Após a publicação de A Dimensão Estética, Marcuse deu algumas entrevistas sobre arte e política. Uma delas, em 1978, para Larry Hartwick, foi publicada em 1981 na revista
Contemporary Literature. Nela, Marcuse sublinha algumas posições defendidas em sua
última obra. Se, por um lado, a arte não está livre das determinações sociais, por outro, elas não passam do material, da tradição e do horizonte histórico sob o qual o artista trabalha. A obra de arte não ensina nada sobre o modo de uma sociedade operar na época em que foi realizada, nem a obra pode ser entendida pelo apontamento das determinações sociais. O autor também procura deixar claro que não faz da estética uma categoria transcendental, pois usa o termo trans-histórica para se referir à estética: a transcendência de todo e qualquer estágio
particular do processo histórico, mas não a transcendência do processo como um todo. Nada
pode transcender o processo histórico como um todo, uma vez que tudo está na história, até mesmo a natureza.
Outro argumento reforçado na entrevista é a idéia de que a arte não pode mudar as condições sociais. Tal impotência é essencial e necessária à arte: a sua ineficácia com relação à práxis da mudança. A única coisa que a arte pode fazer é preparar a mudança social, contribuir com negações e mediações, entre as quais a mais importante é a mudança da consciência e, especialmente, a mudança da percepção. Além de mediação, a arte é também representação da imagem da condição humana na medida em que ela está enraizada acima e além da esfera social, principal razão pela qual Marcuse relaciona arte a Eros: a arte representa conflitos, esperanças, e sofrimentos que não podem ser de forma alguma resolvidos pela luta de classes. (MARCUSE, 2007g, p. 221, tradução nossa). Num sentido trans- histórico, sempre haverá conflitos na condição humana que transcendem completamente a esfera da luta de classes. Existem outros limites na relação entre arte e práxis política: a arte não pode revelar e representar os mecanismos internos da sociedade capitalista, em especial os econômicos, assim como não pode representar o horror extremo da realidade predominante.
Demonstrando não condenar toda e qualquer manifestação das vanguardas artísticas, Marcuse afirma que a vanguarda de hoje realmente faz arte. A questão é até que ponto os critérios estéticos podem ser aplicados a algumas manifestações da arte de vanguarda. Enquanto repetições da realidade dada, suas obras não seriam arte, pois falta-lhes a transcendência e a ruptura essenciais à ela. Mas a arte continua sendo feita, mesmo no
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capitalismo tardio. Se ela foi cooptada, é em termos do receptor da arte e não da obra de arte em si mesma, pois ela não muda. Sobre as dificuldades em se fazer arte num contexto de forte repressão pulsional, Marcuse afirma que
A contradição da realidade na arte deve ser mais radical do que possa ter sido antes pois há mais a contradizer, a transcender. Se e quando praticamente todas as dimensões da existência humana são socialmente administradas, então, obviamente, a arte, para ser capaz de comunicar suas verdades adequadas, deve ser capaz de romper essa totalização na consciência e na percepção e de intensificar a alienação. Aqui está uma dificuldade: Adorno, como você deve saber, pensou que quanto mais repressivo o capitalismo corporativo é, mais alienada, mais estranha a arte precisa e deve ser. Mas, se essa alienação for tão longe a ponto de a obra de arte não ser mais capaz de comunicar, então qualquer ligação com a realidade será perdida na negação da realidade; ela se torna uma negação abstrata (MARCUSE, 2007g, p. 223, tradução nossa).
A Grande Recusa deve ser comunicável, compreensível pois, sem comunicação, a arte fica num vazio total. As tentativas da arte de vanguarda de definir a si mesma somente em termos da arte e não em termos de sua situação na sociedade estabelecida, também expressam sua relação interna e essencial com a realidade. Somente nessa forma, através da definição em seus próprios termos, é que a arte pode carregar a denúncia e a negação.
Em uma série de diálogos publicada em alemão sob o título Gespräche mit Herbert
Marcuse (Conversas com Herbert Marcuse), no ano de 1978, o filósofo reafirma alguns
pontos importantes de suas reflexões sobre a arte. Ao ressaltar o caráter essencial da forma estética na definição do que é arte, Marcuse (1980, p. 55-62) alega que a verdade da arte não está nem na forma isolada nem no conteúdo isolado, mas no conteúdo tornado forma, na forma estética. Assim, há uma interdependência entre conteúdo e forma, mais do que a predominância de um sobre o outro. O valor cognitivo da arte também é abordado, naquilo que o diferencia do conhecimento intelectual: a representação de um conceito na arte não termina com a sensibilidade inalterada, mas a transforma: novas percepções que levarão a um novo conhecimento. Somada a isso está a recordação como força criativa, recordação da felicidade e do sofrimento passados como queixa e também como estímulo para a realização da utopia concreta , como idéia regulativa de uma prática futura. O caráter político da arte tem a ver com aquilo que ela foi capaz de preservar, que escapou à idéia do socialismo: a emancipação da subjetividade, da sensibilidade. O mesmo caráter manifesta-se também naquilo que não vai mudar: o trágico que restará e a esperança necessária mesmo após a abolição da sociedade de classes. Mas talvez a passagem mais interessante desse texto seja aquela na qual Marcuse afirma que, se reescrevesse, no final da década de 1970, o ensaio Sobre o Caráter Afirmativo da Cultura , teria suavizado os aspectos afirmativos da arte e
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enfatizado seu caráter crítico-comunicativo, ausente na vanguarda. Certamente, é possível afirmar que A Dimensão Estética realizou justamente essa suavização e essa ênfase.
