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Activités d’enseignement

Quando se fala em rede, remete-se à idéia de circulação, não podendo considerá- la, pois, um sujeito de ação. A noção moderna de rede surgiu no pensamento de Saint-Simon (apud. BENAKOUCHE, 1999) a partir da necessidade de se entender a passagem de um sistema a outro, observando três elementos: associação, comunicação e comunhão. Procura-se associar o corpo social ao organismo humano, substituindo o sangue pelo dinheiro.

Contudo, seus discípulos não entenderam as redes nesse sentido e, ao invés de pensá-la como um instrumento de passagem de um sistema para outro, pensaram-na como um fim. Para Saint-Simon (apud. BENAKOUCHE, 1999) eram possibilitadoras e não o contrário, como propuseram seus seguidores. As principais críticas versam sobre a natureza determinista da técnica sobre a sociedade. Comenta-se que “... a partir de um determinado estágio, os sistemas técnicos adquirem uma dinâmica própria, tornando difícil e muitas vezes impossível, manter um controle sobre eles”. (BENAKOUCHE, 1999, p. 07).

Provavelmente, boa parte dessas questões analíticas poderia ser superada a partir do entendimento do território articulado, confrontando e confrontado por uma teia de redes. Ao contrário, a ampliação do uso de novas tecnologias fez com que nos anos 70 fosse muito utilizado o conceito de impacto social da técnica, pois, até então, o entendimento de rede se dava sobre um viés determinista. A tecnologia provocaria os impactos na sociedade!

A idéia de impacto vem de barragens (construção de usinas hidrelétricas). Impacto dá a impressão de algo que vem de fora da sociedade. Entretanto, a técnica é endógena à sociedade (é produção da sociedade). Alguns pesquisadores (Depuy12, por exemplo) sugerem utilizar o termo implicações ao invés de impacto. O ideal seria a compreensão do funcionamento das redes técnicas.

Outra crítica contundente se dá em relação à definição dos limites dos sistemas técnicos – onde termina um sistema e começa o ambiente que o contém. Contudo, as críticas mais pesadas se dão sobre o determinismo da técnica que pode ser concebido em três possibilidades: espaço, tempo e sociedade. É complicado afirmar, por exemplo, que no plano da lógica da empresa, as redes são portadoras de ordem e, no espaço banal, portadora de “desordem”. É melhor utilizar o entendimento dado à questão por Milton Santos a partir da

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DEPUY, Gabriel. Les effets spatiaux des techniques de télécommunication: ouvrons la boîte noire. In. Bulletin de l’Idate, n. 17, jul. 1982, p. 77-83. Apud. Benakouche (1999).

utilização dos termos verticalidades (espaços descontínuos, ligados em redes) e horizontalidades (espaços contíguos).

Pois, ainda, no entender de Milton Santos “... o território é o suporte de redes que transportam regras e normas utilitárias, parciais, parcializadas egoísticas (do ponto de vista dos atores hegemônicos), as verticalidades, enquanto as horizontalidades hoje enfraquecidas são obrigadas, com suas forças limitadas, a levar em conta a totalidade dos atores”. (SANTOS, 2002, p. 19).

Ademais, as sociedades são desiguais, formadas por tempos e espaços desiguais, não podendo ser reduzidas. Um lugar participa ao mesmo tempo de diferentes escalas. É importante perceber que a aceleração informacional planetária é desigual e não elimina as distâncias, diminuindo apenas as barreiras espaciais. Dias (1995) destaca que “... a localização geográfica torna-se portadora de um valor estratégico ainda mais seletivo. As vantagens locacionais são fortalecidas e os lugares passam a ser cada vez mais diferenciado pelo seu conteúdo” (p. 157).

A partir de então, muitos estudiosos passaram a questionar o excessivo determinismo da técnica e incorporar novos elementos de análise. Ganhou força, principalmente nos países mais desenvolvidos da Europa e nos EUA, o estudo da técnica numa perspectiva sociológica. Ou seja, a técnica é construída por atores sociais e no contexto da própria sociedade.

