Outro aspecto importante referente a multicentralidade diz respeito às questões escalares que envolvem tal processo. Assim como apontado no subcapítulo 1.1, no qual a centralidade se verifica tanto na escala interurbana como na intraurbana, na multicentralidade é observada a mesma situação. Sendo ainda, a multidimensionalidade escalar (BRENNER, 2000, 2001, 2009) uma condicionante fundamental nas relações produtivas e analíticas da multicentralidade.
Nunes (et al, 2011) vai nessa direção, ao defender que a policentralidade17 pode ser verificada à escala local, regional, nacional e internacional, podendo assumir distintas interpretações ao perpassar por diferentes níveis escalares espaciais. Reconhecemos na afirmação dos autores que a multicentralidade interurbana pode se estabelecer a partir de
17 Os autores não estabelecem distinção entre multicentralidade e policentralidade, utilizando assim o termo
policentralidade. Todavia, é possível verificar no texto, elementos constitutivos tanto da multicentralidade, como da policentralidade, conforme a distinção por nós reconhecida. Advindo daí a nosso reconhecimento de que o texto faz referência a (multi/poli)centralidade.
escalas regionais, nacionais e internacionais, em que cidades e aglomerações imbuídas em seus níveis e potenciais de centralidade intrínseco, se estabelecem como centros na escala da rede.
Estudos como o de Hall e Pain (2006) retratam a policentralidade18 ao nível escalar europeu, envolvendo metrópoles de distintos países. Enquanto Kloosterman e Musterd (2001) tratam da centralidade na escala nacional holandesa, retratando a ocorrência de padrões pautados na policentralidade19 existentes no contexto das principais cidades do país. Já Gordon e Richardson (1996) usam o caso da Área Metropolitana de Los Angeles, nos Estados Unidos, para melhor compreender a dinâmica da policentralidade20 em nível escalar intraurbano e no contexto regional ao qual a metrópole se insere.
Contudo, é ao nível do local, na escala intraurbana, é que delimitamos o objeto de investigação desta tese de doutorado. Assim sendo, focaremos no modo como as questões escalares contribuem para uma melhor compreensão da multicentralidade intraurbana.
Esta preocupação relativa as escalas geográficas advêm do fato de reconhecermos que ao nível escalar de uma cidade, metrópole, ou aglomeração urbana, o recorte espacial delimitador da análise dos processos componentes da centralidade pode influir na quantidade e qualidade de centros identificados na investigação.
Com isso, queremos afirmar que no interior de uma mesma cidade, metrópole ou aglomeração, a partir da utilização de distintas grandezas espaciais de análise, pode-se revelar uma condição simultânea de multicentralidade ou de monocentralidade.
Isso decorre do fato de que se realizarmos uma investigação que vise identificar centros no interior de um recorte zonal de uma cidade, podemos incorrer na identificação de centros que não seriam revelados se o nível de detalhamento espacial fosse menor, por exemplo, se analisássemos a escala da cidade como um todo. Assim, o número de centros identificados em uma mesma cidade, pode ser maior ou menor, dependendo do nível de detalhamento espacial.
Esta situação ocorre pelo fato de que, ao se trabalhar com escalas pouco detalhadas, há uma tendência em se diluir informações que teriam destaque nos casos em que se utilizasse escalas mais detalhadas. Assim centros de proporções e níveis de influência restritas a zonas intraurbanas tendem a não serem revelados em escalas de análise que representam a cidade, a metrópole, ou a aglomeração como um todo.
18 Os autores não estabelecem distinção entre multicentralidade e policentralidade. 19 Os autores não estabelecem distinção entre multicentralidade e policentralidade. 20 Os autores não estabelecem distinção entre multicentralidade e policentralidade.
Num contexto em que a identificação de fixos e fluxos é um dos fatores determinantes para o reconhecimento de um centro (a condição simbólica da área é outro fator), o nível de detalhamento das informações espaciais, a partir da escala geográfica eleita para análise, pode revelar ou escamotear desde a ocorrência de concentrações de atividades econômicas, até mesmo as condições de acessibilidade e seus fluxos inerentes.
Esta situação foi verificada no decorrer desta pesquisa, quando alguns espaços reconhecidos, até mesmo pelos citadinos, como sendo dotados de destacadas condições econômicas, de acessibilidade e de representação simbólica, não foram identificados como centros, por possuírem uma dimensão espacial de influência e repercussão, restritos a contextos zonais do espaço urbano. Não tendo, assim, possibilidade de se revelarem em uma análise que considere a escala da cidade ou da conurbação como um todo.
Deste modo, as questões escalares são de fundamental importância no processo de investigação da multicentralidade. Pois a identificação da multicentralidade em uma escala pode revelar a ocorrência de monocentralidade em outra. A título de exemplo, ao elegermos um recorte zonal intraurbano, é possível identificarmos uma gama de centros de reduzida influência espacial, porém, ao realizarmos um movimento escalar analítico no sentido de abrangermos a cidade, a metrópole, ou aglomeração, como um todo, tais formas e conteúdos que se revelaram na escala zonal intraurbana podem ser diluídas e ocultadas. Sendo possível, devido a mudança de escala geográfica de análise, para uma menos detalhada, ser verificada a ocorrência de apenas um centro, exercendo papel de centralidade e centro absoluto em um contexto de monocentralidade. Assim, uma cidade, metrópole, ou aglomeração urbana, pode ter estabelecida a multicentralidade, em uma escala geográfica de análise, e a monocentralidade, em outra escala.
À vista disso, a multicentralidade em uma escala pode ser monocentralidade em outra, ou seja, a multicentralidade à escala de zonas intraurbanas não se traduz automaticamente para multicentralidade à escala da cidade, da metrópole ou da aglomeração, e o inverso também se verifica.
Ou seja, uma zona intraurbana por se configurar a partir da multicentralidade, enquanto a cidade, a metrópole ou a aglomeração ao qual ela pertence ser monocêntrica. Ou a zona intraurbana se estabelecer num contexto de monocentralidade, enquanto a cidade, metrópole ou a aglomeração que ela se insere ser sustentada pela multicentralidade.
Tais questões acerca da escala geográfica revelam que esta não é fator neutro na constituição e no exercício de investigação da centralidade, seja ela multi ou mono.
Reafirmamos assim, que optar por uma escala, ou concepção escalar (relacional ou estanque), pode influir na quantidade e qualidade dos centros e da centralidade identificada. A escala não é condição equânime no processo investigativo da centralidade. Assim como neste estudo, optamos por revelar a centralidade a partir de uma grandeza escalar, outros estudos estão a fazer o mesmo.