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Accumulation de problématiques personnelles

4.2 Expérience de décrochage et conséquences

4.2.5 Accumulation de problématiques personnelles

No assentamento dos açorianos, era um projeto da metrópole ditar as regras; sendo assim, as famílias foram estabelecidas dentro de critérios, considerados ordens régias que determinavam a administração nos ramos civil, militar e eclesiástico. Além disso, eram organizados e demarcados os pontos de assentamento, estabelecidos na região sul do Brasil.

O governador deveria organizar povoados de 60 casais nos lugares que fossem mais apropriados. Cada sítio teria um quadrado para a praça, de 5000 palmos de face, numa das quais se localizaria a igreja. As ruas deveriam ser demarcadas a cordel e ter, pelo menos,

40 palmos de largura.31

Os açorianos chegavam à Ilha de Santa Catarina e, após a verificação das condições de vida, eram enviados para povoar pontos da Colônia próximos à ilha. São Miguel, São José, Enseada do Brito, Vila Nova, Laguna, Campos de Santa Marta e o Estado do Rio Grande do Sul foram alguns pontos de assentamento, assim como a Lagoa da Conceição. Mesmo com as condições oferecidas, era uma experiência importante a adaptação dos colonos na região. Sobre esse assunto, cita-se:

Os historiadores da colonização açoriana em Santa Catarina insistem nas dificuldades que tiveram esses elementos na sua tarefa de adaptação. Sua incapacidade agrícola impediu-os de desenvolver suas possibilidades. É verdade que de início houve uma verdadeira febre de atividade. Derrubavam as matas, erguiam suas cabanas,

lavravam a terra. As lavouras tentadas foram a mandioca, o trigo, o

linho cânhamo, o algodão, o açúcar.32

Imagem 11 – Mapa. Assentamento dos casais açorianos no Brasil.33

32RAMOS, Arthur. Introdução à antropologia brasileira. vol.2. Rio de Janeiro: CEB, 1947. p.108. 33PIAZZA, W. S. Atlas Histórico do Estado de Santa Catarina. Florianópolis, SC: Depto. de Cultura da

A localização da Ilha de Santa Catarina e suas diferenças de solo e clima também parecem ter interferido nas relações dos açorianos com a terra a ser cultivada, de forma que alguns tipos de produção não prosperaram.

A Lagoa da Conceição está situada no centro da Ilha de Santa Catarina, no Sul do Brasil, com 19,2 km de extensão. Foi fundada como Freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Lagoa, no ano de 1750, com a chegada dos açorianos. Quanto ao assentamento dos casais na Ilha, estes se fixaram na Lagoa da Conceição, Morro do Antão, Trindade, Santo Antonio de Lisboa, Rio Ratones, Canasvieiras e Rio Vermelho.

O primeiro vigário a chegar ao local com os açorianos foi o Padre Manoel Cabral de Bittencourt. Em 1751, iniciou-se a construção da primeira igreja da Lagoa, a Nossa Senhora da Conceição. Assim, a Ilha foi, aos poucos, sendo povoada por novos contingentes imigratórios, tais como os de negros, que, desde o século XVI, foram inseridos no local como escravos.

A população de negros cresceu e a miscigenação se intensificou. A Lagoa, em 1810, tinha uma população total de 2.430 pessoas, dentre as quais 325 eram escravos, 98 escravas e 48 negros libertos. O assentamento desses grupos foi tomando rumo ao longo dos anos e espalhando-se por várias localidades, como Lages, Blumenau e muitas outras cidades da região.34

Os açorianos caracterizaram os habitantes da Lagoa, enquanto outros grupos se assentavam em diferentes locais. Após o assentamento dos açorianos, a vida e o trabalho foram paulatinamente se estabelecendo em pontos específicos do Continente e da Ilha, como detalha o texto a seguir:

34CARNEIRO, Glauco. Florianópolis: roteiro da Ilha Encantada. Florianópolis, SC: Expressão, 1987.

