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Quando muda para o Centro, a família vai ocupar um apartamento que se distingue apenas pelo número que apresenta, igual a todos os outros, impessoal, portanto - “Os apartamentos estavam identificados como se fossem habitações de hotel” (AC: 279) -, não existindo nele nada que estabeleça laços de intimidade com a família. Perdeu-se, assim, a noção do espaço sagrado que é a casa, para se entrar num espaço indiferenciado e desumano. Eliade mostra que uma habitação deste tipo, industrial, não apresenta senão marcas de profano, perdida que foi toda a sacralidade suposta numa habitação.

Seria inútil insistir sobre o valor e a função da habitação nas sociedades industriais; são suficientemente bem conhecidos. Segundo a fórmula de um célebre arquiteto contemporâneo, Le Corbusier, a casa é uma “máquina para habitar”. Alinha-se, portanto, entre as inúmeras máquinas fabricadas em série nas sociedades industriais, A casa ideal do mundo moderno deve ser, antes de tudo, funcional, quer dizer, deve permitir aos homens trabalharem e repousarem a fim de assegurarem o trabalho. Pode-se mudar a “máquina de habitar” tão frequentemente quanto se troca uma bicicleta, uma geladeira ou um carro.

(Eliade, 2008: 48-49)

Não se estranha, pois, que, abandonados os referenciais de segurança íntima que o espaço da olaria proporcionava, a família experimente sensações de insegurança e de alguma disforia ao ocupar o novo espaço: “Sinto-me nervosa, disse Marta baixinho para que o pai não percebesse” (AC: 276); “é questão de nos habituarmos, respondeu Marçal, também em voz baixa” (AC: 276); “Façam o favor de entrar, chegamos a casa, disse em voz alta, fingindo um entusiasmo que não sentia. Não estavam, contentes nem excitados pela novidade” (AC: 279). Uma vez instalados no Centro, interessante é a possibilidade que Cipriano Alvor tem de, no seu tempo livre, investigar o espaço, o que lhe vai permitir descobrir e penetrar na dita caverna que dá título ao romance. Lembremos que Cipriano

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passa o seu tempo a deambular pelo Centro e que um dia copia até algumas frases das que vê escritas nos cartazes afixados. Quando o diz em casa, o genro não aprecia a ideia, por poder parecer suspeito que alguém ande a copiar frases que se destinam apenas a ser lidas.

Cipriano dá importância a essas frases, a primeira das quais diz: “Seja ousado, sonhe” (AC: 312). É evidente que o sentido da frase, juntamente com a longa listagem de outras que se seguiu, tem um contexto meramente consumista, mas não deixa de ser curioso que Cipriano tenha começado precisamente por uma que parece vir a ser determinante na sua postura futura, quando decide, sem vacilar, depois da experiência da caverna, que não quer ali continuar: “Vocês decidirão a vossa vida, eu vou-me embora” (AC: 335). Cipriano conclui o seu processo de consciencialização depois da ocupação do espaço do Centro e está em condições de tomar uma posição segura.

Quando, antes, toma a decisão de descer aos subterrâneos do Centro, sente-se nervoso, mas movido de uma vontade de conhecer o que está para lá daquele espaço que já conhece. Mais do que essa viagem num espaço físico, aquela descida representa, como veremos, uma viagem ao interior de si, um conhecimento de si, fundamental para tomar opções futuras.

Quase rente ao chão, à sua esquerda, havia uma luminosidade ténue que não tardou a substancializar-se, passos andados, numa fiada de lâmpadas dispostas em gambiarra. Iluminavam uma rampa de terra que ia formar ao fundo um patamar donde nascia outro lanço. Tão espesso, tão denso era o silêncio que Cipriano Algor podia ouvir o bater do seu próprio coração. Vamos lá, pensou […] A luz indireta dos focos ainda permitia ver uns três ou quatro metros de chão, o resto era negro como o interior de um corpo.

(AC: 329-330-331)

Nesta atmosfera criadora de algum suspense, Cipriano vai encontrar o seu genro, que se encontra de vigia ao espaço. Apesar de Marçal se mostrar incomodado com a ousadia do sogro em penetrar naquele espaço proibido, a verdade é que, no fundo, parece sentir-se aliviado por haver mais alguém que tem conhecimento do que ali se passa, pelo que incentiva Cipriano a prosseguir para ver com os seus próprios olhos o que ele, Marçal, já conhecia. É mais um passo importante

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na aquisição do conhecimento. Quando atinge a caverna, Cipriano experimenta, perante o que vê, uma sensação de pânico, que, contudo, não o impede de se manter atento ao que observa.

