2. L’EXPANSION SCOLAIRE UNE NÉCESSITÉ À COURT TERME
2.2. Le déclassement en question
2.2.1. Actualiser la mesure normative via la mesure subjective
Outra inferência possível, com base nas usuárias das referidas roupas íntimas, expôs que, enquanto os protossutiãs e os espartilhos atuavam como mantedores de um modelo de
• Apodesme • Mastodeton • Fascia • Mamilare • Strophium PROTOS- SUTIÃS (Antiguidade) • Surcot • Corset • Vasquim • Le Corps Piqué • Gourgandine • La Ninom
ESPARTILHOS (Idade Média - séc. XIX)
• Corpete para seios • Porta-seios • Sutiãs de moda • Sutiãs esportivos • Sutiãs específicos - lactação, pós- operatório SUTIÃS (Séc. XX-XXI)
status quo, o sutiã representa uma mudança de paradigma. Portanto, o papel social exercido por esta veste coloca-a numa posição além da intimidade.
Quer dizer, os protossutiãs, durante a Antiguidade, eram usados apenas pela nobreza, como sinal de status. Nesse período, as escravas não cobriam as mamas. Similarmente, os espartilhos, da Idade Média ao século XIX, também foram adotados, principalmente, pelas mulheres da nobreza e da burguesia, que não exerciam atividades profissionais e dispunham de serviçais para ajudá-las nas tarefas de vestir e despir.
Ainda na era dos espartilhos, as operárias e camponesas usavam uma peça semelhante — colete —, numa versão mais simples, com amarrações na frente, dada a mobilidade
necessária para as tarefas de vestir e despir-se sozinhas, assim como a execução das atividades laborais.
No início do século XX, as novas demandas sociais e do mundo do trabalho, sobretudo durante a Primeira Guerra, contribuíram para a transição do espartilho para o sutiã. Mais que isso, os avanços tecnológicos ocorridos para atender as necessidades da Segunda Guerra também colaboraram para o desenvolvimento tecnológico na indústria têxtil e para uma rápida democratização do sutiã, se comparada com o período de uso dos espartilhos.
Em menos de meio século, o sutiã se popularizou e passou a ser usado por mulheres pertencentes a todas as categorias sociais. Mesmo que, individualmente, usar um sutiã seja algo facultativo e as variações entre peça de luxo e peça popular coloquem suas usuárias em diferentes nichos de mercado, seu uso se tornou quase que indispensável, em ambientes públicos e sociais, sobretudo naqueles destinados ao trabalho produtivo.
Aliada às demandas sociais, as características anatômicas individuais de cada mulher são um diferenciador das necessidades específicas requeridas do projeto dos sutiãs, nos diferentes contextos de uso. Desse modo, o próximo capítulo apresenta o suporte teórico que subsidiou a investigação da interação entre as características projetuais dos sutiãs e os fatores humanos, no contexto de trabalho das costureiras, locus dessa pesquisa.
2 CAPÍTULO:
VESTIBILIDADE DO SUTIÃ: UMA TRANSPOSIÇÃO TEÓRICA
Este capítulo apresenta breve revisão de literatura sobre a usabilidade e sua transposição para vestibilidade, na qual também foi incorporada a descrição do estado da arte de estudos anteriores sobre o uso do sutiã. Uma sucinta revisão sobre percepção humana somestésica também compõe este capítulo, dada a sua importância para o entendimento da percepção das costureiras durante o uso e das especialistas na avaliação heurística. Também apresenta a termografia, enquanto técnica auxiliar na avaliação parcial da vestibilidade.
Todavia, tratando-se da vestibilidade do sutiã, e parafraseando Saltzman (2009), a mama é o “ponto de partida” e seu “ponto culminante”.