São Miguel de Arcanjo, Barreiros e São José. Na Ilha de Santa Catarina, a distribuição dos casais foi feita inicialmente em torno da Vila de Nossa Senhora do Desterro e, posteriormente, em direção ao norte e ao sul. Os primeiros casais, ao que parece, foram localizados a oeste, nas encostas do morro que se chama hoje Morro do Antão e, ao leste, onde se formou a freguesia da Santíssima Trindade de Trás do Morro. Seguindo para o norte da Ilha, vamos encontrar Santo Antônio e Canasvieiras. Mais tarde, procurando o outro lado da Ilha, em frente ao oceano, encontramos Lagoa da Conceição e Rio

Tavares; mais para o sul, Ribeirão da Ilha.35

O trabalho dos açorianos, que inicialmente voltava-se para a agricultura e a pesca, foi sendo redimensionado em razão da matéria-prima encontrada no país:

Cultivavam o café, a uva, o algodão; fabricavam aguardente, açúcar, melado; exportavam alho, cebola, amendoim e gengibre para a capital; cultivavam o linho e o algodão que aqui mesmo eram tecidos em teares manuais. Há relatos sobre a existência de centenas de engenhos de farinha de mandioca em toda a sua extensão. Os homens sempre foram famosos pescadores e as mulheres, habilidosas rendeiras, entrelaçando com extrema velocidade várias dúzias de bilros.36

O trabalho não era o mesmo exercido nos Açores, onde o trigo era cultivado. No Brasil, os açorianos tiveram que aprender a cultivar a mandioca e o algodão, entre outros produtos do gênero alimentício.

As viagens desses imigrantes rumo ao Brasil ocorreram entre outubro de 1747 e novembro de 1753. Neste período, com sua chegada, houve um aumento populacional de 140%.

35FLORES, Maria Bernadete Ramos. Op. cit. p.57.

36 BORGES, Elaine. Vozes da Lagoa. Florianópolis, SC: Fundação Franklin Cascaes e Fundação

O primeiro navio vindo dos Açores ingressou em Santa Catarina no início de 1748, e o segundo em 1749. Os açorianos que conseguiram chegar ao Brasil não ficaram satisfeitos com o que encontraram em Santa Catarina, o que desestimulou novos colonos da mesma origem, informados sobre a vida no país. No entanto, nem tudo era desestimulante, já que as condições que esses imigrantes encontravam nos Açores não eram das melhores. Assim, o assentamento teve suas controvertidas visibilidades.

Aos poucos, a vida foi tomando seu rumo. Pelo relatório do governador João Alberto Ribeiro ficamos sabendo que 20 anos depois, em 1796, a população da capital era de 3.757 habitantes, dos quais 2.652 brancos, 110 forros e 99 escravos e mais 1.027 militares.37

A Lagoa foi se expandindo com os novos habitantes que chegavam, mantendo- se, porém, em isolamento, devido à inexistência de rodovias e, principalmente, de pontes. Sobre esta característica, cita-se:

Na Ilha de Santa Catarina havia, até 1926, um duplo isolamento. Primeiro, da ilha em relação à “terra firme”. Segundo, do litoral com o planalto e caminho do sul, que levava o progresso às capitanias, províncias e estados vizinhos, considerando Santa Catarina quase uma escala entre São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul. Só em nosso tempo o segundo tipo de isolamento foi rompido, razão pela qual Florianópolis sofreu, em centenas de anos, a solidão e o subdesenvolvimento causados pela inexistência de rodovias que a

colocassem em contato com o interior e a economia.38

37Ibidem. p.67. 38

No início do assentamento, houve conflitos e dificuldades, mas, nos anos seguintes, a vida foi tomando seu rumo. Homens e mulheres acabaram aceitando as condições de vida encontradas no Brasil, pois não tinham a opção de voltar ou procurar outras possibilidades.

Ao longo dos anos, os açorianos dedicaram-se ao cultivo e perpassaram às próximas gerações suas tradições, estabelecendo, por meio de ensinamentos, as tarefas de seus filhos e filhas, sendo algumas calcadas nos traços culturais, outras adaptadas ao que foi encontrado na Ilha. As mulheres assumiram tanto o labor diário da agricultura quanto as atividades de casa. Criar os filhos, tecer rendas e cuidar da casa eram, entre outras, funções das açorianas e, mais tarde, também de suas sucessoras. Assim, com o passar dos anos, essas mulheres desenharam a função de rendeira.

Até meados de 1980, ainda havia recantos sem luz elétrica, água encanada, estradas e meios de transportes adequados. Estes foram alguns itens de infra- estrutura na Lagoa da Conceição responsáveis pelo isolamento de famílias inteiras com relação a outras que habitavam as proximidades, como é o caso do centro de Florianópolis. Este isolamento, por um lado, favoreceu a preservação dos traços culturais, mas, por outro, manteve famílias inteiras distantes dos avanços da urbanização e das mudanças cotidianas.

