CHAPITRE V : LES PRINCIPAUX CYCLES GEOCHIMIQUES
5.2. Cycle de l'azote
5.2.4. Action de l'homme sur le cycle de l'azote
Durante o exame de historiografias e bibliografias sobre a cidade de São Paulo, percebemos que a história e o desenvolvimento da Lapa paulistana não se confundem, mas se integram à história de São Paulo. Nessa perspectiva, o início da trajetória da Corporação Musical Operária da Lapa só pode ser compreendido a partir das histórias do bairro, da imigração, do movimento operário e das ferrovias.
A Lapa paulistana – hoje predominantemente comercial, outrora operária e antes agrária – teve seu nascimento durante o povoamento de São Paulo, quando ainda era São Paulo de Piratininga. O lugar era chamado pelos índios locais de Emboaçava (lugar por onde se passa). A região “[...] situava-se no ângulo formado pela confluência dos rios Tietê e Pinheiros, nas imediações da atual ponte de ligação Lapa e Vila dos Remédios” (SANTOS, 1980, p. 17).
A então paragem de Emboaçava, no século XVI, se limitava com os campos de Piratininga (altura do Pacaembu), Aldeia de Pinheiros, Jaraguá (que compreendia Pirituba e Freguesia do Ó) e campos de Carapicuíba na altura do município de Osasco. O povoamento disperso, com sítios e fazendas, se fez lentamente a partir da construção de uma “fortaleza” para a defesa da Vila de São Paulo, situada além do rio Pinheiros, em 1590 (SEGATTO, 1988: 9).
Até meados do século XVIII, fim da hegemonia jesuítica, a localidade era povoada em sua maioria por índios, escravos, portugueses, bandeirantes e, evidentemente, pela Companhia de Jesus, que como parte do processo de colonização recebeu também, assim como os colonos, terras junto ao rio Pinheiros. Como condição para manter a posse dessas terras, os jesuítas deviam realizar uma missa anual a Nossa Senhora da Lapa11. Com isso, o lugar passou a ser conhecido e chamado de Fazendinha da Lapa. Com a implantação da produção de cana de açúcar, todo o movimento das tropas da rota interior São Paulo, passava pela localidade e necessitava de pouso; “[...] os ranchos, com funções diversas, [...] antes eram simples pousadas, deveriam, então, satisfazer as solicitações das tropas, especialmente das mercadorias transportadas, pois a principal carga era representada pelo açúcar [...]”12.
A partir de 1800, enquanto os tropeiros iam e vinham, Emboaçava já era conhecida como Lapa pela população local. Foi então que um elemento integrante da Segunda Revolução
11 Ibidem, p. 26. 12 Ibidem, p. 32.
Industrial chegaria expandindo a demografia de São Paulo e transformando definitivamente a região: a Estrada de Ferro. Duas linhas ferroviárias foram responsáveis pela transformação de uma Emboaçava agrária numa Lapa operária: A São Paulo Railway Company, apelidada de “A Inglesa”, primeira ferrovia da então província de São Paulo, inaugurada em 1867 (SAES, 1981), posteriormente conhecida como Estrada de Ferro Santos Jundiaí e atualmente parte das Linhas 7 Rubi e 10 Turquesa da CPTM. Além desta, também a Companhia Estrada de Ferro Sorocabana, fundada em 1871, parte da atual Linha 8 Diamante da CPTM. Ambas as linhas possuem estações Lapa.
Figura 1: Mapa Atual da Rede Ferroviária da Grande São Paulo administrada pela CPTM. Em destaque estações Lapa das linhas 7 e 8 (site da CPTM, acesso em junho/2017).
Estas ferrovias e outras, que não passavam pela região da Lapa e sim pelo interior de São Paulo, como a Mogiana (1872), a Paulista (Companhia Paulista de Estradas de Ferro, de 1868) e a Ituana (1871), foram os principais transportes na província de São Paulo para o café; produto que a partir de sua expansão, trouxe uma nova elite social no decorrer do Império: os Barões do Café. Ora, podemos questionar: qual a relação entre as elites cafeeiras, o café, a ferrovia, a Lapa paulistana e a Banda da Lapa? Imigração e movimento operário.