2.1 A MAMA COMO PONTO DE PARTIDA
Dado o contato direto com o corpo, pode-se comungar da opinião de que o sutiã atua como uma segunda pele. Põe-se no intermédio entre a mama e a roupa externa. Nesta perspectiva, segundo Saltzman (2009), o corpo e a vestimenta estabelecem uma relação dialética, ambos sendo modificados constantemente. De modo que o corpo contextualiza a vestimenta e a roupa contextualiza o corpo.
Por meio dessa interação, ainda de acordo com Saltzman (2009, p.13), o design do vestuário provoca um redesenho do corpo. Simultaneamente, a configuração da roupa afeta a qualidade e o modo de vida do usuário, suas sensações e percepções. Posto que “o projeto começa e termina no corpo. O corpo é o seu ponto de partida e é seu ponto culminante, já que é precisamente no corpo do usuário onde o projeto existe como tal e ganha vida”13.
Quer dizer, na reciprocidade entre o corpo da usuária e o sutiã é estabelecida uma relação dialética — com ambos sendo modificados durante o uso. Assim, ao projetar um
sutiã, a mama deve ser o ponto de partida e de maior relevância. De maneira que o design do sutiã esteja para a mama que veste, segundo a necessidade de quem usa.
Anatomicamente, a mama está localizada na região peitoral do corpo humano. É constituída de glândulas mamárias, pele e tecido conjuntivo. As glândulas mamárias são glândulas sudoríparas modificadas na fáscia superficial anteriormente aos músculos peitorais e à parede torácica anterior. Composta por uma série de ductos lactíferos que se abrem de forma independente para a papila mamária, que é cercada pela aréola da mama (DRAKE, VOGL e MITCHELL, 2005).
Os ductos dos lóbulos das glândulas mamárias estão circundados pelo estroma de tecido conjuntivo. Em determinadas regiões, ele se condensa para formar ligamentos bem definidos — os ligamentos suspensores da mama ou ligamentos de Cooper —, que são responsáveis pela sustentação da mama e conectam a fáscia pré-peitoral à pele (DRAKE, VOGL e MITCHELL, 2005) (Figura 14).
Figura 14: Estrutura da mama
O suporte natural da mama, exercido internamente pelos Ligamentos de Cooper e externamente pela pele, são limitados — o que leva, em muitos casos, à necessidade de sustentação externa. Papel desempenhado pelo sutiã.
Essa necessidade de suporte externo, segundo Zhou (2011), cresce com o aumento da idade e do peso e também quando há uma excessiva movimentação da mama durante
atividades físicas de alto impacto, a exemplo da corrida. Neste caso, a força produzida na mama resulta no estiramento dos Ligamentos de Cooper, no aumento da flacidez mamária, na sensação de desconforto, dor e, por vezes, constrangimentos.
Outras mudanças também ocorrem. Por exemplo, na pesquisa realizada por Brown et al. (1999) com 60 mulheres entre 15 e 88 anos, foi encontrado que, quando o peso da mulher aumenta, o diâmetro da aréola também aumenta. Com o aumento da idade, o diâmetro da aréola diminui e ocorre um processo de migração inferior do mamilo e dos componentes verticais da mama (N, L, B e IC), exceto a extremidade média do vinco inframamário (M), produzindo ptoses14 laterais. (Figura 15) Estas mudanças foram associadas ao efeito da gravidade na idade da mama, com perda da elasticidade cutânea e atrofia15 glandular.
Figura 15: Componentes verticais da mama.
Fonte: Brown et al. (1999)
Além disso, o estudo realizado por Hadi (2000), durante o tratamento de 200 mulheres com mastalgia, relacionada com a movimentação da mama e alteração dos ciclos hormonais, indicou o uso do sutiã como o melhor tratamento da dor em vez do uso de medicamentos. No entanto, essa pesquisa não fez nenhuma referência às características dos sutiãs usados pelas pacientes.
Ao considerar os fatores tangíveis, como a dor e outros no domínio intangíveis, a exemplo dos fenômenos sociais e da moda, mencionados no capítulo anterior, o uso do sutiã se tornou indispensável na contemporaneidade, sobretudo no contexto laboral.
