Depois de comentarmos o contexto 3 na última seção, elencamos aqui as propriedades ou características importantes dos sentidos evocados linguístico-textualmente pela hashtag #SomosTodosMacacos. Tais características constrangem as possibilidades interpretativas do intertexto no corpus. O texto da hashtag #SomosTodosMacacos possui as duas características linguísticas principais seguintes:
a) O uso da primeira pessoa do plural, que instaura um ponto de vista coletivo;
b) O uso do modificador “todos”, que tem como escopo o enunciador coletivo e que, nesse caso, tem a função modalizadora de enfatizar o escopo da coletividade instaurada (todos os membros dessa coletividade) e da predicação a ela atribuída ser
macaco;
A predicação “Somos todos macacos” estabelece uma relação (instaurada pelo uso do verbo SER) entre os elementos da coletividade instaurada, de um lado, que são entidades com traço [+humano] (uma vez que a produção de um enunciado é prototipicamente uma ação humana) e os elementos [-humano] da categoria MACACO instaurada na predicação.
A predicação “Somos todos macacos” consiste, assim como o ato de chamar uma pessoa negra de macaco, em uma construção figurativa, uma vez que os atores sociais em questão [+ humanos] não são (literalmente) macacos. No entanto, essa predicação, não foi necessariamente utilizada por NJ de forma explicitamente alinhada ao racismo dessa representação. Embora utilize e evoque a representação do negro como macaco, o alinhamento construído por NJ, ao evocar essa representação, é explicitada inicialmente do ponto de vista negro, indicado pelo uso da primeira pessoa do plural na postagem I. Trata-se da construção local de um desalinhamento ao racismo, também indicado pelo distanciamento em relação às pessoas racistas, ao endereçar parte do seu texto de forma a se opor aos que categoriza como “bando de racistas”.
De outra forma, essa predicação pode indicar também, como vimos, a descrição figurativa não racista (porque historicamente contextualizada pela normatividade não racista) do enunciador coletivo. Nesse caso, trata-se de uma descrição metonímica, em que ser
macaco quer dizer vir dos macacos (evolutivamente, de primatas não humanos). Essa
descrição pode ter implicações normativas herdadas do intertexto “Somos todos iguais”, como vimos, e baseadas nesse sentido de compartilhamento da mesma origem evolutiva e, portanto, da mesma espécie biológica. Nesse caso, em uma perspectiva igualitarista, uma normatividade herdada desses enunciadores é o tabu sobre a tematização ou descrição do racismo e da diferença racial, uma vez que isso possa ser apontado como a construção da não igualdade, ou, em uma perspectiva diferencialista, a implicação é a norma de ser antirracista e lutar pela igualdade racial, que não é, no entanto, derivada automaticamente do “igual” pertencimento à mesma espécie.
Além disso, a hashtag pode também ter como sentido mais pragmático ou contextualizado herdado dos intertextos Somos Todos N, como vimos, a solidariedade por uma opressão sofrida por uma pessoa ou coletividade, em que o verbo ser, nesse caso, indica a empatia entre o locutor do texto corrente e a vítima da opressão expressa pelo nome N. Nesse caso, o igualitarismo pode ser o fundamento dessa empatia, nos casos de desigualdade: deveríamos ser todos iguais, por isso me solidarizo com essa vítima da desigualdade. A colaboração não apenas da estrutura mais gramatical do enunciado, mas também o preenchedor léxico-semântico do nome N (“macaco”), colaboram para a potencial evocação
da representação do negro como macaco e de doutrinas como o evolucionismo, o racismo científico e o darwinismo social.
O sentido do intertexto “Somos todos macacos” não é, portanto, evidente, embora possamos delimitar alguns. Diferentes interpretações desse intertexto, mais ou menos relacionadas a esses sentidos esperados podem levar a determinados usos de formas intertextuais, por exemplo. Assim, as formas intertextuais podem indicar determinados sentidos desse intertexto, mais ou menos ligados ao igualitarismo.