Nos anos 80, com a sociologia da técnica, deixou-se de estudar as conseqüências da técnica sobre a sociedade para analisar o processo de produção e difusão dos objetos técnicos. Evita-se a ênfase no inventor, tenta-se anular o determinismo da técnica e a dicotomia técnica-sociedade. As abordagens principais são:

a) Destaque ao conceito de sistema: caracteriza-se pela noção de grandes sistemas técnicos, definidos como um “... conjunto de elementos sociais, políticos, econômicos e

técnicos envolvidos nas várias etapas de criação, desenvolvimento e difusão de uma tecnologia dada”. (BENAKOUCHE, 1999, p. 04). O sistema deve ser concebido pela conexidade dos componentes através de uma rede ou estrutura com um centro de poder que orienta a busca dos objetivos. As relações são permeadas por conflitos e a configuração de um sistema é variável de território para território. Adota, freqüentemente uma postura política como tentativa de escapar aos ranços deterministas que critica, mas é acusado de não romper com esses ranços. Essa corrente sugere a existência dos sistemas no território entendido enquanto espaço de normas, de culturas próprias, mas não em seu sentido que atualmente vem sendo adotado (entre outros, por Milton Santos em vários trabalhos).

b) Caráter socialmente construído: pautado na corrente construtivista. Critica o essencialismo da técnica. Propõe o uso de conceitos operacionais e básicos como os de grupos sociais relevantes, estrutura tecnológica, flexibilidade interpretativa e estabilização ou fechamento. Aponta para o confronto entre rigidez das estruturas sociais e flexibilidade das práticas individuais, permitindo uma abordagem sociológica. Apesar de sua posição integradora, faz-se a distinção entre o que é tecnológico e o que é científico.

c) Destaque ao conceito de rede: nessa perspectiva, a análise integrada da tecnologia pressupõe que a mesma envolve uma rede de atores ou uma actor-network. Identifica-se na corrente sociológica e adotam o princípio da simetria generalizada, ou seja, são utilizados os mesmos procedimentos na investigação de elementos sociais e técnicos. Compreende a rede como um conjunto de vários atores sociais e não sociais que possuem uma identidade própria e uma coletiva a partir de seu papel desempenhado objetivando o alcance de uma meta. Nega-se o conceito de impacto tecnológico e de autonomia da técnica. Técnica e sociedade estão atreladas.

Pierre Musso (apud. BENAKOUCHE, 1999) afirma que rede é uma estrutura de interconexão, instável, composta de elementos em interação e, cuja variabilidade obedece a

alguma regra de funcionamento. As redes são sempre móveis e inacabadas. A estrutura de redes obedece a normas, sendo assim, uma desregulamentação implicaria numa maior exigência de normas. É preciso ver que as redes não criam um espaço dual, mas podem contribuir para a desigualdade espacial. Como lembra Milton Santos, a rede não é um espaço de todos. Para se conceber claramente o espaço das redes, é necessário romper com o determinismo do tecnicismo e do economicismo (SANTOS, 1999).

O estudo da relação entre a rede e o território precisa incorporar o entendimento do território no seu conjunto e da dinâmica que lhe é intrínseca e não apenas alguns de seus elementos. O território precisa ser percebido como conteúdos e formas. É preciso ver o território como espaço formado de lugares contínuos e de lugares em rede e que as mesmas constituem apenas uma parte do espaço e o espaço de alguns. (SANTOS, 2002, p. 16).

Logo, a partir dessas considerações, pode-se pensar que apesar de antigo, o conceito de rede está em constante processo de resgate às suas idéias originais no pensamento de Saint-Simon e adaptação à realidade vivida. Talvez, a melhor forma de compreensão do estudo das redes seria seguir o caminho de seus atores, mas compreendendo a presença dos mesmos em sua interação com os territórios.

Assim compreendido, o conceito de rede não pode ser aplicado para processos de consolidação do desenvolvimento local. Não se deve esquecer dos ensinamentos de Milton Santos (1999). As redes não são espaços de todos. São espaços de uns poucos, os privilegiados. Nas redes, não existe lugar para os que não forem competitivos. A competitividade é a mola propulsora desta. Aquele que não for competitivo tem que sair da rede ou ela se compromete em sua totalidade. Pensando dessa forma, a rede reproduz a lógica do capital. Logo, se o desenvolvimento não for possível pela liberdade dos indivíduos, então continua a se privilegiar o grande capital e não a coletividade local. Deve se ter em mente que nem todos desejam ser exportadores, por exemplo. As pessoas são diferentes e desejam coisas

diferentes. Possuem sonhos, objetivos diferentes. Conforme Sen (2002), havendo ausência de liberdade não há desenvolvimento. É preciso, pois, repensar o entendimento de desenvolvimento local.

As categorias trabalhadas neste capítulo constituirão referências para compreensão do desenvolvimento regional e das indagações sobre sustentabilidade apresentadas no quarto capítulo. A seguir, se discute a dinâmica do meio rural sul-mato- grossense para embasamento do estudo de caso: Microrregião Campo Grande.

2 A DINÂMICA RURAL DO MATO GROSSO DO SUL

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