Entretanto, a interação entre a diversidade anatômica do corpo feminino e os diferentes sutiãs disponíveis no mercado, em grande proporção, tem sido insatisfatória, conforme apontam os estudos realizados por Bowles, Steele e Munro (2008); Brown et al.
14 A ptose ou flacidez mamária tem início na puberdade e continua por toda a vida. A mama sem ptose é
denominada de mama limítrofe (BOZOLA, 2014, p.109). “A ptose mamária, em seus diferentes graus, é definida por sua relação anatômica com o sulco inframamário.” Pode ser do tipo: 1) Ptose grau I (leve) – mamilo a 1 cm do sulco inframamário e acima do polo inferior da mama; 2) Ptose grau II (moderada) – mamilo de 1–3 cm abaixo do sulco inframamário e acima do polo inferior da mama; 3) Ptose de grau III (grave) – o mamilo com mais de 3 cm abaixo do sulco inframamário e localizado abaixo do contorno inferior da mama; 4) Ptose glandular ou pseudoptose – o mamilo está acima do sulco inframamário, mas a maior parte do tecido mamário está abaixo (HIGDON e GROTTING, 2015).
(2014); Greenbaum et al. (2003); Mcghee e Steele (2006); Pechter (1998); Risius et al. (2014); Zheng, Yu, Fan (2007), descritos adiante.
Diante do exposto, aliado ao interesse de aprofundar o entendimento sobre a interação entre as características dos sutiãs e as demandas das usuárias no contexto laboral, o conceito de usabilidade e de seus componentes foram transpostos para a vestibilidade. Trata-se de uma aproximação teórica e metodológica para determinar medidas de vestibilidade e heurísticas próprias, capazes de contribuir para o diagnóstico de problemas durante o uso do sutiã.
Pressupõe-se que, uma vez sendo diagnosticados os problemas de vestibilidade do sutiã, estes poderão servir de parâmetros para novas soluções projetuais. Do mesmo modo, os resultados positivos encontrados poderão ser reforçados nos projetos de sutiãs para contextos de trabalhos específicos, em moldes similares às diagnoses provindas das avaliações de usabilidade.
2.2 USABILIDADE: FUNDAMENTOS E APLICAÇÕES
A abordagem ergonômica nesta pesquisa partiu do conceito clássico da ergonomia, discutido por Iida (2005), de adaptação do trabalho ao homem, considerando sua posterior ampliação para o estudo da interação humana com os diferentes sistemas e artefatos.
Neste sentido, segundo Martins e Martins (2012), o conhecimento gerado pela ergonomia e por suas diferentes ramificações pode colaborar com a instrumentalização do projeto do vestuário por meio da modelagem, da combinação de materiais e de técnicas de montagem, enquanto requisitos para uma boa vestibilidade em condições estáticas e dinâmicas.
Nesta perspectiva, conforme ressalta Moraes (2008), a ergonomia se apresenta como inseparável do processo projetual e por isso deve também considerar os significados
simbólicos dos produtos para uma melhor usabilidade.
De acordo com a ABNT NBR ISO 9241-11 (2011, p.1), “projetar para a usabilidade contribuirá positivamente para os objetivos ergonômicos, como a redução de possíveis efeitos adversos de uso sobre a saúde, a segurança e o desempenho humano”.
A usabilidade nasceu dos estudos sobre a interação humano–computador. Seu objetivo inicial era tornar a interface simples, intuitiva e fácil de usar. E assim proporcionar aos
usuários a capacidade de atingir seus objetivos com menos esforço, em menos tempo e com menos erros (CYBIS, BETIOL e FAUST, 2010).
Neste campo, segundo Cybis, Betiol e Faust (2010), os primeiros estudos de
usabilidade tiveram por base as teorias sobre cognição humana, com o objetivo de produzir conhecimento sobre os processos cognitivos realizados pelas pessoas durante interação com computadores, tais como percepção, memória, atenção e vigilância, aprendizado, raciocínio e resolução de problemas.
