Malpas (2005) defende que Davidson está comprometido com uma posição denominada “realismo quotidiano”. Dentro do debate filosófico tradicional entre realismo e idealismo, “O realismo sustenta que o mundo físico existe independentemente do pensamento e da percepção humana. O idealismo nega-o — afirma que o mundo físico é de algum modo dependente da atividade consciente dos seres humanos” (OKASHA, 2017, tradução nossa). Porém, o realismo de Davidson não cabe nesse debate, pois parte de outro ponto. O debate tradicional provém de uma ruptura entre sujeito e objeto que é justamente o que Davidson rechaça. Davidson pensa a sua filosofia a partir do “envolvimento ordinário, quotidiano com o mundo” (MALPAS, 2005, p. 51), o que situa seu realismo fora da discussão metafísica predominante. O realismo quotidiano, portanto, consiste na defesa da verdade de nossas crenças a partir do fato de que elas se constroem na relação com o mundo. Nem o mundo físico independe do pensamento nem é constituído por ele. O pensamento, sim, é constituído pelo mundo físico e é parte dele66.
Esse ponto pode ser uma chave para se compreender o mental e sua inserção no mundo material. Há alguns sentidos nos quais se pode dizer que o pensamento é parte do mundo físico. Por exemplo, há o sentido evolutivo, pois o pensamento surge como parte de um processo natural e é algo organicamente muito dispendioso para ter se desenvolvido sem que tenha aumentado a aptidão da espécie. Ora, o que se desenvolve por um processo evolutivo está submetido ao crivo da seleção ambiental, não está encarcerado no sujeito. Contudo, o sentido mais importante em que isso pode ser dito dentro da argumentação davidsoniana é o seguinte: o pensamento é linguístico, depende da relação direta do sujeito com a realidade física e social.
Diante do princípio de caridade de Davidson, uma questão é saber se ele é apenas um método instrumental para que possamos dar sentido ao discurso do outro ou se de fato cada ser linguístico realmente possui todas essas crenças que lhe são atribuídas. Uma coisa é reconhecermos que precisarmos atribuir alto grau de racionalidade e de verdade às crenças dos outros para lhes podermos compreender. Outra coisa é defendermos que os seres humanos de fato são altamente racionais e estão massivamente corretos.
Acerca desse tema, Tennant (1999) apresenta a seguinte citação de Davidson:
66 Aqui, não estamos falando de pensamento no sentido de Frege (2002) de algo pertencente a um terceiro domínio, ao mesmo tempo objetivo e não apreensível pelos sentidos.
O processo de elaboração de uma teoria da verdade para uma língua nativa poderia grosso modo ser esboçado como se segue. Primeiro, nós procuramos a melhor forma de adaptar a nossa lógica até onde requerido para ter uma teoria que satisfaça a convenção V na nova linguagem; isso pode significar ler a estrutura lógica da teoria de quantificação de primeira ordem (mais identidade) na linguagem, não pegando as constantes lógicas uma a uma, mas tratando essa parte da lógica como uma rede a ser adaptada à realidade de uma só vez (DAVIDSON apud TENNANT, 1999, p. 71, tradução nossa).
Tennant, então, propõe que a exegese correta desse trecho inclui a compreensão que a atribuição da lógica de predicados é feita somente até onde necessário para que a convenção-V seja satisfeita, e isso é algo bem fraco. Assume-se que há operadores lógicos análogos aos nossos e estruturas sintáticas que fazem composições das expressões da linguagem a ser interpretada. Porém, isso não significa que seja necessário que os falantes da língua a ser interpretada concordem com todas as regras da nossa lógica clássica. Para Tennant (1999, p. 74), a proposta de Davidson é de um método minimalista. Achar que o falante a ser interpretado compartilha conosco de toda a lógica de predicados com identidade formalizada é assumir uma estrutura de verdades completamente independentes da mente, mas que podemos descobrir. Tennant não acha que essa seja a ideia que Davidson pretende defender.
