Nesta última subcategoria de análise, discutem-se os aspectos construtivos encarados pelos entrevistados diante do serviço/programa/projeto que esteve/está inserido. Alguns participantes do MNMMR e do CnaR ressaltaram questões atreladas ao crescimento profissional:
Então, para mim, foi muito importante. O melhor trabalho que eu já fiz, que eu me meti, foi o Movimento menino de rua! Porque eu comecei, dentro de mim, a ver a questão social. Isso, dentro da instituição não vê, é balela! [...] Mas, realmente, eu vou dizer a você, eu aprendi mais no Movimento do que na faculdade! Faculdade bota a gente lá em cima e esquece que aqui em baixo tem o lixo, né? A sociedade vira lixo! Então, assim, foi fantástico para nós! (MNMMR2)
Mas o Movimento teve uma dimensão que era incalculável, sabe? De repente, eu – que era da periferia de Natal –, de repente, num encontro nacional, eu estava com um índio lá do Pataxó, eu estava com um menino de rua lá do Rio Grande do Sul, sabe? Estava, de repente, com um pessoal do bumba – bumba meu boi – ou no tambor de crioulo lá do Maranhão. É
um mundo! De repente, a vista clareia! E, quando isso acontece, acontece de forma dinâmica. Não acontece de forma que você vai sentir essa diferença e o peso de uma ruptura ou de um clarão na sua vida! Não! Vai acontecer de forma dinâmica! É uma construção, né? E aí, quando você se percebe, você é grande dentro do Movimento, que você não fazia noção disso, sabe? Essa dimensão toda! (MNMMR1)
Porque a gente tinha muito conhecimento na causa da criança e do adolescente. A gente tinha estrada, né? E tinha as pessoas que se formaram técnicos, que se transformaram pessoas que passaram a ser consultadas na área de crianças e adolescentes. (MNMMR1)
Tenho me encontrado a cada dia nesse serviço. Apesar das adversidades, me sinto mais forte e resistente na luta! (CnaR1)
A partir das falas expostas acima, observa-se o envolvimento dos profissionais com o trabalho e, principalmente, com o público atendido; trabalho este responsável por desenvolver amadurecimentos tanto no sentido profissional quanto pessoal. Esse crescimento reflete o forte engajamento desses profissionais na luta por melhores condições de vida para a população infanto-juvenil em situação de risco e vulnerabilidade social. O encontro com a realidade concreta desse público fornece ricos elementos para se problematizar as questões estruturantes do modo de produção capitalista e as sequelas da “Questão Social”, bem como para se pensar em estratégias de luta e reivindicação por melhores condições de existência.
Além disso, os participantes do MNMMR, do Programa Canteiros e do SEAS revelaram consequências de suas importantes atuações para crianças e adolescentes em situação de rua, bem como para suas famílias:
Na verdade, o Movimento deu um avanço muito grande! Os meninos que foram meninos passaram a ser educador depois. Na verdade, eu acho que o Movimento deu um avanço muito grande na saída dos meninos de rua. (MNMMR2)
Mas eu acho que o Movimento foi umas das melhores instituições que o Brasil já teve e que mudou muita coisa nas famílias; porque o menino consciente muda o contexto de sua família
também, né? Eu sempre disse: “Conscientize os meninos que em casa eles vão provocar!”. (MNMMR2)
Olha! Durante o programa, alguns usuários realmente deixaram a vida na rua. Conseguimos, inclusive, alguns empregos para alguns deles. Então, eu acho, sim, que houve uma evolução, sabe? Eu acho que, com as ferramentas que a gente tinha na época, a gente conseguiu fazer alguma coisa! [...] Eu acho que foi muito válido, sim! Precisava naquela época e não pode acabar. Mas eu acho que eu vi uma evolução muito grande – mesmo com o material escasso que a gente tinha; eu acho que foi, sim, entre “trancos e barrancos”, foi bem válido! (Canteiros2)
Eu falo muito para as famílias sobre os serviços da rede. E quando a gente tem o retorno de que o usuário teve acesso a determinado serviço, é muito bom, é muito gratificante! A gente percebe que nosso trabalho está sendo desenvolvido! Muitas vezes, eles não têm conhecimento sobre a rede, porque não têm orientação e nem formação; e a gente consegue chegar até ele. Abordagem Social consegue fazer essa ponte entre os serviços e o usuário. (SEAS1)
Santana et al. (2010) apontam que avaliar a efetividade de instituições de atendimento é bastante complexo, não podendo sintetizar essa avaliação de acordo com o número de crianças e adolescentes em situação de rua que foram “salvas”. Para elas, a existência desses serviços, por si só, bem como o ativismo dos profissionais que atuam nessas instituições, garantem uma luta pela proteção de crianças e adolescentes em situação de rua. Assim, a ausência desses serviços poderia resultar em consequências extremamente mais graves para essa população. Os apontamentos das autoras são interessantes; no entanto, para além da existência de muitos profissionais engajados, há que se refletir também sobre instituições que atuam de maneira a violar os direitos desse público. Essas atuações não são encontradas em todos os tipos de serviços/programas/projetos, mas ainda existem e merecem ser problematizadas. Ainda, há a necessidade de essas instituições estarem em constante reflexão crítica sobre suas atuações e
pensarem práticas não engessadas, baseadas na ESR, para que a superação do estar na rua não seja algo tão distante de se garantir.
Um aspecto identificado na fala de CnaR1 foi que, apesar do preconceito que se percebe entre alguns profissionais da saúde, as equipes do CnaR têm lutado para garantir os direitos à população em situação de rua e têm conseguido êxito na mediação com alguns médicos, abrindo portas para o atendimento dessa população tão vulnerabilizada:
Porque eu acho que quando a gente entra no serviço, a gente tem que vestir a camisa; então, a gente luta mesmo! A gente vai, questiona; a gente tenta dialogar com os médicos, com a equipe, e aí, alguns se sensibilizam com a situação. (CnaR1)
Essa questão da sensibilização das equipes de saúde no que concerne ao cuidado com a população em situação de rua é trazido no documento do MS (2012) como uma das ações que devem ser efetuadas pelo CnaR. Assim, objetiva-se difundir os conhecimentos sobre as especificidades desse público, bem como sua realidade, desmistificando certos preconceitos. Como já ressaltado na subcategoria de análise sobre as dificuldades do serviço, essa questão ainda é um impasse para as equipes do CnaR, embora a fala acima demonstre que os avanços iniciais têm acontecido.
Por fim, cabe mencionar que MNMMR1 ressalta a enorme importância que o Movimento teve na defesa de direitos de crianças e adolescentes em situação de rua:
Meus pares do Movimento vão poder dizer isso; talvez de outra forma, mas vão dizer a mesma coisa. Vão dizer: “Esse Movimento estava à frente do tempo, tinha uma dimensão imensurável, incalculável, e que, se hoje existisse, talvez ainda estivesse lá no Congresso! Não fazendo lobby, mas denunciando! (MNMMR1)
Santana et al. (2010) discutem que muitos profissionais que trabalham nessa área possuem uma trajetória importante na defesa dos direitos de crianças e adolescentes em situação de risco e vulnerabilidade social. As autoras ainda citam que se trata de um engajamento com a problemática que é essencial para que haja continuidade de um trabalho com alto índice de
frustração, por diversos motivos. O MNMMR, em especial, tem um peso importante nesse processo diante de sua histórica participação na luta pela CF e pelo ECA, bem como pelo trabalho de mobilização política de crianças e adolescentes e demais atividades, já debatidos neste trabalho.