Entretanto, as teorias sobre cognição humana não se tornaram tão populares entre os projetistas quanto as recomendações ergonômicas aplicadas aos projetos de interfaces. Com base nesse tipo de recomendações, surgiram iniciativas de ordem metodológica para o desenvolvimento da engenharia da usabilidade — com um ciclo evolutivo, interativo e baseado no envolvimento do usuário (CYBIS, BETIOL e FAUST, 2010).
Ainda segundo os autores supracitados, o resultado de diversos estudos de ordem metodológica sobre a interação humano-computador gerou uma configuração de base, a partir da qual uma interface pode favorecer ou não o estabelecimento da usabilidade. Essa
configuração é feita respeitando critérios, princípios ou heurísticas de usabilidade propostas por diferentes autores e instituições nas últimas décadas.
Destacam-se como pioneiras nesse processo as dez qualidades de base para qualquer interface, propostas por Nielsen (1994) no livro Usability Engineering, denominadas por este autor de Heurísticas de Usabilidade. Desde então, as Heurísticas de Nielsen têm sido
amplamente aplicadas em diversos estudos sobre a interação humano–computador,
contemplando diferentes interfaces, tarefas, web e dispositivos. O próprio Nielsen continua aprofundando suas pesquisas nesta área e apresentando novas Diretrizes, a exemplo de suas publicações mais recentes — Usabilidae na Web: projetanto websites com qualidade (2007) e Mobile Usability (2013).
Outros pesquisadores ampliaram o conceito de usabilidade para aplicação em estudos sobre produtos e serviços. Dentre estes, destaca-se o trabalho desenvolvido por Jordan, que publicou o livro An introduction to usability em 1998, no qual apresentou os Princípios do Design usável (Heurísticas) e o livro Designing Pleasure Products em 2000. Ambos os livros com foco nos fatores humanos e com larga aplicação em pesquisas posteriores por diferentes pesquisadores. Por exemplo, pesquisas contemporâneas sobre a usabilidade de produtos de
consumo também tiveram nas heurísticas de Jordan um dos principais sustentáculos
metodológicos, a exemplo da tese de Falcão (2014), intitulada A usabilidade e as tecnologias emergentes no desenvolvimento de produtos de consumo: uma abordagem em ambientes virtuais e neurociência.
Segundo Falcão e Soares (2013), a importância da usabilidade no design de produto e sua aplicação como estratégia de mercado tiveram início na década de 1990. Desde então, o mercado tem aplicado o conhecimento gerado pela usabilidade na concepção de produtos de uso fácil, compreensível, acessível e confortável.
Entretanto, a usabilidade ainda se mantém fortemente ligada aos princípios da interação humano–computador, indicando uma necessidade de formalização do conceito quando se trata de produtos. A nosso ver, este é o caso do produto vestuário ou objeto de vestir, conforme nomeado por Fiorini (2008), que, por sua natureza envoltória ao corpo, apresenta peculiaridades de uso, diferentemente da maioria dos produtos estudados pela usabilidade.
Apesar do diálogo entre vestuário e usabilidade ter sido iniciado por pesquisas anteriores — algumas, inclusive, apoiadas nos estudos de Jordan (1998; 2000) —, é preciso aprofundar esse diálogo, conceitual e metodologicamente. Na atualidade, recomendações presentes na ABNT NBR ISO 924116, parte 11 e parte 210 (2011), podem contribuir para esse aprofundamento. Contudo, faz-se mister compreender o conceito de usabilidade, de seus componentes e de algumas heurísticas existentes.
