O que é Ração Líquida e como eja é produzida?
Ração Líquida é uma pasta produzida através de processo industrial, onde se pasteurizam alimentos descartados, mas de boa qualidade e de diferentes composições e geradores, na consistência de uma sopa grossa, podendo ser ingerida pelos animais monogástricos, ruminantes e aves.
Podem ser utilizados alimentos de qualquer natureza, pois eles são triturados em uma granulometria muito fina, passam por um homogeneizador e, em seguida, são injetados em uma máquina que eleva sua temperatura a 180 °C, por um curto espaço de tempo, para que se eliminem microorganismos sem a perda do valor nutritivo, como ocorre no caso do leite de caixinha UHT-Ultra High Temperature, que recebe tratamento similar. Esse sistema permite produzir uma ração com qualidade, boa palatibilidade e digestibilidade, com controle microbiológico e bromatológico.
Um importante fator componente nesse processo, e muito caro hoje em dia, é a energia utilizada para pasteurização. Pensando nesse problema, foi elaborada uma alternativa ambientalmente correta, barata e, o mais importante, eficiente. A pasteurização requer um gasto elevado de energia, para que o alimento saia da temperatura ambiente em que se encontra e atinja 180 °C. Dependendo da fonte energética, o custo pode ser tão dispendioso que inviabilizaria o resultado final. Por isso, para contornar esse problema, a máquina pasteurizadora é acoplada a uma caldeira, que recebe a madeira como combustível e que produzirá fonte de calor (vapor), na função de prover a pasteurização.
Essa madeira é oriunda do descarte urbano, recolhida das sobras da construção civil, podas de árvores, descarte de caixarias,
"pallets” etc. Com isso, utilizou-se uma fonte energética urbana
atualmente desperdiçada, diminuindo o corte de árvores para este fim. Dessa forma, novamente se viabilizou a utilização de uma fonte energética abundante que a cidade desperdiça.
Assim, através de uma parceria realizada entre a CEAGESP e a empresa VOMM Equipamentos, o processo tornou-se possível. Durante a fase de testes, a VOMM foi responsável pelo processamento e tecnologia, enquanto a CEAGESP fornecia as sobras orgânicas e desenvolvia as pesquisas correlatas em conjunto.
Cerca de 30 a 50% da fração orgânica descartada na CEAGESP pode ser transformada em Ração Líquida para uso na alimentação animal. E, para que fosse possível testar as diferentes sobras, foi necessário esperar todo o ciclo sazonal (iniciado em março de 2003) das frutas, legumes e verduras. Somente ao completarmos um ano, em fevereiro de 2004, foi possível, em conjunto com a VOMM, estudar 0 comportamento que cada alimento apresentou na formulação da Ração Líquida, bem como a interação entre eles, as necessidades de reposição de proteína, carboidratos, aminoácidos, etc., dependendo do animal e de sua fase de vida.
No período de um ano, foram produzidas mais de 525
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toneladas de Ração Líquida, utilizadas para alimentação de suínos, aves e bovinos. Para cada espécie animal foi testado um tipo de ração, que deveria ser balanceada, levando-se em conta as características metabólicas e nutricionais exigidas.
Como não existem formulações disponíveis no mercado para a produção da Ração Líquida, teve-se que estudar sua aplicação na prática. Assim, a CEAGESP foi o primeiro órgão público no Brasil, voltado ao abastecimento e grande gerador de resíduos, a buscar uma solução dessa natureza.
Na elaboração da Ração Líquida foram utilizados alimentos de clima tropical, que se encontram naturalmente hidratados. Assim, não
houve necessidade de se realizar a desidratação, porque se utilizou sua água como um elemento a mais na composição da ração, ou seja, produziu- se algo econômico e adaptado às condições climáticas e agrícolas do país, fugindo do modelo da ração seca oriunda de sementes.
Existe um dispositivo legal do Ministério da Agricultura, publicado no Diário Oficial da União, no dia 30/10/03, que autoriza a produção de ração para animais utilizando-se carcaças de animais mortos, desde que sejam processadas da seguinte forma: vapor direto a temperatura não inferior a 133° C, com tempo mínimo de 20 minutos e pressão de 3 BAR da massa de produto em processamento. Em virtude do processo da Ração Líquida, utilizamos vegetais e sobras industriais, e não carcaça de animais, conseguindo assim um controle de qualidade superior ao da legislação vigente.
