A primeira pergunta dos questionários teve como objetivo ouvir das participantes por quais motivos elas acreditavam que essas famílias haviam migrado para o Brasil e posteriormente escolhido o município de Estação/RS. Essa questão
emergiu durante a pesquisa por considerar importante saber da realidade dessas crianças que chegam a escola e de seus familiares. Libâneo (1994, p. 36) coloca que [...] “a educação não depende apenas do interesse e esforço individual, porque, por trás da individualidade, estão condições sociais de vida e de trabalho que interferem nas possibilidades de rendimento escolar.” Desse modo compreender a realidade dos educandos é compreender o que é necessário buscar dentro do ambiente escolar.
Contextualizando as respostas, podemos perceber que todas as entrevistadas dão indícios de o motivo da vinda desses imigrantes ter sido para melhorar a qualidade de vida, visto as dificuldades que passam no seu país de origem. Em relação à escolha por morar no município de Estação/RS, a maioria cita a empresa que ofertou emprego a eles como provável motivo. Em destaque, uma das entrevistadas cita que não foi uma escolha vir para o município, mas sim o fato de existir essa oportunidade de emprego. Essa mesma entrevistada coloca em sua fala o fato de parte dos filhos desses imigrantes continuarem lá, se sabe que a maioria dos primeiros imigrantes a chegarem aqui eram homens e através do dinheiro que conseguiam juntar com seu trabalho, foram conseguindo trazer suas famílias aos poucos, esse também foi o caso de J. que só chegou com a mãe aqui dois anos após o pai. Muitos ainda têm filhos no Haiti e tentam trazê-los para cá.
O fato de o trabalho ser citado majoritariamente, nos traz o conceito da mobilidade em função do trabalho. O município de Estação localizado na região norte do estado do Rio Grande do Sul tem apenas 6.165 mil habitantes (IBGE/2016), o fato de que estes imigrantes tenham vindo para cá e não terem procurado centros urbanos maiores, ocorreu em função da empresa que havia na cidade. A empresa citada nas entrevistas (Cotrigo) na realidade não opera no município desde o ano 2009, porém, o prédio do frigorífico dessa empresa era alugado até então pela Pamplona. Uma das entrevistadas discorre sobre:
D2: [...] “começou ali com a Cotrigo, dando oportunidade para essas pessoas e a Cotrigo mesmo acho que deve ter conversado com alguém para estar trazendo essas pessoas, porque eles estavam precisando de mão de obra e uma mão de obra um pouco mais barata. Então acabou aliando a necessidade da Cotrigo e a necessidade deles também de buscar emprego.” [...]
Póvoa-Neto (1997, p. 19) traz que “o conceito de Mobilidade do Trabalho designa-se (...) um processo abrangente, no qual os homens tornam-se crescentemente
disponíveis para a utilização compulsória de sua força de trabalho nos moldes capitalistas.” Essa colocação vai ao encontro com o que a participante acima nos traz. A empresa em questão necessitava de uma mão de obra, ao que a entrevistada enfatiza, “uma mão de obra um pouco mais barata”, então a necessidade de um emprego por parte desses imigrantes faz com que eles aceitem empregos que são rejeitados por parte das populações locais, o trabalho no frigorífico é um deles. Muitas vezes esses imigrantes têm dificuldade de serem admitidos nas empresas em função da língua e também do preconceito, o que faz com que migrem para oportunidades de trabalho que por vezes não oferecem a eles as garantias que deveriam.
Gomes e Rosseto (2017, p.194) trazem a respeito disso:
As buscas por mão-de-obra por parte dessas empresas acontecem a todo o momento, pois os setores de produção de todas elas apresentam uma grande rotatividade de funcionários por serem atividades que muitas vezes necessitam de um maior esforço físico. Gaudemar (1977) afirma que essa rotatividade de certa forma acaba muitas vezes sendo um benéfico, visando que geralmente a fraca qualificação dos imigrados traz possibilidades de salários mais baixos, horários diferenciados.
Complementando essa ideia de que a empresa foi o grande atrativo para esses imigrantes se estabelecerem aqui, a participante dialoga:
D2: [...] tanto isso é verdade que depois que agora fechou a Cotrigo, por ter sido vendida, enfim, não se sabe direito, eles estão buscando novas oportunidades em outros municípios aí, então quer dizer que aqui realmente a única oportunidade que eles tinham era a Cotrigo. Infelizmente as pessoas não deram muita abertura e também está difícil de conseguir emprego pra todo mundo na verdade [...]
Com o fechamento do frigorífico da Pamplona na metade deste ano (2019), a maioria dos imigrantes haitianos que viviam no município mudou-se para cidades maiores no entorno do mesmo, como Erechim, Passo Fundo e Tapejara, lugares com uma oferta mais constante de emprego. Essas ofertas de emprego seguem o mesmo segmento da oportunidade que tiveram em Estação/RS.
Nas respostas das entrevistadas para essa questão, quando elas citam a precariedade do Haiti como um dos fatores que implicam na saída dessas pessoas do seu lugar de origem, é um conceito importante para entender essa forma de imigração não como uma escolha e sim uma necessidade. Como transparece nos trechos abaixo:
D1: A gente sabe que onde eles moram as condições são bem precárias de questão de recursos também financeiros, de alimentação e mais ainda a questão de higiene também é bem complicado.
D2: Que eles tenham vindo para o nosso país, tendo em vista a pobreza que eles vivem, as dificuldades que eles tem no país deles [...]
M1: [...] segundo a gente sabe o país deles assim é um país pobre, um país que não tem muito recurso, então as famílias vão saindo de lá e procurando ajuda em outros lugares, outros países [...]
Essa é uma visão importante para despertar nosso lado humanitário, pois, essas pessoas estão aqui não para tirar nosso espaço, mas sim por precisarem de ajuda, assim como já ocorreu com outros povos. Eles contribuem com as nossas cidades e com o nosso país, não só no trabalho, mas no compartilhamento de experiências, vivências e cultura. A participante D1 tem uma fala durante a entrevista, que embora não apareça nos quadros do capítulo anterior, se encaixa perfeitamente aqui, quando ela diz:
D1: [...] eu acho que nesse sentido eles vêm para cá buscando melhores condições e a gente ganha no sentido de que eles trazem da cultura deles, do jeito, os alimentos que são diferentes dos nossos, mas eles se adaptaram bem aos nossos aqui também e a gente, acho, que tinha que se abrir mais para dar mais espaço para eles mostrarem a cultura deles, que às vezes a gente é meio resistente, a gente não sabe como deixar eles mostrarem o que eles são também, as vezes a gente fica meio inibido com a situação, sei lá, a gente não se abre tanto, mas eu acho bem interessante o trabalho teu também, para conhecer e ver como a gente poderia dar mais espaço para eles aqui.
Esse espaço que ela cita ao final da sua colocação é fundamental para que eles se sintam acolhidos na nossa sociedade, e a escola é peça chave para que isso aconteça, porque é ali que a inserção desses imigrantes começa. Por isso, é fundamental que além de buscar conhecer a realidade dessas famílias sejam incluídos nos projetos dessas instituições essa temática, não só abordando a questão da imigração, mas trazendo também a cultura haitiana para dentro de sala de aula. As escolas ainda perpassam uma visão etnocentrista que precisa ser quebrada para que essa e outras culturas comecem a ser valorizadas também.
3.2 A RELAÇÃO ENTRE ESCOLA E FAMÍLIA: UMA BUSCA PELA RUPTURA