOODLE é o acrônimo de Modular Object-Oriented Dynamic Learning Environment - sistema modular
de ensino a distância orientado a objetos. Ou ainda, um Sistema de Gerenciamento de Aprendizagem em trabalho colaborativo (SGA), disponível para download em: http://www.moodle.org.
63 GNU-GPL foi um termo utilizado inicialmente por Richard Stallman, em 1984, para designar software
esse ambiente, sendo acessado pelo endereço: http://eadiffarroupilha.edu.br/sa. Ele gerencia atividades colaborativas e cooperativas, grupos de trabalho (presencial ou on- line) e comunidades de aprendizagem. Trata-se de um software produzido pela coletividade de profissionais do mundo inteiro reunidos em uma comunidade por meio de portal web, que funciona como uma central de informações e troca de experiências. Foi escolhido para apoiar as atividades do DPDLiC pela facilidade de acesso e familiaridade dos membros com esse ambiente, já que o utilizam para suas aulas nos cursos técnicos a distância.
Para postagem de material nesse ambiente acessa-se a página do CMS como administrador e, depois disso, passa-se à construção da proposta de trabalho. Ele permite gerenciar turmas, cursos e usuários. Como a atividade proposta, nesta tese, foi a de disponibilizar esse espaço para que fosse utilizado conforme a necessidade, sem uma imposição autoritária para obter uma maior participação dos professores, os módulos de gerenciamento não foram utilizados, pois entendemos que não basta acessar o ambiente e participar de um fórum, apenas para constar nas estatísticas, como ocorre em diversos
cursos a distância64, e sim quando temos contribuições, dúvidas, questionamentos,
opiniões e reflexões para compartilharmos.
Para acessar os materiais localiza-se a página do ambiente e realiza-se o login65.
Para efetuar o login precisa-se de um cadastro no curso, que é feito pelo professor ou tutor. Nesse espaço é possível disponibilizar ferramentas para desenvolvimento de diferentes atividades; como exemplo, em nosso espaço interativo foram utilizadas: a) Calendário - para agendamento de eventos; b) Chats - para conversas síncronas em tempo real; c) Fórum – para discutir de forma assíncrona os temas sobre a formação e resolver dúvidas; d) Glossário: para adicionar termos com seu significado, geralmente para esclarecer termos sobre o curso; e) Biblioteca: para disponibilizar textos, vídeos e livros. O Moodle permite, ainda, a utilização de outras ferramentas para complementar a formação, conforme necessidade do grupo.
Public) é traduzido como Licença Pública Geral. Atualmente, a GPL é a licença com maior utilização em
projetos de software livre.
64 Em algumas experiências com a Educação a Distância percebi, em diferentes momentos, que grande
parte dos alunos participam das interações para constar, sem uma construção argumentativa que potencializasse uma maior discussão. Para representarem uma maior participação, alguns chegavam a ser repetitivos nas suas considerações.
65 Identificar-se a um computador após conectar-se. Durante o procedimento, o computador solicita o
Apesar de iniciar a criação e propostas de estudos utilizando o AVEA MOODLE, as tecnologias podem ser outras. A ideia é deixar que os membros do DPDLiC adotem a tecnologia que potencialize as discussões. Como no IFFAR temos a cultura do correio eletrônico, que é outra forma de comunicação bastante utilizada pelos professores, também foi um recurso que permeou essas interações. Trata-se de uma forma de comunicação rápida e de fácil utilização, que possibilita uma comunicação assíncrona com compartilhamento de textos, sons, imagens.
O material produzido nesses espaços foi utilizado66 e facilitou a análise e
interpretação das informações. A proposta foi criada em 2014 e teve como objetivo contribuir para a ocorrência de posturas autônomas e criativas nas práticas docentes, quanto ao desencadeamento de processos inovadores que possibilitem uma transformação da educação e proporcionem o DPD com a recriação curricular.
Todos os sujeitos envolvidos nessa pesquisa consentiram na utilização dos dados gerados no DPDLiC. Os preceitos éticos, como sigilo e anonimato, estão protegidos, principalmente pelo Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), como veremos no próximo subcapítulo.