Existentes até a Primeira República e integrando a chamada “política do café com leite”, essas pequenas oligarquias e grandes proprietárias de escravos, apesar da contradição de controlar e exercer influência no país através de seu poder econômico, ostentando riqueza e alargando as diferenças, financiaram a construção de ferrovias e estradas e patrocinaram o traslado de imigrantes para mão-de-obra em suas lavouras, elementos que impulsionaram significativamente a urbanização e o desenvolvimento da Grande São Paulo. Affonso d'Escragnolle Taunay (2004), ao mostrar a chegada de imigrantes através da SPR, insinua o contexto problemático da urbanização da cidade em razão do “problema” da serra, as adversidades na construção da ferrovia na serra, o transporte do café pela ferrovia e o desenvolvimento econômico por meio do café:
Durante os primeiros quatro e meio decênios da era imperial o grande empecilho imposto ao progresso da cidade de São Paulo proviera do agravo da transposição da serra de Paranapiacaba. Mas a remoção do garrote asfixiador do progresso, por intermédio dos trilhos da São Paulo Railway, só se tornou possível em virtude de irresistível empuxo econômico. E este veio do café [...]. Com a abertura do tráfego da São Paulo Railway começaram a Província e sua capital a receber a alusão de já sensíveis contingentes alienígenas (TAUNAY, 2004, p. 324).
Notamos a partir daí que as primeiras formações operárias no Brasil, mais especificamente em São Paulo, formaram-se a partir de uma necessidade da aristocracia do café. Ainda que a Lei Eusébio de Queirós13 de 1850 fosse violada constantemente, alguns fatores práticos cooperaram significantemente para tornar insustentável e custoso aos Barões manter a escravidão: o ativismo político empreendido nas diversas insurgências, movimentos e lutas sociais da época, a intensa campanha abolicionista e, evidentemente, a inevitável pressão externa. Como na Europa o sistema de produção das fábricas já estava sendo substituído por máquinas, amplo desemprego foi promovido entre os trabalhadores (COTRIM, 2002), daí o desembarque de “sensíveis contingentes alienígenas”14 em Santos a partir de meados do século
XIX.
Espanhóis, franceses, lituanos, poloneses, ingleses especializados em ferrovia e sobretudo italianos, entre outros imigrantes, ao iniciarem suas jornadas de trabalho na capital paulista, ajudaram a fundar ligas de ofício, associações mutualistas, associações recreativas, cooperativas, sindicatos, imprensa operária e jornais anarquistas. Percebemos ao examinar
13 Lei Eusébio de Queirós. Lei nº 581 de 04 de setembro de 1850. Promulgada pelo governo imperial do segundo
reinado, a lei proibia terminantemente o tráfico de escravos para o Brasil. O nome da lei faz referência ao seu autor, o Ministro da Justiça Eusébio de Queirós Coutinho Matoso da Câmara.
alguns exemplares de periódicos da época que o surgimento de ligas, além de clubes de lazer, nos bairros do Brás, Belém, Mooca e Lapa em fins do século XIX e início do século XX, foi um modelo de organização e conscientização entre os trabalhadores. Esses elementos convergiram substancialmente para o aparecimento de conjuntos musicais como bandas15 civis formadas por operários. Durante o manuseio desses periódicos16, encontramos anúncios das atuações dessas bandas. Muitas delas pertenciam a associações mutualistas e recreativas. Além de preencherem a música de suas festas, comemorações e também desfiles e bailes, esses grupos colaboravam intensamente em passeatas, protestos e greves.
Figura 2: Jornal A Lanterna – SP – 19/10/1912 - Edição 161, p. 3.
