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II – Notes relatives aux postes de bilan

II- 1) Actif immobilisé

preconceito

Não é de hoje que Alagoas é vista como poderosa e violenta. Quem ler livros da história mais antiga vai ver que só os coronéis e as famílias dos ricos e os políticos é que tinham vez. Pobre sempre foi discriminado. Isso não é de hoje, é do tempo dos meus bisavós ou tataravós, sei lá... do tempo dos escravos e até hoje (Professora Ágata).

Acho que as pessoas mais simples nunca tiveram lugar na sociedade alagoana. Nem no passado. Alagoas já nasceu cheia de preconceito com quem é pobre, com quem é preto. Veja, só se formavam os filhos dos ricos. Hoje é mais fácil, mas o pobre mesmo,o filho do empregado não pode se

formar. Repare nos livros e jornais daquela época quem eram os políticos do passado. Tudo filho de gente poderosa (Professora Turmalina).

Durante séculos o Estado vem apresentando um espaço de sobrevivência de grupos notadamente atrelados às oligarquias rurais e ao conservadorismo. As bases da Economia implantada nos primórdios das Alagoas eram o trabalho escravo e o latifúndio, e essas bases vão definir ou expressar a organização social, a cultura, a forma de pensar, que por muitos tempo, justificarão o modo de agir, de se relacionar socialmente e de fazer política em Alagoas. O latifúndio e o engenho, além de darem riqueza, asseguravam prestígio e poder ao seu proprietário. O poder advindo do engenho perpassa por toda vida política, econômica e social de Alagoas. Segundo a perspectiva hegemônica na literatura especializada, o modelo daquela sociedade é a organização familiar patriarcal, hierárquica, em que as relações pessoais se confundem com sistemas impessoais, e as relações domésticas com o Estado. Conforme afirma Verçosa (1996),

se essa característica não é exclusiva de Alagoas, contudo, aqui, parece ser mais acentuada que na maioria das outras regiões brasileiras, devido ao caráter preeminente, de quase exclusividade, poderíamos dizer, que teve no açúcar e, junto com ele, o engenho, ao longo de toda história econômica nas Alagoas”,

para arrematar adiante, que,

seguindo esse estilo é que irão se aglutinar os elementos constitutivos da sociedade alagoana em formação, criando-se, desenvolvendo-se e se expandindo as “famílias do açúcar” nascidas em engenhos, dando origem à civilização do litoral, molemente, docemente, recostada sobre o açúcar”

Assim, as professoras entrevistadas ao expressarem que em Alagoas prevalecem os privilégios dos segmentos econômicos mais favorecidos e que não existem espaços eqüitativos de participação social, reafirmam nas suas representações aquilo que a historiografia alagoana contemporânea vem afirmando.

Da mesma forma, o relato abaixo, nos remete aos aspectos relacionados ao ethos social de Alagoas que vem sendo analisado por alguns historiadores atuais. A professora Turquesa, faz referência a essa segmentação e primazia dos setores dominantes em relação à maioria da população:

Existe muita discriminação em Alagoas. Tudo é bem separadinho. A camada mais favorecida nem chega perto dos que não tem. A própria camada baixa também não quer se aproximar dos mais ricos, ela se afasta. Há uma auto- discriminação. O pobre tem um complexo de inferioridade muito grande, isso já faz parte da formação alagoana... isso é muito visível. Por exemplo, quando se tem uma proposta de melhoria urbana, primeiro vão aos lugares que estão melhorados, os bairros da elite, né ... e por último dizem que vão para os piorados... e quando termina a melhorada, aí falta recurso para a piorada.... aí vem a desculpa que não fez por falta de recurso (Professora Turquesa).

A narrativa acima deixa transparecer, como na prática representacional, vem sendo construída a clivagem do ego e uma identidade formada com interiorização do agressor, problemática que será analisada em sua particularidade mais adiante.

Outros relatos revelados nas entrevistas que vem corroborar a idéia da estratificação fortemente hierárquica, de que “é tudo bem separadinho”, da rígida segmentação existente em Alagoas é quando as professoras expressam uma certa indignação pelo fato de a escola estar localizada num bairro considerado de elite:

É muito estranho ter aqui alunos da Ponta Verde. O problema é que a escola é pública mas, ta na Ponta Verde. Você já viu isso? Uma escola pública na Ponta Verde? Não é uma doidice? (Professora Granada).

Os daqui, de bairro elitizado, não queriam essa escola aqui, não, porque essa escola começou quando a Ponta Verde não era PONTA VERDE. Tanto que quando o bairro cresceu, foi ficando chique, ela fechou e passou um bom tempo fechada, só servindo de almoxarifado, aí, depois de muito tempo, reformaram e reabriram, isso tem uns doze anos. Mas abriu contra a vontade dos moradores. Eles têm suas razões porque aqui não é lugar pra aluno da escola pública, aqui é um lugar nobre (Professora Safira).

A gente que é professora da escola pública sofre muito, vivencia coisas absurdas. A gente convive com povo desse submundo. Mas eles tem som 3 em 1... não é um absurdo? Esses alunos são pobrezinhos, mas vá olhar na casa deles que aposto que encontra som. E ainda estudam aqui na Ponta Verde que não é lugar para eles. (Professora Turmalina).