Considerando a predicação verbal Somos todos N (reproduzida pelo texto da
hashtag #SomosTodosMacacos) como compartilhada por uma coletividade negra ou não,
temos, como interpretações esperadas do intertexto #SomosTodosMacacos (como ato textual/discursivo de descrição ou normatização de práticas de sermos todos iguais) nesses artigos aquelas relacionadas à responsividade ao enunciador Igualdade Social/Racial (quadro 2 a seguir).
O sentido racista não está previsto, uma vez que não há interpretação racista do intertexto “Somos todos iguais”, embora haja atores sociais que apontam o igualitarismo como envelope racista “sutil”. O intertexto “Somos todos macacos”, por sua vez, não apenas pode ser apontado como racista, por evocar o sentido de igualdade social, como também pode aderir ao frame Evolucionismo.
Quadro 2 (Des)alinhamentos, atos textuais descritivos e normativos e práticas sociais associadas ao igualitarismo e ao diferencialismo Não racismo (Des)alinhamentos à #SomosTodosMacaco s Ato textual/discursiv o descritivo Ato textual/discursiv o normativo Práticas sociais esperadas Igualitarismo Alinhamento mais
genérico Não se aplica
Não cometer racismo Punições ao racista Alinhamento menos genérico Descrição da realidade social contemporânea não racista Tabu da descrição ou evocação da diferença racial, da desigualdade racial e/ou do racismo; Não ser diferencialista Contraposições à descrição ou evocação da diferença racial, da desigualdade racial e/ou do racismo Diferencialism o Desalinhamento Descrição da realidade social contemporânea racista; Descrição do racismo Não cometer racismo; Não ser igualitarista Punições ao racista; Contraposições ao tabu das diferenças e das desigualdades raciais/racismo contemporâneo previstos no alinhamento 1; Engajamento pela efetivação da igualdade racial, prevista mas não necessariament e garantida pelo alinhamento 2
Quadro 3 Figuratividade/literalidade dos atos textuais/discursivos descritivos associados a ser macaco
Não racismo Ato textual/discursivo descritivo
Igualitarismo
Descrição figurativa: nós, os seres humanos, viemos dos macacos
(metonímia SER MACACO POR EVOLUIR DOS MACACOS) e/ou, por isso, somos como eles, por sermos evolutivamente próximos a eles (metáfora SER HUMANO É MACACO, licenciada pela metonímia anterior)
Diferencialismo Não se aplica
Considerando a categorização do negro ou do ser humano como macaco realizada pelo texto da hashtag #SomosTodosMacacos e considerando também os contextos da publicação da hashtag (tomados como) relevantes nos artigos de opinião, temos, como interpretações do intertexto #SomosTodosMacacos (como ato textual/discursivo de descrição de uma realidade – ser macaco) esperadas nesses artigos aquelas relacionadas à responsividade ao enunciador Evolucionismo (ver quadro 3).
O intertexto “Somos todos macacos” não pode ser plenamente racista se o contextualizamos com o cotexto que o acompanha e/ou a informação de que ele foi publicado por uma pessoa negra, em reação a um ato racista e contra os atores racistas desse ato. No entanto, não fosse essa contextualização, o intertexto poderia ser uma descrição (literal ou figurativa) racista do negro como macaco. A de/recontextualização de “Somos todos macacos”, processo a que se pode submeter por ser um intertexto (BAUMAN, 2004), possibilita, em parte, que ele seja apontado como racista por diferentes atores sociais.
