Consoante a esse sistema de crueldade, o livro de Michel Foucault, Vigiar e Punir (2004), ao se dedicar à discussão sobre o nascimento da prisão e os mecanismos de poder, punição e vigilância que regulariam o comportamento da sociedade, identifica o processo cruel de codificação dos corpos como rituais de suplício. Os aterrorizantes suplícios, castigos e penas efetuadas nos corpos dos criminosos, em modo público, perduraram até os princípios do século XVIII, marcando tanto os corpos dos condenados quanto os corpos do olho coletivo:
No suplício corporal, o terror era o suporte do exemplo: medo físico, pavor coletivo, imagens que devem ser gravadas na memória dos espectadores, como a marca na face ou no ombro do condenado. O suporte do exemplo, agora, é a lição, o discurso, o sinal decifrável, a encenação e a exposição da moralidade pública. (FOUCAULT, 2004, p. 87).
Os estudos do autor comtemplam vários exemplos de mecanismos de condicionamento e punição como formas de controle afim de que fossem preservadas as forças de produção dos trabalhos. Ao ilustrar o rígido sistema penal das primeiras formações sociais, Foucault problematiza as relações de poder atravessadas nas várias instâncias da sociedade manifestadas a partir das demonstrações públicas de poder sobre a vida e a morte dos indivíduos supostamente infratores; de acordo com o filósofo: “execução pública mais uma manifestação de força do que uma obra de justiça; ou antes, é a justiça como força física, material e temível do soberano que é exibida. A cerimônia do suplício coloca em plena luz a relação de força que dá poder à lei” (FOUCAULT, 2004, p. 42).
As execuções efetivadas eram atrozes, geralmente, de acordo com os crimes cometidos. No entanto, as relações de poder poderiam determinar a tipificação da
condenação, dependendo do nível do indivíduo na sociedade: a decapitação, mais rápida e menos infame, era utilizada nos mais nobres.
[…] uns podem ser condenados à forca, outros a ter a mão ou a língua cortada ou furada e ser enforcados em seguida; outros, por crimes mais graves, a ser arrebentados vivos e expirar na roda depois de ter os membros arrebentados; outros a ser arrebentados até a morte natural, outros a ser estrangulados e em seguida arrebentados, outros a ser queimados vivos, outros a ser queimados depois de estrangulados; outros a ter a língua cortada ou furada, e em seguida queimados vivos; outros a ser puxados por quatro cavalos, outros a ter a cabeça cortada, outros enfim a ter a cabeça quebrada. (FOUCAULT, 2004, p. 45).
As cenas do martírio dos criminosos eram um espetáculo atroz e configuravam o grau absoluto dos agentes de poder sobre o corpo social. Assim, essas mais variadas sessões de tortura eram maquinadas a fim de legitimar, por esses meios, o poderio do sistema dominante e seu controle sobre os indivíduos. As primeiras formações sociais foram adaptando as técnicas de carnificina pública, utilizando-se, inicialmente, dos mais brutais e agonizantes mecanismos de tortura; a ratificação desse poder, no entanto, não se efetivava apenas a partir do espetáculo de horrores, mas cabia ao próprio condenado autenticar a validade do sistema penal:
[Damiens fora condenado, a 2 de março de 1757], a pedir perdão publicamente diante da porta principal da Igreja de Paris [aonde devia ser] levado e acompanhado numa carroça, nu, de camisola, carregando uma tocha de cera acesa de duas libras; [em seguida], na dita carroça, na praça de Greve, e sobre um patíbulo que aí será erguido, atenazado nos mamilos, braços, coxas e barrigas das pernas, sua mão direita segurando a faca com que cometeu o dito parricídio, queimada com fogo de enxofre, e às partes em que será atenazado se aplicarão chumbo derretido, óleo fervente, piche em fogo, cera e enxofre derretidos conjuntamente, e a seguir seu corpo será puxado e desmembrado por quatro cavalos e seus membros e corpo consumidos ao fogo, reduzidos a cinzas, e suas cinzas lançadas ao vento. (1) Finalmente foi esquartejado [relata a Gazette d'Amsterdam]. (2) Essa última operação foi muito longa, porque os cavalos utilizados não estavam afeitos à tração; de modo que, em vez de quatro, foi preciso colocar seis; e como isso não bastasse, foi necessário, para desmembrar as coxas do infeliz, cortar-lhe os nervos e retalhar- lhe as juntas… Afirma-se que, embora ele sempre tivesse sido um grande praguejador, nenhuma blasfêmia lhe escapou dos lábios; apenas as dores excessivas faziam-no dar gritos horríveis, e muitas vezes repetia: ‘Meu Deus, tende piedade de mim; Jesus, socorrei-me’. Os espectadores ficaram todos edificados com a solicitude do cura de Saint-Paul que, a despeito de sua idade avançada, não perdia nenhum momento para consolar o paciente. (FOUCAULT, 2004, p. 38).