2.2.1 Conceito de usabilidade
O termo usabilidade tem sido comumente utilizado para designar a facilidade no uso. Para alguns autores (CYBIS et al. 2010; JORDAN, 2000), essa seria uma definição informal e parcial. Porém, conforme afirmam Cybis, Betiol e Faust (2010), apesar de parcial, a facilidade de usar um produto faz com que o usuário se sinta confiante e satisfeito. Por isso, “facilidade de usar” por si só não define usabilidade, mas contribui positivamente e de forma relevante.
Outro termo utilizado no âmbito humano–computador é o “uso amigável”, que foi posteriormente denominado de CHI (computer-human interaction), HCI (human-computer
16 ABNT NBR ISO 9241 (2011) é a correspondente nacional da ISO 9241 (1998).
interaction), UCD (user-centered design), MMI (man-machine interface), HMI (human- machine interface), OMI (operator-machine interface), UID (user interface design), HF (Human factors) (NIELSEN, 1994).
Além dessa relações, estudos científicos ampliaram e formalizaram definições, aproximando-as das áreas afins de estudo dos pesquisadores, a exemplo de Nielsen (1994), que apresentou a usabilidade como parte do sistema de aceitabilidade. Para ele, a usabilidade é um meio de verificar se o sistema é bom o suficiente para satisfazer todas as necessidades e requerimentos dos usuários e outras potenciais partes interessadas, tais como clientes e gerentes de usuários.
A aceitabilidade trata da aceitação social e prática de um software. A primeira é mais subjetiva e atua no campo ideológico; é também a primeira categoria — isso quer dizer que, se o sistema é socialmente aceitável, deve ser analisada sua aceitabilidade prática. A
aceitabilidade prática inclui as categorias custo, suporte, compatibilidade com sistemas existentes, confiabilidade, utilidade, dentre outros (NIELSEN, 1994).
A dimensão Utilidade verifica se o sistema pode ser usado para alcançar algum objetivo desejado. Subdivide-se em duas categorias: utilidade e usabilidade. Utilidade aponta se a funcionalidade do sistema pode fazer o que é necessário. Por exemplo, softwares
educacionais têm alta utilidade se estudantes apreendem usando-os, e o produto de entretenimento tem alta utilidade se for divertido (NIELSEN, 1994).
De acordo com Nielsen (1994), a usabilidade é a questão de quão bem o usuário pode usar a funcionalidade de um sistema. Trata de facilidade de aprendizagem, eficiência para o uso, facilidade de lembrar, poucos erros, subjetiva agradabilidade.
De acordo com Cybis, Betiol e Faust (2010, p.16), “a usabilidade é a qualidade que caracteriza o uso dos programas e aplicações”. Qualidade que não é intrínseca de um sistema, mas que depende de um acordo estabelecido entre as características de sua interface e as características de seus usuários ao buscarem determinados objetivos em uma situação de uso específica.
Jordan (1998), ao abordar a usabilidade de produtos, com foco nos fatores humanos, trabalhou o conceito formal de usabilidade determinado pela ISO 9241-11 (1998), embora esta norma também estivesse focada no projeto e na avaliação da interação humano– computador.
Segundo a ABNT NBR ISO 9241-1117 (2011, p.2), a usabilidade é a “medida na qual um produto pode ser usado por usuários específicos, para alcançar objetivos específicos com eficácia, eficiência e satisfação, em um contexto de uso particular”.
Mais tarde, Jordan (2000) afirmou que, no âmbito dos fatores humanos, a definição de usabilidade da ISO 9241-1 1(1998) apresentava uma contribuição limitada. Com base nisto, ele propôs uma aproximação teórica para os fatores humanos, baseada no prazer, alegando que, para atingir as necessidades dos usuários, era preciso ir além da usabilidade. Também ressaltou a necessidade de medidas para avaliar a prazerabilidade durante o uso de produtos.
