De acordo com as especificidades do contexto de intervenção e em particular do grupo de jovens participantes, e tendo em conta as questões orientadoras, foram definidos os seguintes objetivos para o projeto:
– Perceber se as práticas de jogo teatral facilitam as interações positivas entre jovens em risco;
-Perceber se a prática do teatro, enquanto área artística centrada no coletivo, facilita a comunicação e promove a aceitação de cada um-
Uma vez que pretendíamos desenvolver um projeto de intervenção, optou-se por um estudo inserido no paradigma socio crítico que, no campo de estudos do comportamento humano, tem permitido abordagens de mudança em questões de interesse social e na organização de grupos, objetivando a resposta das diferentes necessidades (Coutinho, 2011).
Morales (2011, p.107) entende que a perspetiva sócio crítica aproxima ideologia e autorreflexão na “construção compartilhada do conhecimento em um projeto político cujo propósito central é a transformação das relações sociais através da busca e execução de soluções para problemas significativos das comunidades, com base em suas próprias atividades.”
De acordo com Minayo (2000) e Chizzotti (2005), neste paradigma inserem-se processos de pesquisa-ação participativa, que, permitem articular “a produção de conhecimentos, ação educativa e participação numa perspetiva necessariamente transformadora da realidade" (Tozoni-Reis, 2007, p. 113).
O estudo foi desenvolvido recorrendo a uma metodologia qualitativa. De acordo com Bogdan e Biklen (1994) as caraterísticas gerais da metodologia qualitativa são: (i) a fonte direta dos dados é o ambiente natural, sendo o investigador o instrumento principal; (ii) os dados recolhidos são descritivos, sob a forma de palavras ou imagens; (iii) os investigadores focam-se no processo vivido pelos sujeitos e não apenas nos produtos observáveis; (iv) a análise dos dados é predominantemente indutiva e contínua; (v) o significado que os sujeitos dão aos seus atos é fundamental para compreender esses atos.
Em relação ao design, procurou-se desenvolver um processo na lógica da investigação-ação, correspondendo assim à visão e objetivos do paradigma sócio crítico. De acordo com Castro (2012), o interesse pelos processos de investigação- ação (IA) tem vindo a aumentar desde os anos noventa, à semelhança das pedagogias que estimulam a criatividade, o pensamento crítico e o “aprender a aprender”. A IA consiste numa metodologia que procura superar o comum dualismo entre teoria e prática, de acordo com Noffke e Someck (2010), existindo múltiplas aceções, propostas e práticas, o que impossibilita encontrar uma definição única. A mesma indefinição recai sobre a sua origem, frequentemente atribuída a Lewin (1946) que a estudou no campo da psicologia social, mas, de acordo com Tripp, (2005) é “pouco provável que algum dia venhamos a saber quando ou onde teve origem esse método, simplesmente porque as pessoas sempre investigaram a própria prática com a finalidade de melhorá-la” (p.445).
Coutinho et al. (2009) afirmam que esta pode ser entendida como uma família de metodologias de investigação que incluem em simultânea ação (mudança) e investigação (ou compreensão), assente num processo cíclico ou em espiral, que varia
entre ação e reflexão crítica. Coutinho (2009) refere que “o essencial na IA é a exploração reflexiva que o professor faz da sua prática, contribuindo dessa forma não só para a resolução de problemas como também (e principalmente) para a planificação e introdução de alterações nessa mesma prática” (p.360).
Contudo, Castro (2012) refere que:
O facto de não haver bibliografia consensual relativamente à família metodológica em que a IA se insere, sendo que as semelhanças de algumas estratégias da IA com estratégias da Investigação Qualitativa são razões que levam alguns autores a considerar a IA como uma modalidade de Investigação Qualitativa (Cf. Coutinho, 2005). Por outro lado, sendo a IA preferencialmente utilizada em contextos particulares e comunidades específicas, colocam-se questões em torno da validade que emerge desse processo investigacional, indagando-se se produz conhecimento universal, e se permite a construção de uma visão clara e sistemática sobre a matéria em estudo. (Castro, 2012, p.2)
Através do autor acima referido entende-se a existência de dúvidas quanto a categorizar a IA dentro da investigação fundamental/básica, que tem por objetivo aumentar o conhecimento geral, e a aplicada que tem como objetivo produzir resultados que possam ser usados em tomadas de ação ou melhoria de programas.
De acordo com Bogdan e Biklen (1991), a IA “é um tipo de investigação aplicada na qual o investigador se envolve ativamente na causa da investigação [que] consiste na recolha de informações sistemáticas com o objetivo de promover mudanças sociais” (p. 292). Latorre (2003) completa os autores anteriores referindo que “la investigación- acción se puede considerar como un término genérico que hace referencia a una amplia gama de estrategias realizadas para mejorar el sistema educativo y social” (p. 23).
No campo da educação, a IA procura fundamentalmente analisar a realidade educativa específica e incentivar a tomada de decisão dos seus agentes para que ocorra a mudança educativa, implicando “a tomada de consciência de cada um dos intervenientes (individualmente, e do grupo) de que emerge a construção de conhecimento através do confronto e contraste dos significados produzidos pela reflexão” (Castro, 2012, p.3).
De acordo com Coutinho et al. (2009) comentando Latorre, qualquer ato de investigação tem por base formas de recolha de informação, que vão surgindo ao longo da ação, assim, o investigador tem de recolher informação da sua própria ação de investigar ou intervir, objetivando analisar os efeitos da sua prática letiva. O investigador deve ainda analisar de modo sistemático e intencional o seu “olhar”, afim de entender possíveis aspetos acessórios ou redundantes do contexto real que está a estudar, reduzindo todo o processo a um sistema de representação mais claro de analisar, facilitando a fase da reflexão.
Para tal, Latorre (2003, citado em Coutinho et al, 2009) apresenta um conjunto de técnicas/instrumentos de recolha de dados divididos em três categorias:
a) Técnicas baseadas na observação: centradas na perspetiva do investigador, em que este observa de forma direta e presencialmente o fenómeno em estudo;
b) Técnicas baseadas na conversação: centradas na perspetiva dos participantes e enquadram-se nos ambientes de diálogo e de interação;
c) Análise de documentos: centra-se também na perspetiva do investigador e implica uma pesquisa e leitura de documentos escritos que se constituem como uma boa fonte de informação. Estas técnicas e instrumentos podem ainda classificar-se do seguinte modo:
Tabela 1