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Dans le document 1982 TELECOMMUNICATION PRODUCTS DATA BOOK (Page 176-182)

Livro sobre o livro, Bouvard e Pécuchet (1881) é uma reflexão sobre a criação literária como reescrita, a cópia e um diálogo incessante com outros textos, com a menção de outros livros e autores em sua composição, em forma de revisão discursiva. Reproduzindo fragmentos textuais e resumos da literatura científica, essa obra é desenvolvida no espaço de conhecimento de textos anteriores, referindo-se à biblioteca, a arquivos, tratados científicos e falhas teóricas do século XIX. A cópia, em Flaubert, entendida aqui como uma prática de gesto vazio e mecânico, consiste em colecionar e comentar o absurdo de um período histórico submerso nas verdades científicas, simbolizando essa impossibilidade da literatura de se manter em um estado inerte diante de tais discrepâncias.

Considerado um “livro infernal” nas palavras do próprio autor, o referido romance marca uma verdadeira ruptura na prosa, não só pelo seu desejo de questionar criticamente o conhecimento do seu tempo, mas também a desconstrução do modelo tradicional que se realiza. Mais que um trabalho de precisão, de documentação que se refere aos princípios das estéticas realista e naturalista, Bouvard e Pécuchet (1881) não parece ser uma reprodução fiel da realidade. Conflitando com os aspectos inerentes a esse realismo, a obra sustenta uma cronologia não linear, imprecisa e fragmentada, com um modo narrativo que se aproveita de episódios arbitrariamente justapostos, favorecendo as estruturas repetitivas e cíclicas. A paródia oriunda do hipertexto – conceitos que serão discutidos com mais detalhes posteriormente – desconstrói a noção de caráter e entidade psicológica individual dos personagens, além de estabelecer uma transgressão às categorias peculiares à estética realista, trazendo uma noção de choque, incompreensão e contemporaneidade.

Nessa escrita esquemática, refinada e sistemática, em que o enredo é dissolvido e nada substancial acontece, o narrador acaba sendo diluído a uma voz anônima e impessoal que já não é o pressuposto oficial da ficção, tornando-se talvez o “livro sobre nada” sonhado por Flaubert. Borges, em Discusíon (1984, p. 262) afirma que “[...] as negligências, os desdéns ou liberdades do último Flaubert desconcertaram os críticos; creio ver nelas um símbolo. O homem que com Madame Bovary forjou o romance realista foi também o primeiro a rompê-lo”. Em sua forma de questionar a linguagem, esse romance inacabado é um tipo de experiência que definiu a morte do romance clássico e inaugurou a estrutura do romance adotada por James Joyce, Franz Kafka e Samuel Beckett no século XX (ASSOUN et al., 1999, p. 27).

Retomando a reflexão anterior, Biasi (2011, p. 519-520) afirma que, após a morte do tio, em maio de 1880, a pedido de Caroline Comanville, sobrinha de Gustave Flaubert, a obra Bouvard e Pécuchet (1881) foi organizada parcialmente e publicada por Guy Maupassant (1850-1893), pupilo e amigo íntimo do escritor, em 1881. Posteriormente ao lançamento, as temidas reações começaram surgir. O projeto foi mal compreendido pelo público e considerado o mais criticado da carreira do autor; mesmo os amigos mais próximos não conseguiram encontrar maneiras e argumentos consistentes em defender uma narrativa tão perturbadora e irônica. Como esperado, ele já previa essa má recepção de sua última obra: “Que ele seja pouco compreendido,

pouco me importa, contanto que me agrade... e depois a um pequeno número.”105

(Flaubert a Roger des Genettes, 10 de novembro de 1877). Entretanto, apenas no século XX a narrativa começaria a fazer mais sentido: Bouvard e Pécuchet (1881) inaugura uma nova abordagem do romance, composta de trama mental, dramatização cômica de questões abstratas, juntamente a uma nova atitude literária de natureza paradoxal, tornando-se, em grande escala, um trabalho ainda em busca de seu público.

Para compor o romance, foram necessários anos dedicados à pesquisa e à catalogação de dados. Essa característica do escritor assume uma posição extrema nessa obra, que difere das outras que ele compôs devido à apropriação de ideias alheias, isto é, à utilização de conceitos de outros autores em sua narrativa sem omitir a autoria, para criar uma estética fragmentária, além da negatividade de elementos da literatura e dos conceitos científicos. A posição do autor é ironizada: quem afinal escreve a narrativa, sendo as ideias apresentadas nesse espaço emprestadas e recontextualizadas no ambiente da prosa?

Para responder tal indagação, analisaremos os conceitos que Flaubert antecipa em Bouvard e Pécuchet (1881): os processos estéticos da colagem e da transgressão oriundos do início do século XX, mais precisamente nas vanguardas europeias. Não pretendemos abordar todos os movimentos que surgiram na época, mas sim dar destaque, referente ao campo das artes plásticas, à manifestação cubista e, logo em seguida, ao movimento dadaísta, por serem as estéticas elegidas nesta tese para elucidar e comprovar os elementos que Flaubert antecipa em suas obras, mais especificamente em sua obra inacabada, que seria a síntese e a denúncia de um século de acúmulos de fracassos e enganos, criando uma estética fragmentária e contemporânea. Com a referida última obra, o escritor assume de vez a sua contemporaneidade estética, como Agamben define: “[...] o mundo antigo no seu fim se volta, para se reencontrar, aos primórdios; a vanguarda, que se extraviou no tempo, segue o primitivo e o arcaico” (AGAMBEN, 2009, p. 70). Flaubert, assim, em tal livro, acessa a origem, traz para o presente e o transcende para o futuro.

Embora o escritor não tenha pertencido ao século XX e não tenha tido nenhuma ligação direta com as estéticas mencionadas, mostraremos, no decorrer do capítulo, que Gustave Flaubert traz, em Bouvard e Pécuchet (1881), as técnicas da colagem e da

105 “Qu’il soit peu compris, peu m’importe pourvu qu’il me plaise à moi… et à un petit nombre ensuite”.

Carta de Flaubert a Roger des Genettes, 10 de novembro de 1877. Disponível em: <https://flaubert.univ- rouen.fr/correspondance/conard/lettres/77d.html>. Acesso em: 05 mai. 2019.

negatividade com antecedência as esses movimentos artísticos, isto é, mostraremos que essa concepção já havia sido anunciada no século anterior pelo escritor na literatura.

Flaubert polemizou com sua última obra, tendo certa dimensão da técnica precursora que utilizara na prosa do século XIX, que posteriormente daria suporte a futuros escritores modernos. No entanto, não queremos sublimar a importância da poesia simbolista e das técnicas adotadas anteriormente pelos impressionistas, que foram os precursores da fragmentação, da justaposição e da concepção de um novo espaço artístico. Almejamos mostrar que Flaubert antecipou processos estéticos significativos na prosa do século XIX que serão compreendidos depois de certo tempo no século vindouro. A seguir, faremos um percurso pictórico para que possamos compreender com maiores detalhes a evolução artística trazida pelos impressionistas, culminando nas vanguardas, especificamente no cubismo e no dadaísmo, para, logo em seguida, fazermos um diálogo comparativo destas com a obra Bouvard e Pécuchet (1881).

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