6. QUALITY CONTROL AND ACCREDITATION IN NDT
6.3. Accreditation of NDT laboratories to ISO 17025
Frente as relações estabelecidas com a comunidade, analisando o problema de pesquisa (aperfeiçoado no campo), e feita escolha metodológica – após a qualificação – voltar à comunidade era quase uma obrigação. A grande questão era: como fazer as leituras com as marisqueiras sobre sua técnica de mariscar? Tratava-se somente de fazer leituras?
Isto me levou a re-tomar o sentido e significado do trabalho de campo nesta tese67 e
novas perguntas surgiram: como tornar visíveis as formas de produção de conhecimento sobre a técnica de mariscar que tem a comunidade? Qual poderia ser a articulação com as tecnologias de informação e comunicação? Existem essas tensões? Como identificar e observar as tensões na relação saber/poder? Quais as manifestações da técnica de mariscar que refletem a conexão com a natureza? Com a cultura?
No retorno ao campo, um assunto era evidente: voltar à comunidade exigia uma relação de parceria com ela, um trabalho conjunto, não o tratamento dela como objeto de pesquisa, ou fonte de informação para “pegar os dados” a serem analisados, ou seja, tratava-se de uma vinculação das marisqueiras à pesquisa e não uma leitura sobre elas, um esforço por interagir com essa “realidade observada”, uma construção com as habitantes desse território existencial localizado no meio da beleza do Recôncavo Baiano.
As pistas para estas compreensões estavam na aproximação, na vivência com as marisqueiras, suas práticas, e os modos de articular seus universos com as tecnologias de informação e comunicação. O anterior provocou um interesse maior por retomar o saber/fazer das marisqueiras, e as múltiplas conexões que estas poderiam aportar na construção de pontes com o macro, a exterioridade; uma escritura e leitura desde dentro, em diálogo com o fora. O que expressava um esforço compreensivo, de observação e participação dos sentidos e significados das “realidades do mangue” (os saberes e fazeres da técnica de mariscar) que como potência criadora poderia aportar na construção de outras realidades.
É no micro, seguindo Guattari e Rolnik (2006), no micropolítico, nos cruzamentos e tensões que se configuram essas relações com esse universo de significação e suas conexões com o campo social/político de onde emergem os desejos de transformação
67 A opção metodológica e as técnicas empregadas não poderiam estar afastadas da perspectiva político
epistemológica decolonial assumida na tese, que reconhece como a eliminação ou silenciamento de formas de construção de conhecimento, distintas das instaladas pela racionalidade moderna, hegemônica configuram o epistemicídio, mantido até hoje.
(desterritorialização) num constante movimento entre o micro e macro, ou do molecular para o molar, como foi apresentado no capítulo anterior: Pontes. Traçando linhas possíveis.
Como venho apresentando, é no movimento, nas conexões, nas tensões, onde se localiza a potência, o ato criativo, não no enfrentamento como reflexo de posturas dicotômicas que se debatem pela totalidade, a partir da anulação do distinto, do diferente; é na observação consciente, cautelosa tanto das singularidades quanto das multiplicidades.
Além disso, e ante o objetivo proposto nesta tese de: estabelecer diálogos entre macro e micropolítica, mediante a leitura compreensiva das conexões entre cultura/tecnologia/conhecimento, na comunidade de saber das marisqueiras para mapear vínculos outros na matriz contemporânea saber/poder agenciada pelas Tecnologias (concretamente as de Informação e Comunicação) que cheguei a pensar na formulação de um processo que nos permitisse experimentar a possibilidade, a potência.
Foi assim como a produção da publicação tomou força: produzir o livro como agenciamento para ser trabalhado com a comunidade; as marisqueiras de Passé de Candeias seriam as autoras, as escritoras, as fotógrafas, as desenhistas e os relatos mostrariam seus saberes e fazeres como conexão com seu universo de mulheres, marisqueiras, as formas como esses conhecimentos são produzidos, transmitidos e os sentidos e significados da técnica, da tecnologia, de seus objetos técnicos, enfim um saber/fazer construído em Passé de Candeias, no Recôncavo Baiano, do Brasil, da América Latina.
Os desejos que ficaram na origem da ideia tinham relação com as narrativas recorrentes da comunidade de saber sobre o desconhecimento social e a pouca valorização que tem o seu trabalho; para esta tese, estava o desejo de descobrir os saberes e conhecimentos da técnica artesanal de cata de mariscos incorporados nos corpos, nas memórias e na mágica relação que elas têm com a natureza.
Assim, pensar o livro como agenciamento respondeu a compreender que o processo de produção permitia refletir sobre seu território vital, explicitar seus sentidos e significados, reconhecer e significar os saberes e fazeres, as formas de aprender e ensinar, as conexões com suas ferramentas, com a natureza, com o corpo; identificar os rituais, os mitos envolvidos no fazer, em síntese a observação dos fluxos e movimentos pelos quais a comunidade de saber transita(va) de maneira natural, quase imperceptível, para perceber a virtualidade implícita nestes vínculos.