A produção da hashtag #SomosTodosMacacos nos remete também à história do uso na veiculação de racismo. A historiadora Silva (2001) comenta o depoimento de um morador de Pindamonhangaba (SP), descendente de africanos escravizados, sobre as piadas feitas em forma de quadrinhas pelos palhaços no circo da cidade, no período posterior à Abolição (“O palhaço o que é? É ladrão de mulher./ Olha a negra na janela: Tem cara de panela./ Olha o negro no portão: Tem cara de tição./ Olha o negro no jardim. Vai comer capim”, “Branco bebe champanha/ -Mulato vinho do porto / -Caboclo bebe pinga / -E o negro?/ -Negro, mijo de porco./ -Branco mora na cidade / -Mulato mora vila / -Caboclo mora no sertão / -E o negro? / Negro, na correção”). Silva (2001) comenta:
[É] possível imaginar que os insultos racistas se tenham tornado ainda mais presentes a partir do momento em que os afro-descendentes alcançaram a igualdade jurídica e puderam competir com a população branca no mercado de trabalho [...].
Aparentemente inocentes, as piadas alimentavam a estigmatização racial, provocando o riso através da ofensa aberta aos negros. Mais do que isso, elas continham um discurso que passava a ter status de ‘verdade’. Para aqueles homens negros aceitar as sátiras e não reagir a elas significava aceitar depreciar-se e concordar com a mensagem que elas veiculavam. As brincadeiras do palhaço Ananias, estavam permeadas por elementos que rompiam os códigos de tolerância de uma convivência pacífica naquela comunidade e constituíam-se em um evento crítico ou uma situação limite que requeria uma mudança de comportamento. Visto por este prisma, a reação dos negros de Pindamonhangaba pretendia expressar uma resistência de caráter exemplar contra a violência simbólica que os havia atingido [...]. Assim, entende-se que os versos refletiam uma forma de perpetuação da situação de inferioridade, coincidindo com a ampla difusão dos ideais de branqueamento e higienização que se processo nas cidades brasileiras em geral. (SILVA, 2001, p. 45-46)
A criação e a publicação da hashtag #SomosTodosMacacos como reação a um evento racista, do ponto de vista do antirracismo, apresentou, assim, as seguintes características relevantes, de acordo com estudos científicos (PIRES & WEBER, 2018; SANTANA, BONINI & PRADOS, 2017; BRAGA & SANTOS, 2016; PRADO & AQUINO, 2015; MOTA & ALMEIDA, 2015; CAMPOS & MACHADO, 2014; SANTOS, 2014;
MENDONÇA & MAINIERI, 2014) e textos jornalísticos escritos por ou que consultaram especialistas acadêmicos à época (HOLLANDA, 2014; BRIGHENTI, 2014):
(i) Evocação da representação racista (desumanizante, inferiorizante e biologizante) do negro como macaco e defendê-la como “estratégia antirracista”;
(ii) Uso em legendas de imagens em que figuras públicas seguravam uma banana dentro de um enquadre humorístico;
(iii) Mobilização acrítica do sentido de igualdade social, abrindo espaço para um modelo de igualitarismo baseado na igualdade formal e não efetiva, ou na promoção de políticas universalistas contra o racismo, mas não racialmente específicas (MUNANGA, 1999);
(iv) Não promoção direta de um debate aprofundado sobre o racismo e sobre a realidade do negro brasileiro;
(v) Envolvimento de uma agência de publicidade que demonstrou a participação forte de interesses financeiros e de autopromoção.
Considerando esses enquadres interpretativos da (re)enunciação de “Somos todos macacos” construídos por NJ em suas postagens, analisaremos como atores sociais envolvidos na produção dos artigos de opinião do corpus colaboraram para a (re)construção da hashtag (“recontextualização”, nas palavras de Bauman [2004]), por sua vez, por meio de processos textuais, do sentido desse enunciado emergente junto a elementos contextuais e co-textuais.
Vejamos, a seguir, algumas das reações à hashtag #SomosTodosMacacos documentadas em textos informativos ou não (com foco em textos escritos), na imprensa e nas mídias. Por meio da apresentação desses textos publicados, aprofundamos a contextualização da publicação da hashtag #SomosTodosMacacos ao apresentar formas como ela e os eventos a ela relacionados foram construídos por textos noticiosos, bem como a forma com que alguns atores sociais importantes reagiram a ela.