As professoras internalizam a idéia de que deva existir uma escola para os pobres e outra para os ricos, expressam assim uma naturalização da desigualdade social. É curioso perceber como as permanências estão sempre se sobrepondo em relação a qualquer possibilidade de rupturas, de quebra da ordem. E a ordem tácita é que exista a separação, que existam ricos de um lado e pobres de outro, que existam os que mandam e os que obedecem, que existam escolas nos bairros de elite para os filhos das famílias abastadas e escolas nos bairros mais afastados para os filhos da pobreza, enfim, permanecem reafirmadas as características da rígida hierarquização social do sistema colonial, que não cessou com o tempo, mas pelo contrário estrutura as representações e a própria prática social, a vida dos sujeitos.

De sociedade colonial, para a democrática, houve mudanças no modo de produção, nas classes sociais e relações, que de escravos, passaram a vender sua força de trabalho, mas ficou intacta a preservação e acirramento das desigualdades sociais, mesmo classificando-se de democrática essa sociedade. Pior ainda, o tempo e a história serviram para entalhar com a dor e a morte na memória coletiva, que melhor é não se insurgir contra o poder local, mas reafirmá- lo, interiorizando e danificando o ego de cada sujeito despossuído de poder.

Em Alagoas se uma pessoa for qualificada talvez tenha emprego, caso contrário vai ter que arranjar um padrinho para sobreviver, porque aqui tudo funciona na base do padrinho. Vai ter também muito cuidado com a segurança que só existe para os poderosos, quem é pobre fica ao Deus dará, e ninguém muda essa situação. Sempre foi assim, desde o começo da história do nosso Estado. (Professora Ametista).

Aqui tem muita discriminação. A camada favorecida fica longe da outra camada. O pobre tem um complexo de inferioridade muito grande, ele nem quer se aproximar do rico, não é só o rico que não quer chegar perto do pobre não. Cada um fica na sua, cada macaco no seu galho.

(Professora Ágata).

Alagoas está cheia de preconceito com negro, com pobre... aqui mesmo na escola eu já vi muito... a pessoa nem está consciente ... mas entre dois, um pretinho, um aluno de cor preta, e o outro lourinho, bonitinho... aí, sei lá...o abraço mais aconchegante é no branquinho. Isso acontece muito por aqui. Ah, e quanto mais pobrezinho, aí os outros menos pobre, já separa, vixe... é muita separação. (Professora Lápis-lazúli).

Em Alagoas existe preconceito além da conta... a gente não vai muito longe... eu mesma observo no Shopping... eu não gosto de entrar no Shopping nem nas butiques. Tem lugares aqui que a gente nem deve entrar... eu mesma não gosto. Eu não vou lá... tem lugares que a gente nota que não dá pra gente. Eu não me sinto bem no shopping, aí não vou muito lá. Eu já vi uma coisa, até comentei. Um dia que eu fui lá no Shopping... tinha um grupo de jovenzinhos assim com aparência de pobre e eram morenos, quer dizer, pretinho mesmo... aí o guarda ficou se comunicando pelo equipamento com outro guarda pra avisar.È certo que eles estavam com aquelas bermudas loucas que quando a gente olha acha

estranho. Eles podem até entrar, mas como tem jeito de pobre, aí o outro que não tem pode fazer um mal feito e ninguém olha dessa forma...olhado como bandido é só o pobre. Isso tem muito aqui em Alagoas...não sei se é só aqui, mas sei que aqui é demais e é assim mesmo, a gente não pode fazer nada (Professora Turmalina).

Essas posturas evidenciam uma naturalização do processo de opressão e de discriminação social, numa visão de uma realidade rígida, que banaliza uma espécie de apartheid social no qual se devem resguardar os espaços do pobre e os espaços do rico.

De fato, ao longo da história de Alagoas, a permanência, a política do continuísmo desde os tempos coloniais tem prevalecido. O perfil arcaico, o ethos político conservador, muito mais do que uma herança do passado constituem-se em elementos estruturantes da sociedade alagoana e presença nas mentalidades, nas representações, na cultura, no modo de vida, nas relações institucionais e familiares de um povo que teve sua formação histórica baseada no latifúndio, no familismo, na existência de grandes contradições sociais, no peso de uma oligarquia que nunca abre espaços reais para diversificação da economia, que fecha todos os caminhos para a modernização de uma estrutura política que vem, ano após ano, legitimando o poder de grupos dominantes. Em Alagoas as transformações pelas quais passou a sociedade no Império e na República não representaram alterações substanciais em sua rígida estrutura socioeconômica e política. Muito pelo contrário, esses períodos foram marcados por um modo de vida baseado no clientelismo e no autoritarismo dos detentores do poder. Na realidade, o que sempre aconteceu foi uma adequação dos interesses dessas oligarquias a cada novo regime político que surgiu, de modo que sua essência sempre permaneceu intocada. No máximo elas têm admitido mudar um pouco para as coisas continuarem como sempre foram.

Portanto, são muitos os ruídos que perpassam as representações dos alagoanos e os levam a sentir o peso do olhar do outro contaminado pelo estigma inferiorizante (ALMEIDA, 1999; VERÇOSA, 1997).

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