Hoje, após cerca de duzentos anos de colonização açoriana, os descendentes destes imigrantes cultivam suas origens e seus traços culturais. Na Lagoa da Conceição, as rendeiras orgulham-se de suas raízes açorianas e, nos dias 20, 21 e 22 de fevereiro, movimentam Florianópolis com a comemoração da colonização. Sobre as celebrações, algumas considerações podem ser evidenciadas:

Pelos vários discursos proferidos, podemos afirmar que houve, na comemoração do bicentenário, um fenômeno de criação de memória. Aquele acontecimento de 200 anos atrás, do povoamento da Ilha de Santa Catarina pelos imigrantes açorianos, não tinha sido, até aquele momento, tema importante dos historiadores. A história da saga

açoriana em meados do século XVIII ainda não havia sido escrita.39

A saga dos açorianos, quando foi escrita, deixou “falhas”, evidenciadas no que se refere ao momento da chegada desses imigrantes ao Brasil, ao seu assentamento e às suas condições na atualidade. Não há registros dos acontecimentos históricos do período entre 1760 e 1900. Portanto, são 140 anos praticamente sem historiografia, mas que podem ser resgatados por meio das memórias dos descendentes dos açorianos e das histórias de vida que podem contar.

A primeira comemoração da colonização açoriana estimulou e abriu espaço para pesquisas sobre as origens e trajetórias desses imigrantes no Brasil. Por meio de estudos sobre a cultura luso-brasileira, observar as identidades do Estado de Santa Catarina passou a ser uma questão de posicionamento e de muitas discussões entre historiadores e antropólogos em congressos e seminários que abordam as raízes “lusófonas”.

Mas uma identidade catarinense era algo difícil de ser desenhada. O estado comportava uma multiplicidade de culturas étnicas. Apesar do esforço de amalgamar a diversidade cultural numa única – luso- brasileira –, os outros povos, bem ou mal, não abandonaram

completamente suas tradições.40

39FLORES, Maria Bernadete Ramos. Op. cit. p.73. 40

Sobre a questão das identidades, existe uma complexa e vasta discussão que permeia os estudos culturais, especialmente sob a sua perspectiva de construções nunca finalizadas, em permanente processo de constituição. A concepção de identidade, enquanto algo que se articula entre o passado e o presente, pode ser percebida como práticas e experiências dos sujeitos que acabam por entremear-se em determinadas conjunturas históricas, políticas, econômicas, sociais e culturais. Nesse sentido, a identidade pode ser concebida como algo que:

...pertence ao futuro tanto quanto ao passado. Não é algo que já existe, transcendendo lugar, tempo, história e cultura. As identidades culturais vêm de algum lugar, têm histórias. Mas, como tudo o que é histórico, elas sofrem uma transformação constante. Longe de estarem eternamente fixas num passado essencializado, estão sujeitas ao contínuo “jogo” da história, da cultura e do poder. Longe de estarem fundadas numa mera “reprodução” do passado que está esperando ser encontrado e que, quando encontrado assegurará nosso sentido de nós mesmos até a eternidade, as identidades são os nomes que damos às diferentes maneiras como estamos situados pelas narrativas do passado como nós mesmos nos situamos dentro delas.41

Apesar dessa percepção, em especial em condições diaspóricas, em experiências migratórias que são sentidas e absorvidas pelas pessoas que se deslocam, se alteram e mantém de alguma forma permanências que se ressaltam em seus traços, existem sempre adversidades; estas experiências são as diferenciações de formação das identidades.

41

HALL, Stuart. Apud ESCOSTEGUY, Ana Carolina Damboriarena. Cartografias dos Estudos Culturais: Stuart Hall, Jesús Martín-Barbero e Néstor García Canclini. Tese de Doutorado da ECA, USP, 1999. p.197. A autora faz uma análise dos estudos culturais e das questões que se referem à construção e reconstrução das identidades; assim, apresentou essa tradução de um texto de Stuart Hall.

Dentro dessa mesma linha de raciocínio, a percepção das identidades em constante construção vai sendo confeccionada por atores sociais e entremeada de condições desiguais. É, dessa forma, produzida e reproduzida em meio a adversidades, conflitos e manutenções, pela existência de tensões entre nacionalidades, etnias, gêneros, gerações e espaços.

Em Florianópolis, puderam ser observadas algumas mudanças relativas aos costumes e hábitos de seus habitantes, revelando conflitos, tensões e harmonias em seus trajetos que, aos poucos, foram conquistando meios de sobrevivência e se adaptando entre as várias etnias. Porém, devido à maior concentração de açorianos no local, foi a sua maneira de falar, cantar e andar, entre hábitos e costumes, que passou a predominar na Lagoa da Conceição.