A organização social e cultural operária foi um aspecto relevante para a formação de bandas e grupos musicais entre trabalhadores. Segundo Francisco Foot Hardman (2001), tal particularidade não foi apenas um fenômeno isolado ou “restrito às manifestações políticas [...], foi um aspecto geral e inerente à formação da classe” (HARDMAN, 2002, p. 369). Podemos dizer nesse sentido, que o aparecimento de bandas durante o movimento operário em São Paulo, além de prática de luta e manifestação das categorias, era, também, prática de entretenimento e lazer. E foi nesse ínterim, durante os movimentos abolicionistas, início da República, imigração, nascimento do trabalho assalariado e formação de classes, que a Corporação Musical
15 Dentre as muitas bandas de música operárias que se formaram e se destacaram durante a imigração e o
movimento operário em São Paulo destacam-se: Banda Musical União dos Operários, Corporação Musical União Operária, Banda de Música da União Internacional do Brás, Banda Musical Lyra Operária, Banda Musical Lyra da Serra, Corporação Musical Luso-Brasileira, Banda da Sociedade Popular de Beneficência, Banda Musical Humanitária, Banda União Operária da Mooca, Banda Bianca dela Mooca, Sociedade Recreativa Musical União da Mooca, Banda Musical Lyra da Mooca, Banda Bersaglieri do Bom Retiro, Banda Giuseppe Verdi, Corporação Musical Lyra de Euterpe, entre outras.
16 A Lanterna, A Vanguarda, O Combate, Fanfulla, O Saci, Il Paschino, Il Moscone, além dos jornais O Comércio
de São Paulo, A Província de São Paulo, O Estado de São Paulo, A Gazeta, O Correio de São Paulo, O Correio Paulistano, entre outros.
Operária da Lapa surgiu, tanto para suprir demandas operárias como para ser um espaço de socialização dos próprios integrantes.
Já na própria Lapa, as condições que a levaram a se definir como bairro operário durante o século XIX estão associadas diretamente aos mesmos elementos: aos barões, ao café, às ferrovias SPR e Sorocabana, aos imigrantes, ao operariado e à indústria. Várias oficinas, tecelagens e companhias como a Vidraria Santa Marina, atual Saint Gobain, e os frigoríficos Swift e Wilson se estabeleceriam na região. O bonde que passava pela Rua Guaicurus também cooperou para que o comércio se desenvolvesse na região. Ao avançar no século XX, a Lapa passou por um processo de urbanização intenso. Deixou de ser puramente industrial e dividiu- se em extensas áreas residenciais conhecidas como Alto da Lapa, City Lapa, Parque da Lapa, Vila Romana, Vila Anastácio, Vila Ipojuca, Bela Aliança, além de Vila Leopoldina e Vila Hamburguesa. Atualmente essas áreas compreendem prédios, sobrados, escolas, hospitais e bares. Já a conhecida Lapa de Baixo, que fica do outro lado da linha do trem, antes residência de operários, permaneceu abrigando grandes galpões, além da sede da TV Cultura/Fundação Padre Anchieta e a superintendência da Polícia Federal. O “centro” da Lapa, onde se localizam o Mercado Municipal, as estações de trem, o terminal de ônibus, o shopping center e a Estação Ciência, permaneceu estritamente comercial.
Várias lojas de departamento e de vestuário, junto a inúmeros estabelecimentos do setor terciário como bancos, escritórios de advocacia, administração e contabilidade, além de cartórios, despachantes, igrejas, escolas e salões de beleza, podem ser vistos nessa região. Algumas construções antigas também podem ser vistas e visitadas, tais como a Casa de Cultura Tendal da Lapa, a própria Estação Ciência, a Igreja Nossa Senhora da Lapa, o prédio do Sesc Pompéia, o prédio da União Fraterna, o Casarão de Henrique Dumont Vilares, a fábrica da Companhia Melhoramentos e a pequena casa da Corporação Musical Operária da Lapa, todas tombadas pela prefeitura de São Paulo.