Michael Foucault (2004, p. 38), sinaliza a importância do último discurso do supliciado, como também suas falas nos momentos mais agonizantes: “Um suplício bem- sucedido justifica a justiça, na medida em que publica a verdade do crime no próprio corpo do supliciado”. O reconhecimento oral pelas suas culpas ou o arrependimento nas piedosas
orações antecedendo a morte evidenciam para o público o efeito moralizante de que o crime não compensa: “Pela confissão, o próprio acusado toma lugar no ritual de produção de verdade penal. Como já dizia o direito medieval, a confissão torna a coisa notória e manifesta” (FOUCAULT, 2004, p. 34). O último discurso do condenado, coagido brutalmente ou não, pelos agentes de poder, educava o povo e viabilizava o retorno da estabilidade da organização social:
Tal equívoco aparece claramente no que se poderia chamar ‘discurso de cadafalso’. O rito da execução previa que o próprio condenado proclamasse sua culpa reconhecendo-a publicamente de viva voz, pelo cartaz que levava, e também pelas declarações que sem dúvida era obrigado a fazer. No momento da execução parece que lhe deixavam além disso tomar a palavra, não para clamar sua inocência, mas para atestar seu crime e a justiça de sua condenação. Que crédito dar ao que se conta, por exemplo, da morte de Marion Lê Goff, famosa chefe de quadrilha na Bretanha em meados do século XVIII? Ela teria gritado do alto do cadafalso: Pai e mãe que me ouvem, guardai e ensinai bem vossos filhos; fui em minha infância mentirosa e preguiçosa; comecei roubando uma faquinha de seis réis… depois assaltei mascates, mercadores de gado; enfim comandei uma quadrilha de ladrões e por isso estou aqui. Dizei isso a vossos filhos e que ao menos lhes sirva de exemplo. (FOUCAULT, 2004, p. 39).
A cena visualizada do “discurso do cadafalso”, ao ditar um exemplo a não ser seguido, assim como a tragédia aristotélica, evoca terror e suscita o temor no público em relação ao destino do penalizado, além de sensibilizar para que se restaure o equilíbrio da ordem na sociedade. O comprometimento do sentenciado torna seu corpo essencial ao mecanismo penal; presenciar seus sofrimentos oralizados, gritos e gemidos, confere uma visão panorâmica da existência humana pecaminosa, em que passado terrestre e futuro eterno (céu ou inferno) se evidenciam para o expectador da morte. De acordo com os murmúrios do supliciado, poderia inferir-se que ele mereceu a salvação ou a danação eterna:
Como qualquer agonia, a que se desenrola no cadafalso diz uma certa verdade: mas com mais intensidade, na medida em que é pressionada pela dor; com mais rigor, pois está exatamente no ponto de junção do julgamento dos homens com o de Deus; com mais ostentação, pois se desenrola em público. O sofrimento do suplício prolonga o da tortura preparatória; nesta, entretanto, o jogo não estava feito e a vida podia ser salva; agora a morte é certa, trata-se de salvar a alma. O jogo eterno já começou; o suplício antecipa as penas do além; mostra o que são elas; ele é o teatro do inferno; os gritos do condenado, sua revolta, suas blasfêmias já significam seu destino irremediável. Mas as dores deste mundo podem valer também como penitência para aliviar os castigos do além; um martírio desses, se é suportado com resignação, Deus não deixará de levar em conta. A crueldade da punição terrestre é considerada como dedução da pena futura; nela se esboça a promessa do perdão. […] Daí essa extraordinária curiosidade que leva os espectadores a se comprimirem em torno do cadafalso e do sofrimento que este
exibe; leem-se aí o crime e a inocência, o passado e o futuro, este mundo e o eterno. Momento de verdade que todos os espectadores interrogam: cada palavra, cada grito, a duração da agonia, o corpo que resiste, a vida que não quer ser arrancada, tudo isso vale por um sinal. (FOUCAULT, 2004, p. 40, grifo nosso).
O teatro do inferno, na produção teatral de Clarice, arquiteta-se de maneira a oferecer ao olho coletivo o espetáculo de prever o destino eterno da condenada, mas o povo, que anseia em alimentar o desejo de vislumbrar o jogo de relações entre o céu e o inferno, se frustra. Não há o último discurso da condenada, muito menos os gemidos por clemência ou gritos de blasfêmia. Em contrapartida, o povo clamava por sua súplica, como se pode observar no seguinte excerto: “POVO: Pois então hurra, hurra e hurra. […] POVO: A que sorri esta mulher?” (LISPECTOR, 2005, p. 123-125); de modo completamente inverso ao esperado, a condenada sorri.
A condenada clariceana, como protagonista desse teatro do inferno, não cumpre seu papel; ao contrário, neutraliza o direito de posse sobre o seu modo de morrer e veta ao olho coletivo a apreciação do espetáculo da agonia de sua morte e a consequente cobiça sobre o destino de sua alma. A linguagem do silêncio, nesse sentido, como veremos a seguir, burla o sistema penal e patriarcal daquela sociedade, desestabiliza o olho coletivo e corrompe, em certa medida, a perpetuação dos sistemas poder sobre a vida, morte e a eternidade dos indivíduos.