5. Chapitre V : La discussion
5.2 Les activités de niveau 2 : Construction procédurale et choix de programmation
A relação entre o sistema familiar de proveniência da adolescente e o risco de uma gravidez na adolescência tem sido examinada na literatura, sobretudo a partir dos anos 80. Esta análise tem sido levada a cabo no quadro da perspectiva do sistema familiar à luz da qual a gravidez na adolescência surge como reflexo de toda a ecologia familiar (e.g. Cervera,
1989,1991, 1993, 1994; Chase-Lansdale & Brooks-Gunn, 1994; Hofferth & Hayes, 1987; Miller & Moore, 1990; Plotnick, 1992). Mais especificamente, determinados factores familiares como conflitos conjugais, estrutura familiar monoparental, relações problemáticas entre a adolescente e os pais e transmissão intergeracional do fenómeno no ciclo de vida da família, tendem a ser vistos como factores de risco na gravidez na adolescência.
Passaremos agora a analisar mais detalhadamente cada um destes aspectos.
Um contexto familiar destruturado e instável, ao qual se associam elevados níveis de stress familiar, parece ser uma situação que pode contribuir para a ocorrência de uma gravidez na adolescência (e.g. Barnett, Papini & Gbur, 1991; Goldfarb et ai., 1977; Hogan & Kitagawa, 1985; Landy, Schubert, Cleland, Clark & Montgomery, 1983; Vernon et al., 1983; Young, Jensen, Olson & Cudick, 1991).
O sistema familiar monoparental tende a ser visto como um factor a
considerar na análise dos factores associados ao fenómeno em causa (Chilman, 1980; Hogan & Kitagawa, 1985; Miler & Jorgenson, 1993). Por exemplo, Hogan e Kitagawa (1985) encontraram valores de taxas de gravidez 36% mais elevados em adolescentes do sexo feminino provenientes de famílias monoparentais, comparativamente a adolescentes de famílias intactas. Resultados de um estudo nacional conduzido nos EUA no final da década de 80, com adolescentes de raça negra de nível sócio-económico elevado, apontam também para uma maior tendência de gravidez na adolescência, quando as adolescentes têm experiências familiares monoparentais (Murry, 1989). A maioria dos autores considera que esta situação é particularmente relevante se a adolescente viver só com a mãe (Voydanoff & Donnelly, 1990). A investigação revela que as adolescentes, provenientes de situações familiares caracterizadas pela ausência do pai, têm maior probabilidade de engravidarem na adolescência (Buchholz & Gol, 1986)12. Resultados de pesquisas de Morgan, Chapar e Fisher (1995) e
Horwitz, Klerman, Kuo e Jeckell (1991), conduzidos nos EUA, indicam que a perda da mãe, num período precoce da vida da adolescente, é uma variável importante associada ao risco de gravidez na adolescência.
Alguns autores defendem que um sistema familiar monoparental vai implicar mais stress em termos da gestão do ambiente familiar, menor supervisão parental em relação à adolescente e uma maior permissividade face à sexualidade e a outras formas de estrutura familiar, o que pode passar por exemplo por uma maior aceitação do nascimento de filhos fora do casamento. Num artigo recente, Murry (1995) analisa a relação entre a estrutura familiar monoparental e a menor supervisão parental das actividades de relacionamento sexual das adolescentes, verificada em famílias deste tipo13. A autora revela que a relativa ausência de supervisão e
apoio parental tem sido identificada como um factor particularmente
12 Por exemplo, os resultados de um estudo de Landy e colabs (1983) com grávidas adolescentes, revelaram que uma elevada proporção das adolescentes que engravidaram eram provenientes de situações familiares caracterizadas pela ausência do pai.
Factores de risco na gravidez na adolescência 38
importante na questão da gravidez na adolescência, parecendo contribuir para a variação encontrada em termos do padrão de comportamento sexual das adolescentes, em famílias em que a adolescente reside só com a mãe ou em famílias intactas (Henley, 1993; Murry, 1995; Ralph, Lochman & Thomas, 1984). Por exemplo, o estudo de Hogan e Kitagawa (1985) mostrou que as adolescentes que tinham uma menor supervisão parental ao nível dos encontros com o sexo oposto, eram o grupo que tinha uma incidência mais elevada de gravidez. No entanto, outros investigadores mostraram que índices muito elevados de supervisão parental se associavam a maior incidência de gravidez (Inazu & Fox, 1980; Newcomer & Udry, 1983). Face a estes resultados contraditórios, descritos na investigação empírica, consideramos interessante salientar os resultados de Miller, McCoy, Olson e Walace (1986) que mostram que são precisamente os níveis muito elevados e os níveis muito baixos de supervisão parental que mais se associam a gravidez na adolescência, contrastando com uma menor incidência em famílias com níveis moderados de supervisão parental.14
O tipo de relacionamento da adolescente com os pais parece ser também um antecedente que contribui para uma iniciação mais precoce da actividade sexual desprotegida e que, em muitos casos, pode levar a uma gravidez não planeada (Bali, 1977; Coddington, 1979; Jessor & Jessor, 1975; Simkins, 1984; Vance, 1985; Welches, 1977). Diversos autores argumentam que um relacionamento e comunicação pobre da adolescente com a família, particularmente com a mãe, pode contribuir para a ocorrência de uma
13 De facto, a questão da menor supervisão parental dos relacionamento íntimos das
adolescentes com o sexo oposto tem vindo a emergir na literatura dos antecedentes da gravidez na adolescência, como factor da esfera familiar a ter em consideração.
