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5. Activate the OPEN button

As meninas passam longo tempo do dia cuidando de seus irmãos menores. Carregando as crianças no colo apoiadas na região da bacia, levando irmãos em carrinhos de bebê, junto com as mulheres mais velhas tirando piolho dos pequeninos, ou olhando-as enquanto ficam na cabana central, todas estas tarefas também passam a ser atividades realizadas de maneira lúdica.

Mais uma vez, conforme salientado anteriormente, cuidar não significa necessariamente paparicar. Quando estavam com crianças no colo, as meninas não deixavam de buscar a proximidade com seus colegas de brincadeira, principalmente na cabana central da aldeia.

Anda com bebê no colo, balançando-o para os lados. Caminha pela área de terra em frente à cabana. Olha as meninas que jogam peteca no interior da cabana. Anda para próximo da cabana e pega com a outra mão o carrinho de bebê que está com outra criança. É repreendida pela garota que está com o carrinho. Solta o carrinho. Caminha até o tanque de lavar roupas da casa mais próxima. Fala com uma garota que passa correndo. Continua caminhando na direção de sua casa, onde algumas mulheres adultas estão em volta de uma fogueira. Dá o bebê para uma mulher adulta e senta-se entre eles. Fica mexendo nas unhas (limpando?). Recebe de volta o bebê da mulher e fica com ele no colo. (Jéssica, 12 anos).

Quando as crianças com bebês se juntavam a algum grupo, as crianças de colo eram, elas próprias, parte das brincadeiras das outras crianças. Suas reações ao brincar das outras crianças motivavam grande diversão. Em alguns momentos estas reações podiam ser provocadas pelas outras crianças fazendo cócegas, tentando fazê-las dar risada, cutucando suas cabeças, tentando irritá-las, tentando fazê-las segurar algum objeto, etc.

Em outras ocasiões, a reação do bebê podia ser indireta, fruto da atividade da criança que estava cuidando dela, que corria, pulava, ou balançava o bebê. Assim, às vezes, o bebê poderia regurgitar algum alimento, chorar ou sorrir pela agitação, emitir sons como tentativas de falar. Ao perceberem estas ocorrências as crianças comentavam umas com as outras, dando risada e divertindo-se com o bebê, ainda que ao nosso olhar o mesmo não estivesse propriamente brincando.

Outra diversão das crianças era colocar a criança em posição ereta e, segurando-a pelas mãos ou axilas, fazê-la caminhar até determinado ponto, dando passinhos de pé. Apesar de esporadicamente assistir meninos cuidando de crianças menores, esta era uma atividade predominantemente feminina, o que se refletiu, evidentemente no padrão de gênero nesta brincadeira. Eram as meninas quem brincavam de fazer as crianças menores andarem.

Engatinha ao lado de Camila. Senta no chão. Ajoelha. Vai ajoelhada até Camila, que está engatinhando. Ajoelha ao seu lado. Deita no chão. Levanta e pega Camila pelas axilas. Põe Camila de pé. Pega na mão de Camila e a faz andar ao seu lado. Pega Camila pelas axilas. Coloca-a em pé novamente. Solta-a no chão e sai correndo na direção de outras meninas na casa mais próxima. Pula com as meninas. Brinca com água no tanque de lavar roupas. (Alice, 06 anos).

As meninas costumavam brincar assim sozinhas com a criança menor ou em pares, quando duas meninas seguravam conjuntamente um bebê para fazê-lo andar. Quando estavam sozinhas, na medida em que levantavam a criança menor e a equilibravam na posição ereta, conversavam com ela, dando orientações, comandos e incentivos, brincando e ao mesmo tempo chamando a criança para o exercício da caminhada.

Quando em duplas, estes diálogos também aconteciam, sendo acompanhados por diálogos entre as parceiras de brincadeira, que comentavam o desempenho da criança menor, suas quedas, suas expressões faciais, dando risadas e propondo situações, locais a serem alcançados e caminhos a serem feitos.