Uma outra entrevista, provavelmente realizada em 1979, por Richard Kearney, foi publicada em 1984 no livro Dialogues with Contemporary Continental Thinkers (Diálogos
com Pensadores Europeus Contemporâneos). Nela, entre outras coisas, Marcuse reafirma que
toda arte autêntica é negativa e se recusa a obedecer a realidade, a linguagem, a ordem, as convenções e as imagens estabelecidas. Haveria dois jeitos de a arte ser negativa: (1) como refúgio da difamada humanidade e assim preservando, em outra forma, uma alternativa para a realidade afirmada do Establishment; ou (2) como negação dessa realidade afirmada , ao denunciá-la e os difamadores da humanidade que afirmaram essa realidade. O máximo de positividade que a arte pode fazer é oferecer as imagens de uma sociedade mais livre e de relações mais humanas. Assim, a diferença entre a estética e a teoria política permanece intransponível: a arte comunica a luta dos indivíduos com sua sociedade através do medium da sensibilidade, com imagens sentidas e imaginadas mais do que intelectualmente formuladas. Já a teoria política é necessariamente conceitual. Tampouco faz parte das funções verdadeiras da arte a tentativa de converter a sensibilidade e a consciência das massas. Suas funções verdadeiras são: (1) negar nossa sociedade atual; (2) antecipar as tendências da sociedade futura; (3) criticar tendências destrutivas e alienantes; e (4) sugerir imagens de tendências criativas e desalienadoras.
Marcuse considera reducionista a interpretação da arte como um tipo de código que deve ser decifrado pela análise crítica. Ele afirma que a arte é mais do que uma linguagem que reflete a realidade através de uma segunda-realidade estética. Ela não é somente um espelho, somente uma imitação da realidade. A arte transforma a realidade e traz à luz o que a realidade faz com os seres humanos e as possíveis imagens de liberdade e felicidade que a realidade poderia dar a eles. A arte não somente reflete o presente, mas leva para além dele. Ela preserva, permitindo-nos relembrar, valores que não têm mais lugar no mundo aponta assim para uma outra sociedade possível, na qual tais valores se realizariam. A arte só pode ser considerada um código na medida em que ela age como uma crítica mediata da sociedade, pois ela não pode ser uma denúncia direta ou imediata da sociedade, pois isso é trabalho da teoria e da política.
Mas isso não significa que não haja ligações entre os anseios revolucionários e a arte. A arte pode transcender qualquer interesse particular de classe, sem por isso eliminá-lo. Toda obra de arte obviamente tem um conteúdo de classe, na medida em que reflete os valores e sentimentos de determinada visão de mundo, mas esse conteúdo revela a situação dos sonhos
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universais da humanidade. Grande parte das obras sem forma da arte moderna (Cage, Stockhausen, Beckett ou Ginsberg) na verdade são altamente intelectuais, construtivistas e formais. Isso tem a ver com o fim da antiarte e o retorno à forma. Devido ao significado universal da arte, podem-se encontrar sentidos revolucionários mais bem expressos nas obras líricas de Brecht do que nas explicitamente políticas; ou nas canções mais pessoais e sentimentais de Bob Dylan, mais do que nas suas canções de protesto. A mensagem comum aos dois artistas é a necessidade de dar um fim às coisas como são. Mesmo que não haja nenhum conteúdo político, seus trabalhos podem invocar, momentaneamente, a imagem de um mundo libertado e a dor de um mundo alienado. Assim, a dimensão estética assume um valor político e revolucionário, sem se tornar porta-voz de nenhuma classe em especial. A lembrança imaginativa que a arte invoca é especialmente importante, pois através da lembrança de valores e desejos que, incapazes de se expressar num mundo político corrompido, refugiaram-se e foram preservados na arte, podem-se encontrar sugestões de saídas para a presente alienação. Portanto, a arte nunca deve perder seu poder negativo e alienante, pois seu potencial mais radical está aqui. Perder seu poder negativo seria o fim da tensão entre arte e realidade, o fim da diferença real entre sujeito e objeto, quantidade e qualidade, liberdade e servidão, beleza e feiúra, bem e mal, futuro e presente, justiça e injustiça etc. Seria o sinal da mais pura barbárie. A força negativa comum de várias peças artísticas (Verdi, Dylan, Flaubert, Joyce, Ingres, Picasso etc.) é precisamente a alusão à beleza que funciona como recusa do mundo das mercadorias e das atitudes exigidas por ele. A arte é revolucionária como negação da negação.
Quanto à idéia de fim da arte , Marcuse afirma que, se a arte é uma das coisas que aponta para imagens de uma utopia política, ela nunca deixará de existir:
Arte e política jamais se fundirão porque a sociedade ideal a que a arte aspira em sua negação de toda sociedade alienada pressupõe uma reconciliação ideal de opostos, que nunca pode ser alcançada em nenhum sentido absoluto ou hegeliano. A relação entre arte e práxis política é por conseguinte dialética. Tão logo um problema é resolvido numa síntese, novos problemas nascem e assim o processo continua sem ter fim (MARCUSE, 2007k, p. 235, tradução nossa).
A união, a identificação entre arte e práxis revolucionária significa a morte da arte. Mas a arte é uma necessidade humana, na medida em que o ser humano é, essencialmente, um ser mutável: O homem não deve nunca parar de ser artista, de criticar e negar seu eu e sua sociedade presentes e de projetar, através da imaginação criativa, imagens alternativas
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de existência. Ele não pode nunca parar de imaginar, pois ele não pode nunca parar de mudar. (MARCUSE, 2007k, p. 235, tradução nossa).
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