Estes resultados, em nossa opinião, poderão talvez ser lidos à luz das questões relativas aos estilos parentais na família durante a adolescência (Elder, 1963). Assim, poderemos pensar que estes níveis extremos de supervisão familiar se associam respectivamente a estilos autoritários (níveis muito elevados de supervisão parental) e a estilos permissivos (níveis muito baixos de supervisão parental). Por um lado, talvez seja nas famílias de estilo autoritário, onde provavelmente a tarefa de construção da identidade esteja a ser dificultada à adolescente, que se verificam níveis muito elevados ou mesmo extremos de supervisão parental. A este propósito, Romig e Bakken (1990) salientam que são as famílias rígidas às quais se associa uma maior ocorrência gravidez na adolescência. Por outro lado, poderemos pensar que será também em famílias de estilo parental permissivo, caracterizadas por baixos níveis de supervisão parental, que o risco mais elevado também residirá. Por fim, será possivelmente nas famílias de estilo democrático, com níveis moderados e equilibrados de supervisão parental, onde possivelmente o risco de gravidez será menor.
gravidez na adolescência (e.g. Abemethy & Abernethy, 1974; Olson & Worobey, 1984). Assim, o escasso apoio parental, especialmente em termos da intimidade da adolescente com a mãe, pode levar a que a adolescente se sinta só e isolada. O iniciar da actividade sexual precoce surgirá aqui como forma da adolescente se sentir emocionalmente envolvida numa outra relação (Lewis & Lewis, 1980). Por outro lado, Barbikan e Goldman (1971) e LaBerre (1968) argumentam que quando a relação entre a adolescente e a mãe é tensa e conflituosa, a possibilidade de gravidez poderá ser vista como forma de a adolescente competir com a sua mãe ou mesmo de a desafiar.
Outra questão importante, relativa à esfera familiar que aparece associada à ocorrência do fenómeno aqui estudado, é a da tendência
intergeracionai ou o ciclo de transmissão de gravidez na adolescência,
verificada em algumas famílias. É bem conhecido na literatura que uma adolescente, com uma história familiar em que a sua própria mãe foi mãe adolescente, está numa situação de risco significativo de ela própria engravidar durante a adolescência (e.g. Handler, 1990; Holden, Nelson, Velasquez & Ritchie, 1993; Jacobson, Willinkson & Phil, 1995; Merrick, 1995; Trad, 1993; Vernon & Seymore, 1990; Williams, 1991). Além disso, ter uma irmã que é ou foi grávida adolescente pode também potencializar este risco para a adolescente (Hogan & Kitagawa, 1985). A titulo ilustrativo é de referir a pesquisa longitudinal de Friede e colabs (1986) que, estudando um coorte de 3767 irmãs adolescentes durante quatro anos, verificaram que a incidência de gravidez na adolescência era significativamente incrementada para aquelas adolescentes que viviam com um irmã adolescente grávida. Neste contexto familiar, quer a mãe quer a irmã parecem servir como modelos de socialização para a adolescente (Friede, Hogue, Doyle, Hammerslough, Sneizek & Arrighi, 1986). No que respeita ao sistema familiar da adolescente, a antecipação de uma gravidez poderá mesmo ser vista, no seio da família, como normativa, por exemplo, em relação às expectativas familiares associadas à transição prévia para a vida adulta (Peterson & Crockett, 1992).
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Embora, como foi aqui apresentado, a questão da importância de factores familiares associados ao risco de uma gravidez na adolescência ter vindo a ser abordada na investigação no campo das ciências sociais e humanas, partilhamos da visão de Furstenberg (1990) quando salienta que a análise do impacto dos factores familiares, no risco de uma gravidez na adolescência, será enriquecida se for levada a cabo no âmbito do contexto social mais vasto onde ocorre, ou se quisermos, na terminologia de Bronfennbrenner (1979, 1986), a compreensão do impacto do microssistema familiar no risco de uma gravidez na adolescência, não deverá ocorrer desligada de uma análise exo e macrossistémica do fenómeno em causa, implicando assim analisar o fenómeno "em contexto".
Ainda em termos microssistémicos, passaremos agora a discutir a importância de factores do contexto de pares, no risco de uma gravidez na adolescência.