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A celebração do 100º aniversário da obra "Sagração da Primavera" de Igor Stravinsky foi o mote para o desenvolvimento do projeto, que se constituiu como uma reinterpretação da partitura original desta obra. Com uma duração de 12 sessões, entre janeiro e maio de 2013, contou com a participação de 25 reclusas do EPESCB e 22 músicos do 8º Curso de Formação de Animadores Musicais (CFAM) do Serviço Educativo da Casa da Música.

O CFAM, atualmente na sua 11ª edição, é um curso de formação anual que surgiu para colmatar a falta de preparação de músicos para o desenvolvimento de atividades em comunidade (Casa da Música 2015). Tem a duração de um ano letivo, sendo sobretudo de natureza prática: o trabalho musical é feito nos diversos cenários onde se desenvolvem os diferentes módulos, entre diferentes sensibilidades sociais e processos artísticos diversos. Simultaneamente, o ensemble de formandos do CFAM é o coração de “Sonópolis”, um

espetáculo que assimila várias intervenções comunitárias realizadas ao longo do ano, não só no âmbito do CFAM, mas também de outros projetos levados a cabo pelo Serviço Educativo da Casa da Música (ibid).

Orientado por um painel internacional de formadores, o CFAM procura dotar os formandos de competências associadas à criação musical, improvisação, capacidade de interação com grupos distintos de pessoas, liderança de projetos e trabalho em grupo. Na base do trabalho estão os princípios gerais de: efetivar o envolvimento com grupos de diferentes contextos socioculturais, construir experiências musicais e performativas fortes, formar um ensemble com uma linguagem própria (Casa da Música 2015).

Neste projeto da “Consagração da Primavera”, o segundo módulo do 8º CFAM, os líderes musicais convidados foram Tim Steiner e Samantha Mason, do Reino Unido, ambos experientes músicos na comunidade. Tim Steiner dirige workshops e projetos educacionais criativos desde 1987 em colaboração com orquestras, centros de artes e serviços educativos, além de trabalhar em parecerias com diversas autoridades locais, instituições de caridade e hospitais em projetos financiados pela Youth Music, Creative Partnerships, NESTA (National Endowment for Science, Technology and the Arts) e British Council. Trabalha com diversos

setores da sociedade, incluindo crianças (em contexto escolar e extraescolar), jovens, universidades, festivais, grupos comunitários de diversas etnias e estratos sociais, prisões, instituições de acolhimento de pessoas sem-abrigo e hospitais. É professor no Master em Leadership na Guildhall School of Music and Drama (Londres).

Samantha Mason integrou o “Guildhall Ensemble” na Guildhall School of Music & Drama, um curso de pós-graduação inovador para músicos e performers onde eram exploradas as áreas de improvisação e música colaborativa, liderado por Peter Weigold (esta pós-graduação iria dar origem, mais tarde, ao Master em Leadership na mesma instituição). Desde então, tem liderado vários projetos musicais em todo Reino Unido, especialmente com crianças.

Desenvolveu cinco projetos em contexto prisional, nos últimos anos, sendo esta “Consagração da Primavera” o mais notável.

O trabalho musical desenvolvido neste projeto foi altamente inspirado pela obra original de Stravinsky e pelas circunstâncias históricas em que foi escrita:

Esta performance é inspirada e baseada na Sagração da Primavera de Stravinsky. Explora uma série de temas-chave que preocupavam o compositor naquele momento da sua carreira: a tensão entre o velho e o novo, tradição e inovação, rural e urbano, natureza e máquina.

[...]

A performance contém muitas referências musicais a Stravinsky: o movimento ininterrupto da Dança dos adolescentes, o fluxo das Danças primaveris e a energia tribal da Dança sacrificial. Mas, como Stravinsky, os músicos revolvem as suas próprias tradições populares e trazem as suas idiossincrasias e personalidades para a música; tudo isto acumulam, agitam e põem para fora (Steiner 2013: 19)

Numa análise à essência do trabalho musical é, então, possível identificar 3 aproximações à obra de Stravinsky:

1) trabalho sobre a partitura original de Stravinsky - alguns dos principais temas musicais foram usados para criar novas peças (como o solo de fagote inicial e os temas de “Danse Sacrale” e “Rondes Printanières”);

2) o uso da música popular – na “Consagração da Primavera” a música popular portuguesa foi a base de trabalho de alguns momentos musicais, assim como na “Sagração da

Primavera” Stravinsky usou a música popular russa como material de base para a criação musical;

3) o uso de técnicas de composição semelhantes às de Stravinsky (como politonalidade e poliritmia).

Tendo em conta que, neste projeto, os líderes puderam contar com a participação de 22 músicos com formação especializada, muito do trabalho feito em conjunto com as reclusas partiu de material musical que foi criado e preparado em sessões onde os líderes trabalharam só com o ensemble de formandos do 8º CFAM. A partir de excertos da “Sagração da

Primavera” ou de pequenos motivos rítmicos e melódicos (também inspirados em secções da obra original), ensinados ao ensemble pelos dois líderes, o trabalho foi feito de forma a que, quando todo o grupo se juntou, as reclusas já tinham uma base musical sólida na qual se integrar. Foram muito recorrentes as alturas em que os líderes deram tarefas específicas aos músicos do CFAM para serem depois trabalhadas nas sessões com as reclusas (trabalhar um determinado motivo rítmico em instrumentos de percussão, ensinar linhas melódicas cantadas ou trabalhar temas de música popular portuguesa escolhidos pelas reclusas).

Dada a dimensão total do grupo (quase 50 pessoas), foram frequentes as alturas em que Tim Steiner e Sam Mason o dividiram em 3 equipas, compostas por uma mistura de músicos do CFAM e reclusas, dando a cada uma delas tarefas musicais objetivas (de criação de material novo ou de aperfeiçoamento de determinadas secções musicais). Muito do material criado por cada equipa foi, depois, usado para construir peças musicais para todo o grupo.

A “Consagração da Primavera” foi apresentada na Sala Suggia da Casa da Música no dia 4 de maio de 2013. No mesmo palco atuou, depois, a Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música, interpretando na segunda parte do mesmo concerto a “Sagração da Primavera” na versão original.

Há poucas imagens tão impressionantes como a visão de um pássaro em voo através das grades da janela de uma prisão. Os músicos, é claro, são cheios de vida e energia e contribuem para um ensemble rico na sua diversidade de idades, experiência, gosto e aspirações. A música faz o grupo, com um único objectivo comum, mas proporciona igualmente a simples partilha de um conjunto de vozes diversas e individuais. A performance é o resultado de tudo isto. Tal como na Sagração, surgem por vezes personalidades individuais e frágeis que são livres de se expressarem ao seu próprio modo. Outras vezes,

são constrangidas e obrigadas a conformarem-se com um único movimento em esquadria. Outras, ainda, contribuem para uma reflexão sobre a

complexidade e o absurdo da cultura contemporânea. [...] Esta música É [maiúscula, negrito e itálico originais] a prisão, com todo o seu caos e a sua ordem, beleza e fealdade, fragilidade e força. É aberta, fechada e temporária. (Steiner 2013:19)

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