A prazerabilidade apresentada por Jordan (2000) constitui-se numa crítica ao modo pragmático com o qual ergonomistas e profissionais dos fatores humanos, na época, tratavam a usabilidade. Quer dizer, com um forte direcionamento ao desempenho do produto e tendo relegado a um segundo plano as questões emocionais associadas à interação entre usuários e produtos, durante o uso. Esse foco no desempenho resultou em produtos confortáveis, mas sem atributos esteticamente atrativos. Exemplo disto foram os primeiros sapatos da marca Usaflex, confortáveis, mas considerados esteticamente desagradáveis.
Entretanto, nos últimos anos, aspectos relacionados à emoção têm sido considerados em estudos sobre usabilidade de softwares e de produtos. É o caso de pesquisas realizadas por Roncoletta, que, em 2009, apontou as necessidades ergonômicas no uso de sapatos por
mulheres portadoras de restrições físicas, relacionando-as ao prazer e ao conforto, e posterior apresentação de uma Lista de Verificação com indicações de itens que precisam ser
observados durante aquisição de calçados por este grupo de usuárias.
Poder, sedução e feminilidade são, segundo Roncoletta (2012), os principais valores simbólicos atribuídos ao desejo de sapatos pelas mulheres com deficiência física. Por isso, uma metodologia de design de sapatos para esse grupo de mulheres, no âmbito da ergonomia, deve considerar harmonia estética, equilíbrio e priorizar conceitos de sensualidade e
feminilidade.
Recentemente, Roncoletta (2015) propôs a Metodologia MiPiacce para medir os prazeres fornecidos pelo design de calçados direcionado às mulheres com menor dismetria nos membros inferiores. Esta autora também ressaltou que a inconsistência no grau de prazer fornecido pelo mesmo estilo de sapato contribui para tornar perceptível a importância de
conduzir uma análise holística para detectar os pontos fortes e fracos de cada design de sapato direcionado às mulheres com restrições físicas.
Consequentemente, as críticas construídas em torno do pragmatismo anterior da usabilidade no âmbito dos fatores humanos, a exemplo daquele construída por Jordan (2000), contribuíram para ampliação do conceito de usabilidade e para o alargamento de sua
aplicação, conforme posto pela norma ABNT NBR ISO 9241-210 (2010)18.
A referida norma, centrada no ser humano, visa contribuir para o aumento da eficácia, da eficiência e para o aprimoramento da satisfação do usuário, da acessibilidade e da
sustentabilidade. Propõe-se, igualmente, a neutralizar possíveis efeitos adversos do uso do produto na saúde, na segurança e no desempenho.
As mudanças na interpretação e aplicação do conceito de usabilidade podem ser exemplificadas na síntese apresentada no Quadro 4, antes consideradas como parte do sistema de aceitabilidade, segundo Nielsen (1994). Posteriormente articulada com outros conceitos, a exemplo da prazerabilidade de Jordan (2000), e atualmente passível de uma variedade de reinterpretações a partir da ISO 9241-210, segundo a qual a usabilidade e seus componentes — eficácia, eficiência e satisfação — têm sido adaptados às especificidades do produto e do usuário.
Quadro 4: Conceito de usabilidade, segundo fonte e área.
FONTE ÁREA USABILIDADE
NIELSEN (1994) Humano–
Computador
É parte do sistema de aceitabilidade. Permite verificar se o sistema é bom o suficiente para satisfazer todas as necessidades e requerimentos dos usuários. Avalia quão bem o usuário pode usar a funcionalidade do sistema. Está relacionada à facilidade de aprendizagem, eficiência para o uso, facilidade de lembrar, poucos erros, subjetiva agradabilidade.
JORDAN (1998) Produtos O International Standards Organisation (ISO 9241-11) define usabilidade
como a eficácia, eficiência e satisfação com que usuários específicos podem atingir objetivos específicos em um ambiente particular.
JORDAN (2000) Produtos Uma aproximação apenas baseada na usabilidade é limitada. A
usabilidade deve ser vista como um componente fundamental do prazer.
CYBIS, BETIOL e
FAUST (2010, p.16) Humano–Computador “A usabilidade é a qualidade que caracteriza o uso dos programas e aplicações.”