Pega Camila do chão e levanta pelas axilas. Coloca-a de pé. Leva ela com passinhos até Maira, que está a dois metros. Segura em uma mão de Camila e Maira em outra. Andam até a beira da cabana central. Fala com Maira e solta a mão de Camila. Pega Camila no colo e dá para Maira. Pega Camila (que estava chorando) de volta do colo de Maira. Segura Camila pelas axilas, por trás de seu corpo. Leva-a em pé andando até um dos bancos no canto da cabana. Senta no banco. Pega Camila. Carrega até Maira e sai correndo (Maiara, 09 anos).

Outra forma de relação com os bebês se dava quando estes estavam em carrinhos de bebê (assim como andadores, ainda que em menor escala), o que possibilitava

certa mobilidade das crianças que cuidavam delas. Estes carrinhos tornavam-se rapidamente mais uma base para brincadeiras, chamando atenção por suas possibilidades lúdicas já que possuíam elementos atrativos como rodas, cores, peças móveis coloridas ou pontos para subir e pendurar.

Em primeiro lugar as próprias crianças que conduziam estes carrinhos poderiam fazê-lo de maneira lúdica, no que eram acompanhadas por outras que se aproximavam, incluindo também meninos.

Empurra o carrinho de bebê. Gira com o carrinho, empurrando-o. Dá a volta no carrinho. Olha embaixo do carrinho. Volta para trás e empurra o carrinho em círculos (seu irmão, Anderson, chega e toma o carrinho). Cruza os braços. Olha na direção do carrinho. Pega novamente no carrinho. Segue seu irmão que empurra o carrinho, dando voltas. Vai até a frente do carrinho. Fica olhando para o bebê. Dá a volta no carrinho e tenta empurrá-lo por baixo. Para. Dá a volta novamente e mexe na rodinha da frente. Dá a volta e empurra-o por trás até sua irmã. Larga o carrinho. Dá a volta. Põe o pé na rodinha da frente. Dá a volta. Olha para o bebê. Olha para trás. (Juliane, 09 anos)

Brincar com partes específicas dos carrinhos de bebê ou interagir com o bebê que nele estivesse também são as brincadeiras muito apreciadas nestas ocasiões.

Está sentado no chão, sob sol, em frente ao carrinho de bebê. Segura o apoio de pé do carrinho. Levanta o apoio para o pé e solta, deixando bater na estrutura do carrinho. Põe o pé na rodinha, ainda sentado no chão. Levanta o apoio de pé e solta deixando bater. Vira e levanta-se. Fica ao lado do carrinho. Tenta engatinhar. Olha para mim. Outra menina chega, pega no carrinho e leva o bebê embora. (Karai, 06 anos).

O cuidado com as crianças menores é mais um exemplo da capacidade das crianças de serem atores no processo de socialização de seus pares. Ainda que a solicitação dos adultos seja por cuidado das crianças (no sentido de preservação de riscos maiores), a forma das meninas atenderem esta demanda é lúdica e interativa por sua própria determinação, bem como os conteúdos destas brincadeiras são decisões das crianças.

Ao brincarem de andar com seus irmãos menores, as meninas vão além do simples cuidado, contribuindo para o seu desenvolvimento motor e cognitivo. Ampliam os

relacionamentos afetivos entre o grupo, na medida em que se relacionam com os mais novos de maneira divertida e separada dos adultos, mesmo em um momento demarcado pela obrigação.

Cabe salientar, também, mais uma vez o aspecto cultural de mais esta manifestação do brincar. Mesmo sendo uma atividade motora, pensamos que esta brincadeira também está relacionada aos significados e representações que são elaborados e compartilhados pelas crianças no desenvolvimento de sua cultura lúdica.

Assim, é necessário que as meninas avaliem e desenvolvam certos critérios para definir se o bebê sob seu cuidado já pode ser alvo de suas brincadeiras. Certamente, esta avaliação passa por reflexões acerca de sua realidade social, das informações obtidas formal ou informalmente dos adultos e das próprias elaborações das crianças acerca das noções culturais de pessoa, corpo e desenvolvimento.

Quando pensamos no caso Guarani em que, conforme descrito acima, a noção de pessoa passa pela idéia do sujeito que nasce com sua subjetividade pronta, sendo o momento mais adequado para a revelação ritual de seu “eu” (batismo) justamente a fase ligada ao início do caminhar, podemos pensar como esta brincadeira esta relacionada e repercute nas reflexões das crianças acerca da pessoa Guarani como categoria social.

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