A luz trémula da lanterna varreu devagar a pedra branca, tocou ao de leve uns panos escuros, subiu, e era um corpo humano sentado que ali estava. Ao lado dele, cobertos com os mesmos panos escuros, mais cinco corpos igualmente sentados, eretos todos como se um espigão de ferro lhes tivesse entrado pelo crânio e os mantivesse atarraxados à pedra. A parece lisa do fundo da gruta estava a dez palmos das órbitas encovadas, onde os globos oculares teriam sido reduzidos a um grão de poeira.

(AC: 332)

Ao interrogar-se quem poderiam ser aquelas pessoas, Cipriano entra como que num processo de alucinação, que acaba por ser revelador do sentido que Saramago pretende dar ao romance. Depois de ter visto aquelas figuras humanas e de ter experimentado toda aquela confusão de sensações, Cipriano acaba por se reencontrar com o genro e saem ambos da caverna.

[…] três homens e três mulheres, viu restos de ataduras que pareciam ter servido para lhes imobilizar os pescoços, depois baixou a luz, ataduras iguais prendiam-lhes as pernas. Então, devagar, muito devagar, como uma luz que não tivesse pressa de aparecer, mas que viesse para mostrar a verdade das coisas até aos seus mais escuros e recônditos desvãos, Cipriano Algor viu-se a entrar outra vez no forno da olaria, viu o banco de pedra que os pedreiros lá tinham deixado esquecido e sentou- se nele, e outra vez escutou a voz de Marçal, porém estas palavras agora são diferentes, chamam e tornam a chamar, inquietas, lá de longe, Pai, está a ouvir-me, responda-me. A voz retumba no interior da gruta, os ecos vão de parede a parede, multiplicam-se, se Marçal não se cala por um minuto não será possível ouvirmos a voz de Cipriano Algor a dizer, distante, como se ela própria já fosse também um eco, Estou bem, não te preocupes, não me demoro.

(AC: 332)

Mais tarde, tentando perceber que figuras seriam aquelas, acabam por chegar à conclusão que são eles próprios, eles e todos aqueles que se deixam iludir da realidade, vítimas do consumismo, julgando encontrar em espaços artificiais como o Centro um lugar ideal para viverem as suas vidas. Só que a visão da caverna provou que aquelas figuras estavam desprovidas de qualquer racionalidade, como se fossem fantasmas. Há aqui, pois, algum paralelo com a caverna referida na alegoria de Platão, na medida em que, da mesma forma que o homem da caverna de Platão sai da caverna com vista a conhecer a luz, a adquirir o conhecimento,

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também Cipriano Algor e o genro vão sair daquela caverna do Centro para realizarem as suas existências num lugar, que não pode ser nem a olaria, porque pertence a um passado impossível de ser reativado, nem no Centro, uma vez que não há ali lugar à realização humana, tal como comprovam as estátuas humanas encontradas.

Terão todos, então, de encontrar esse espaço de utopia, pelo que, deixando o Centro, Cipriano, Marta e Marçal vão passar pela olaria e a eles se vai juntar a figura feminina de Isaura, importante na construção desse tempo de devir, num espaço algures em que a realização humana seja possível.

Relativamente a Isaura, lembremos que, antes da partida de Cipriano para ir viver no Centro, o amor entre eles tinha-se já consubstanciado num encontro ocorrido num espaço de intimidade, no final do qual o oleiro promete a Isaura que voltará, para, juntamente com ela, encontrarem “uma solução” de vida. Ou seja, percebemos que a partida para o Centro nunca foi entendida como definitiva por Cipriano, mas antes como uma espécie de estágio para adquirir conhecimento que o fizesse, depois, optar, em consciência, por um sentido de vida novo e vivenciado noutro espaço que não aquele onde sempre viveu nem aquele onde temporariamente decidiu habitar.

Cipriano Algor e Isaura tinham-se levantado, ela chorava de alegria e mágoa, ele balbuciava, Voltarei, voltarei, é realmente uma pena que a porta da rua não se abra de par em par para que a vizinhança possa verificar e passar palavra como a viúva do Estudioso e o velho da olaria se amam de um verdadeiro e finalmente confessado amor. Com voz que recuperara algo do seu tom natural, Cipriano Algor repetiu, Voltarei, voltarei, há de haver uma solução para nós, A única solução é ficares, disse Isaura, Sabes que não posso, Estaremos aqui à tua espera, o Achado e eu […].