Das contribuições de Guattari e Rolnik (2006) pode-se ver a relevância da produção de agenciamentos para tornar possível a criação de saídas a processos de singularização, que pretendem ser “normalizados”, ou incluídos na totalidade, eliminando as diferenças, admitindo que as decisões e atitudes políticas tenham implícitas tanto dimensões do desejo quanto de subjetividade no nível macro e micro.
O agenciamento se refere a uma noção mais ampla que uma estrutura, sistema, forma, etc; inclui componentes heterogêneos tanto da ordem biológica quanto social, maquínico, gnosiológico; ao contrário das estruturas que estão sempre ligadas a condições de homogeneidade (GUATTARI, ROLNIK, 2006, p. 365).
Ou seja, o agenciamento se vincula ao território – no caso desta tese o mangue como metáfora do lugar que em seu saber/fazer desata sentidos e significado – e na reflexão sobre esse conhecimento tácito, pouco reconhecido, vai-se configurando um processo de desterritorialização que procura saída a outros territórios, outras conexões, na dinâmica constante das expressões e conteúdos entre atos, falas e desejos que permitem tornar visíveis as linhas que cruzam a cartografia.
Na linha das contribuições de Michel Polanyi68 (1966) o conhecimento tácito é
complexo e encontra-se imbricado na prática, e na experiência cotidiana, com o tempo, ele vai-se instalando e constitui parte fundamental das ações das pessoas, implicando sentimentos, sensações, sensibilidades, o que dificulta a formalização do mesmo; levando-lhe afirmar que “sabemos mais do que podemos dizer”, ou seja, uma dimensão quase secreta no complexo universo do conhecimento.
Para o caso das marisqueiras de Passé de Candeias seu saber/fazer sobre a técnica de mariscar como conhecimento incorporado que se exterioriza na própria prática. Os estudos do cientista e filósofo, reconhecem que a dimensão do saber o quê (knowing what) e o saber como (knowing how) encontram-se interligados e constituem duas dimensões do mesmo processo: o conhecer.
Polanyi distingue o conhecimento tácito como processo que se encontra na base de todo conhecimento – inclusive no científico – e comporta duas dimensões: uma explícita na prática “profundamente enraizada na ação”, e outra a componente cognitiva vinculada com as
68 Os trabalhos recentes das ciências da cognição, segundo os estudos de Zuckerfeld (2012) mostram que as contribuições das
neurociências nos novos mapas do cérebro permitem indicar a relevância do conhecimento tácito no ato de conhecer. Zuckerfeld, Mariano, Explicitando al conocimiento tácito, em Revista Ciência e Tecnologia Social, 2013, disponível em
emoções, habilidades, intuições, sensações, e as representações, valores e formas de atuação da cultura a que pertence; o que significa que o conhecer tem implícito tanto a dimensão teórica quanto a prática, elas não estão em oposição.
Podemos portanto interpretar o uso de ferramentas, de sondas e de ponteiros, como exemplos adicionais da arte de conhecer, e podemos ainda adicionar à lista o uso denotativo da língua como um tipo de indicação verbal. (POLANYI, 1966, p. 18)
Para o caso das ferramentas, que nesta tese tem um lugar importante pela relação com a técnica e o conhecimento tecnológico, o autor analisa as conexões entre o sentido e o significado no fato de conhecer “um esforço interpretativo transforma sensações sem sentido em sensações com significado” (1966, p. 24) quanto fazemos uso de ferramentas atenção se ativa consciente em função da modificação que a mesma exerce sobre as coisas.
Na experiência com as marisqueiras o significado consciente da ferramenta é adquirido durante a prática de mariscar que em todas as manifestações implica em uma relação com o corpo relevando as conexões entre mente e corpo, a partir de habilidades manuais que conectam mente – mão – ferramenta, em uma prática contínua que as certifica como expertas na técnica de mariscar.
Como já dito, o processo de produção do livro permitiu a reflexão em torno ao saber/fazer da técnica de mariscar, como dispositivo de deslocamento – ou desterritorialização – para produzir o reconhecimento e empoderamento da própria prática, do vínculo da técnica artesanal com a natureza, das ferramentas com os objetos técnicos, das formas como saberes e conhecimentos são produzidos e difundidos, de seu lugar como mulheres, marisqueiras, cidadãs, e das probabilidades desse pensamento técnico para resolver problemas e gerar novas aprendizagens.
Esta dúvida circulava diante do desafio que requeria traduzir (ou transduzir, como ato de transmissão e criação) o conhecimento tácito da oralidade à mídia impressa através de textos, desenhos e fotografias que seriam produzidos para o livro.