A técnica empregada foi apoiada e acompanhada por várias instituições idôneas, como a DIMA (Divisão de Inspeção Municipal de Alimentos), que é o órgão responsável na cidade de São Paulo pelo controle dos alimentos, e que, nesse caso, diagnosticava a qualidade da ração produzida. Participaram também o ITESP (Instituto de Terras do Estado de São Paulo), órgão ligado ao Governo do Estado de São Paulo e que foi responsável pelo acompanhamento técnico da alimentação animal no campo, cedendo zootécnicos e veterinários, e, por fim, o próprio governo local do município de Itapeva, para onde a Ração Líquida foi levada para alimentar os animais (suínos).
Portanto, a CEAGESP construiu uma forte estrutura de apoio para seu programa de transformação das sobras orgânicas em ração animal, firmando parcerias com esses órgãos públicos e com a empresa detentora da tecnologia e contando com a presença de técnicos altamente qualificados, com o único objetivo de consolidar esse princípio.
Os primeiros lotes da Ração Líquida foram elaborados utilizando-se inicialmente as sobras de legumes, frutas e verduras,
alimentos que possuem de média a baixa concentração de proteína. Com o passar do tempo, começou-se a inserir peixe (resíduos de filetamento), que apresenta alta concentração de proteína bruta (55%), fator que corrigiu a falta desse elemento na ração. Utilizaram- se também descartes de alimentos industrializados, como sobras de supermercados - bolacha, cereal, geléia, chocolate, macarrão, etc.
Assim, a Ração Líquida foi sendo balanceada de forma a corresponder às necessidades que vinham sendo estabelecidas para cada grupo de animal que surgia. Um dos principais problemas encontrados foi a falta de aminoácidos, principalmente para os animais novos (filhotes). Assim, teve-se que corrigir a falta de diferentes necessidades nutricionais, observando-se, no campo, o resultado prático da alimentação ofertada e a resposta dos animais.
Atualmente, um equipamento pasteurizador para produzir Ração Líquida de pequeno porte (panela com uma hélice movida a motor), para uso em pequena escala, está sendo patenteado. Com ele, um pequeno criador poderá produzir Ração Líquida em quantidades de até 200 litros por batelada, para aproveitar as sobras locais e alimentar seus animais a baixo custo.
Estudos revelam que hoje um criador gasta em média 70% com a aquisição de ração, seu principal custo fixo. O emprego da Ração Líquida consorciada à ração convencional pode permitir abaixar bastante esse custo, dependendo da fonte de sobras disponíveis e de seu balanceamento energético.
Outro fator importante é que, ao ser produzida a Ração Líquida pasteurizada com sobras, estamos inserindo um conceito a mais na lógica da reciclagem, pois se passa a alimentar os animais com aquilo que seria jogado fora e que ainda apresentava boas condições como alimentação alternativa. Com esse conceito em prática, não existe impacto ambiental; gera-se uma nova frente de empregos e pesquisa,
sem necessidade de grandes instalações ou da presença de empresas poluidoras; permite-se aumentar a oferta de grãos aos humanos, pois cessa a competição do alimento entre estes e os animais (por exemplo: o milho que o animal comia pode passar a ser consumido pelo homem). Com isso, a tendência é que ocorra uma queda do valor dos grãos, exatamente pela diminuição da competição, além do barateamento do custo da produção de derivados animais.
Com o término dos testes do Programa Ração Líquida, em fevereiro de 2004, continuou-se separando os alimentos que eram destinados para alimentação animal, tornando-os disponíveis “in natura” para os criadores. Para que isso pudesse ocorrer, a CEAGESP criou uma Norma (NP-OP-038 - Comercialização de Resíduos Orgânicos) que estabelece os procedimentos necessários para que o criador seja um “Parceiro Orgânico".
Optou-se por comercializar essas sobras pelo valor de R$10,00 (US$4.636) a tonelada - preço simbólico de R$0,01 (US$0.0046) o quilo. Como se trata de uma empresa pública, ela tem a obrigação de ter critérios bem definidos. Além da venda, está prevista também a doação, mediante solicitação dos órgãos públicos (INCRA - Instituto Nacional de Reforma Agrária, ITESP, etc.).
Qualquer criador pode cadastrar-se, bastando seguir os procedimentos mínimos, como preencher um formulário específico e assiná-lo em conjunto com um técnico (veterinário ou zootécnico) que fará o acompanhamento nutricional do animal. Realizado o cadastramento, o interessado fornece BAGs à CEAGESP no dobro do uso estimado. Esses BAGs funcionarão como recipiente de troca, não gerando produção de embalagens descartadas.
. Desde o início do projeto, em março de 2003, cerca de 2.300 toneladas já foram destinadas para a produção de ração animal. Atualmente, são fornecidas, em média, cerca de 60 toneladas por
mês. Nesse sentido, fomentou-se uma política que se tem mostrado correta, pois o objetivo principal é consolidar a reciclagem em todas as possibilidades aplicáveis, criando novos nichos de mercado.