(AC: 301)

A caverna começa por apresentar o espaço do Centro como um local que dá a

imagem ilusória de uma sociedade perfeita, espaço de felicidade e de prazeres. É essa imagem que dele tem Marçalo Gacho, que tudo faz para conseguir um apartamento como guarda residente, para ali poder viver em permanência, fora do contacto com o mundo exterior, de que não precisará, assim o julga, uma vez que o Centro fornece tudo aquilo que para ele parece importante e que passa pelas

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boas condições materiais para viver com Marta. Nessa medida, o Centro não pode sequer ser considerado um espaço utópico, mesmo aos olhos de Marçal, pois a utopia consiste numa dimensão a que não se tem acesso, pela qual se luta, e o acesso de Marçal ao espaço idealizado do Centro acaba por se concretizar. É por isso que, verdadeiramente consciente da vida que ali se leva, o guarda Marçal decide também partir rumo a um outro espaço de utopia, esse sim, uma busca, um ideal.

O Centro comporta em si uma ideologia. Conforme constatam os dois ocupantes da furgoneta quando a ele se dirigem, “qualquer caminho que se tome vai dar ao Centro”, ou seja, parece inevitável que todos os caminhos e todas as vontades sejam dirigidas para o Centro, espaço que atrai pela sua lógica consumista e alienadora de mentalidades. Ali, são os produtos que contam, não as pessoas, que são reduzidas a números. Conta o produto, enquanto ele for competitivo e der lucro, na lógica de mercado capitalista: “ou o produto interessa, ou o produto não interessa” (AC: 65); “E a quem vou eu vender agora as minhas louças, perguntou o oleiro sucumbido, O problema é seu, não meu” (AC: 96).

Temos centrado a nossa atenção na dimensão humana do espaço e não podemos deixar de sublinhar o facto de uma grande parte de A caverna ser dedicada à exploração dessas relações humanas. Já nos referimos à falta de amor que Marçal sentiu por parte dos seus pais, situação que tenta colmatar através da sua entrega à família Algor. Mas, ao nível das relações humanas, é Cipriano Algor que mais é tocado pela falta de humanidade com que é, a maior parte das vezes, presenteado nos seus contactos com o Centro. Sendo ele um mero fornecedor de mercadoria, tem acima de si toda uma hierarquia que não pretende que se estabeleça qualquer contacto de proximidade com os que estão no patamar hierárquico inferior: “tratar os inferiores ou subalternos com excessiva confiança sempre acabou por minar o respeito e resultar em licença, ou, querendo usar palavras mais explícitas, sem ambiguidade, insubordinação, indisciplina e hierarquia” (AC: 131-132), diz o chefe de departamento, que antes responde a Cipriano, quando este elogia a qualidade da bondade, que não é uma pessoa boa, é apenas uma pessoa prática e que, como chefe, aspira a subir no Centro e

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nessa altura ignorará por completo a pessoa Cipriano, que, contudo, até lhe parece uma pessoa inteligente.

Eu próprio serei atirado fora quando não servir, O senhor é um chefe, Sou um chefe, de facto, mas só para aqueles que estão abaixo de mim, acima há outros juízes, O Centro não é um tribunal, Engana-se, é um tribunal e não conheço outro mais implacável […] Observo-lhe que está a repetir palavras que ouviu de mim ontem, Creio recordar que sim, mais ou menos, A razão é que há coisas que só podem ser ditas para baixo, E eu estou em baixo, Não fui eu quem lá o pôs, mas está, Ao menos ainda tenho essa utilidade, mas se a sua carreira progredir, como certamente sucederá, muitos mais irão ficar abaixo de si, Se tal acontecer, o senhor Cipriano Algor, para mim, tornar-se-á invisível.

(AC: 130)

Tratado como sempre foi de forma quase desumana, estranho parece que Cipriano decidida acompanhar a filha e o genro quando estes vão habitar um espaço completamente artificial, onde não são permitidos animais, onde os peixes nos aquários e as aves nas gaiolas são artificiais, mas onde se produzem sons como os naturais e que fazem, por conseguinte, as pessoas imaginarem estar em ambientes naturais e exóticos. A própria descrição da forma como surgem dispostos os apartamentos, como se de uma colmeia se tratasse, leva as pessoas a aceitarem e preferirem mesmo viver em espaços que têm as janelas viradas para dentro do próprio Centro, ao invés de preferirem os que as têm viradas para o exterior, para a paisagem natural, onde é possível ver o sol. De facto, parece que as pessoas no Centro preferem viver num mundo de sombras, tal como os habitantes da caverna de Platão, em vez de verem a verdadeira luz.

