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O romance de enigma original, que tem sua gênese muito bem localizada no conto

Assassinatos na rua Morgue (1841), reaparece, pelas mãos de Edgar Allan Poe, apenas nos

contos O mistério de Marie Roget (1842) e A carta roubada (1844). Poe cria, nestes três contos, o primeiro detetive moderno na figura do cavalheiro C. Auguste Dupin, delineando-o em oposição à figura do policial da primeira metade do século XIX. Esses primeiros policiais, que víamos retratados nas novelas dos folhetins nos primeiros jornais de circulação fixa, eram ex-condenados que usavam métodos totalmente empíricos de investigação e trabalhavam baseados mais em denúncias que lhes chegavam via informantes que em investigações dedutivas. A estrutura montada por Poe, este ―arquétipo literário‖ do romance policial, tem sua primeira base no personagem-detetive, que Boileau e Narcejac chamam de ―máquina de raciocínio‖. Este detetive, praticamente sem sair de casa ou do escritório, resolve os enigmas usando apenas o raciocínio lógico. Ele não faz parte da polícia, não precisa trabalhar para sobreviver e realiza o seu trabalho aparentemente como hobby.

A própria invenção do gênero policial é, na verdade, conseqüência de uma nova concepção de literatura proposta por Poe; [...] uma combinação de ficção com raciocínio e inferências lógicas. [Um] método de criação de um texto literário. [...] a substituição da intuição e do acaso pela presença da precisão e do rigor lógico na criação literária (REIMÃO, 1983, p. 19).

Para Reimão, Dupin é um personagem propositalmente pouco delineado por Poe. As inferências e raciocínios de Dupin, somados à ausência de uma personalidade mais bem definida, refletem exatamente as crenças prevalentes no século XIX, com suas bases no positivismo, no "homem como uma máquina desmontável", noção que pode ser vista nas reflexões de Boileau e Narcejac. A crença arraigada na época era a de que ―o mundo é uma máquina, e o homem, que faz parte do mundo, também. [...] O homem é portanto desmontável. [...] Quem sabe aplicar corretamente essas leis sabe ao mesmo tempo ‗decifrar o homem‘‖ (BOILEAU-NARCEJAC, 1991, p. 16, 17). O homem positivista é visto então como alguém que raciocina de maneira padronizada, de acordo com princípios universais. Dessa forma, alguém que consiga perceber e dominar essas leis, conseguirá deduzir, através da interpretação de índices, os pensamentos e sentimentos desse homem.

Essa leitura que Boileau e Narcejac fizeram colocando o positivismo como cenário sociológico que possibilitou a criação de um personagem como Dupin e o conseqüente nascimento (mesmo que essa não fosse a intenção) de um gênero, parece muito bem aceita. Em todos os trabalhos pesquisados acerca do gênero, essa idéia aparece como constatação. Como resume Flávio Carneiro, ―Dupin é o signo de uma época apaixonada pela ciência, pela tecnologia, uma época com um belo projeto de futuro‖ (CARNEIRO, 2005, p. 20).

O século XIX vê, de fato, um estonteante desenvolvimento científico. A ciência toma as rédeas da civilização ocidental, que passa a acreditar na capacidade dessa ciência em explicar tudo. Os crimes, naturalmente, também devem ser explicados através dos métodos dessa ciência. ―O cientista, transformado em detetive [...] remontará dos efeitos às causas, deduzirá das causas novos efeitos e, pouco a pouco, prenderá o culpado em uma rede de provas‖ (BOILEAU-NARCEJAC, 1991, p. 18). Com efeito, o próprio Poe escreve sobre o método científico de criação de um texto literário em que a história deve ser escrita de trás para frente, de modo a não haver desencontros entre os incidentes. ―O que significa que toda história deve ser escrita ao contrário. [...] Já que toda obra literária é um trajeto entre um começo e uma conclusão, partamos da conclusão e remontemos ao começo, eliminado todos os detalhes fortuitos, portanto inúteis‖ (BOILEAU-NARCEJAC, 1991, p. 21). O que Poe quer

demonstrar nesse texto13 é a importância da lógica, da racionalidade, maior até que a da inspiração. Escreve Poe:

Muitos escritores preferem deixar entender que compõem graças a uma espécie de frenesi sutil ou de intuição extática [...]. Minha intenção é demonstrar que nenhum ponto da composição pode ser atribuído ao acaso ou à intuição e a obra marchou, passo a passo, rumo à solução com a precisão e a rigorosa lógica de um problema matemático (POE, 1997, p. 912).

Esta noção do controle total sobre os destinos da obra, como quer Poe, ficou difícil de se sustentar, bem sabemos, pelo menos depois de Freud. Uma composição artística carrega consigo partes do seu autor que ele nem sequer desconfia, e é até possível que lhe ouçamos negar. Portanto, talvez seja demasiado tarde para crermos nesse total controle que deseja Poe14, uma defesa no mínimo surpreendente, vinda do autor de William Wilson.

Nessas histórias inaugurais, Dupin não é o narrador. Quem conduz a história é um personagem anônimo, companheiro de residência, amigo e admirador do detetive. Esse narrador não é uma máquina de pensar, como é Dupin. É com essa figura que o leitor vai reconhece-se, embora deseje e almeje se parecer com a máquina de raciocínio. O autor consegue, com isto, um efeito de aproximação deste personagem, de perfil intelectual não- excepcional, com o leitor médio.

Estas duas bases – o detetive como máquina de raciocínio, ser super-dotado intelectualmente, e o personagem-narrador, figura próxima e de confiança do detetive, ponto de identificação com o leitor médio –, além das duas histórias que são narradas, a do crime e a da solução do enigma, formam a estrutura inaugural do romance de enigma, ou, com também ficou conhecido, romance policial clássico. Esta estrutura sobreviveria e lançaria as bases dos romances policiais de boa parte do século XX.

13

Trata-se de A filosofia da composição (In: Edgar Allan Poe: ficção completa, poesia & ensaios. Organização e tradução de Oscar Mendes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1997.), no qual Poe toma seu poema O corvo como base para falar dos processos de produção de uma obra.

14

Ver, a esse respeito, o capítulo I, A intertextualidade, deste trabalho, ou o trabalho de Olga Maria M. C. de Souza, A psicanálise e as letras, In: Modernidades e pós-modernidades: literatura em dois tempos / Alexandre Jairo Marinho Moraes, organizador._Vitória: Programa de Pós-graduação em letras; Centro de Ciências Humanas e Naturais; UFES, 2002.