Duas daquelas janelas são nossas Só duas, perguntou Marta, Não nos podemos queixar, há apartamentos que só têm uma, disse Marçal, isto sem falar dos que as têm para o interior, O interior de quê, O interior do Centro, claro, Queres tu dizer que há apartamentos cujas janelas dão para o interior do próprio Centro, Fica sabendo que há muitas pessoas que os preferem, acham que a vista dali é infinitamente mais agradável, variada e divertida, ao passo que do outro lado são apenas os mesmos telhados e o mesmo céu.

(AC: 276)

O caráter gigantesco do centro acaba por ser novamente intensificado quando Marta vai visitar aquele que é o apartamento que lhes está destinado, numa torre altíssima com quase meia centena de andares. Fica negativamente

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impressionada com a sensação de enclausuramento e com a falta de luz natural, desvalorizando mesmo a tecnologia de ponta de alguns apartamentos, que conseguem manter a temperatura e o grau de humidade constantes durante todo o ano - “Felizmente que não nos calhou um apartamento destes, não sei se conseguiria viver muito tempo dentro dele” (AC: 279).

Marçal Gacho tenta impressionar Marta e o sogro, mostrando-lhes o “centro comercial” a partir de um elevador. A subida é apresentada pelo narrador como uma ascensão ao paraíso, mas a discussão que a seguir Cipriano Algor enceta sobre a segurança do Centro afasta a noção de paraíso, porquanto subentende a existência de uma forte insegurança, que se procura contrariar com o recurso aos guardas e a todo o tipo de tecnologia e de outros meios de controlo. Aparente espaço utópico, não o é, realmente, pois, como vimos, está longe da perfeição - e facilmente acaba por se transformar num espaço de negatividade do qual as personagens se vão querer rapidamente libertar.

O ascensor ia atravessando vagarosamente os pavimentos, mostrando sucessivamente os andares, as galerias, as lojas, as escadarias de aparato, as escadas rolantes, os pontos de encontro, os cafés, os restaurantes, os terraços com mesas e cadeiras, os cinemas e os teatros, as discotecas, uns ecrãs enormes de televisão, infinitas decorações, os jogos eletrónicos, os balões, os repuxos e outros efeitos de água, as plataformas, os jardins suspensos, os cartazes, as bandeirolas, os painéis publicitários, os manequins, os gabinetes de provas, uma fachada de igreja, a entrada para a praia, um bingo, um casino, um campo de ténis, um ginásio, uma montanha russa, um zoológico, uma pista de automóveis elétricos, um ciclorama, uma cascata, tudo à espera, tudo em silêncio, e mais lojas, e mais galerias, e mais manequins, e mais jardins suspensos, e coisas de que provavelmente ninguém conhece os nomes, como uma ascensão ao paraíso.

(AC: 277)

Não é este o único momento do romance em que surge a enumeração exaustiva de tudo o que o Centro corporiza. O assunto é retomado pelo narrador e, depois de novo elencar de supostas atrações, a descrição termina referindo que se trata de “uma lista a tal ponto extensa de prodígios que nem oitenta anos de vida ociosa bastariam para os desfrutar com proveito, mesmo tendo nascido a pessoa no Centro e não tendo saído dele nunca para o mundo exterior” (AC: 308). E faltava ainda a nova atração a abrir brevemente ao público, a “Caverna de Platão, atração exclusiva, única no mundo” (AC: 350), aquela que Cipriano ousou

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penetrar e o levou à tomada definitiva da atitude que viria mudar para sempre a sua vida e as da filha e do genro.

Questionávamo-nos sobre o que terá levado Cipriano a decidir ir viver num mundo tão diferente daquele a que estava habituado e que prezava, mas recordamos que o espaço mítico da olaria e do forno ficam desvirtuados da sacralização que representam para Cipriano, no momento em que a olaria deixa de poder cumprir a sua missão e, com ela, Cipriano e Marta tornam-se inúteis, conforme atrás já vimos; mas acrescentamos que é com a decisão de Marta acompanhar o seu marido que o espaço da olaria perde toda a afetividade que ali se podia encontrar, pelo que Cipriano se vai agarrar ao único elemento que lhe resta e que é a relação familiar, valorizando uma dimensão humana que não podia, de forma alguma, perder.

No entanto, mesmo vivendo todos juntos no Centro, a dimensão humana que se esperava manter parece ser afetada em função do novo espaço, pelo que não há mais nada a fazer senão partir: “a casa, esta onde agora vivem, tem o dom maligno de fazer calar as pessoas” (AC: 326). O apartamento revela ser um não- lugar, não sendo de estranhar que o diálogo vá, pouco a pouco, desaparecendo.

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