Por outro lado, mesmo concordando com a interpretação radical, Tennant defende os esquemas conceituais e a possibilidade de tradução entre eles. Para ele, a interpretação radical não tem um papel relevante na superação do dualismo esquema/conteúdo. O autor oferece um experimento de pensamento em que pede para imaginarmos extraterrestres com sistemas sensoriais completamente diferentes dos nossos67. Precisaremos imaginar também que nós e
eles desenvolvemos instrumentos tecnológicos que nos permitiriam preencher as lacunas das diferenças sensoriais entre nós, transformando e adaptando os diferentes modos de enxergar a realidade. Além disso, nós e eles teríamos criado extensões científicas de nossos aparatos linguísticos tornando possível algum tipo de tradução da língua extraterrestre para a humana. Nesse caso, conforme Tennant, teríamos algum nível de tradutibilidade entre diferentes esquemas conceituais. Com esse argumento, ele pretende defender um relativismo de esquemas conceituais.
O autor apresenta, ainda, outro argumento muito simples: “poderia haver esquemas conceituais alternativos precisamente porque eles são inacessíveis” (TENNANT, 1999, p. 78, tradução nossa). Em outras palavras, se Davidson está certo ao argumentar que não podemos
67 Com qualia distintos, mas a concepção de qualia de Tennant não parece ser de estados causalmente isolados dos outros estados mentais nem da linguagem.
atribuir linguagem a uma entidade se há intraduzibilidade completa, isso não significa que tal entidade não possua linguagem. Aquele ser poderia ter um esquema conceitual distinto, mas ser racional e se comunicar linguisticamente, ainda que nós não fôssemos capazes de detectar isso. O que impediria uma linguagem completamente intraduzível de ser uma linguagem?
Qual o reflexo disso para o princípio de caridade? O princípio de caridade parece pressupor o mais alto grau de correlação entre linguagem, falante, intérprete e mundo. Ao adotar esse princípio, uma das coisas que o intérprete faz é pressupor que o falante relaciona determinados termos de sua linguagem a determinados termos do mundo da mesma forma que ele, intérprete. Esse princípio, portanto, se aplica a seres que compartilham de uma série de crenças (ou que compartilham de um esquema conceitual, se aceitamos que existem esquemas conceituais). Se houvesse alienígenas com o aparato sensorial completamente diferente do nosso, então, faria algum sentido aplicar a eles o princípio de caridade?
No modo de entender de Tennant, é possível aceitarmos a possibilidade de tradução mútua entre todas as linguagens, mesmo que alienígenas, e aceitar o princípio de caridade, mas mantendo uma abordagem relativista na relação entre esquemas conceituais e realidade, admitindo a existência de esquemas conceituais mediando a relação entre sujeito e mundo. Dessa forma, o autor pretende evitar o antropocentrismo acerca da linguagem e do pensamento proposicional.
Todas as linguagens humanas incorporam o mesmo esquema conceitual. Não se segue, contudo, que todo código possível para a comunicação de pensamento representativo do mundo externo tenha que estar na mesma classe de equivalência das linguagens usadas por seres humanos (TENNANT, 1999, p. 89, tradução nossa).
Como denunciado por Davidson, a própria noção de esquema conceitual conduz ao relativismo. Conforme Baghramian e Carter (2016, tradução nossa):
Relativismo, grosseiramente colocado, é a visão de que verdade e falsidade, certo e errado, padrões de raciocínio e procedimentos de justificação são produtos de diferentes convenções e estruturas [“frameworks”] de avaliação, e sua autoridade é confinada ao contexto que lhes dá origem. Mais precisamente, “relativismo” circunscreve visões que mantém que – em um alto nível de abstração – ao menos uma classe de coisas tem as propriedades que tem (p.ex., bonito, moralmente bom, epistemicamente justificado) não simpliciter, mas apenas relativamente a uma dada estrutura de avaliação (p.ex., normas culturais locais, padrões individuais), e correspondentemente, que a verdade de alegações que atribuem essas propriedades só se mantém se a estrutura de avaliação relevante for especificada ou fornecida. Relativistas caracteristicamente insistem, além disso, que se algo é apenas relativo, então não pode haver ponto de vista independente da estrutura a partir do qual se possa estabelecer se a coisa é realmente aquilo.
O relativismo condiciona a verdade ao esquema conceitual, o que a afasta do contato com a realidade. Será que poderíamos ao mesmo tempo admitir a possibilidade de que os extraterrestres com aparatos sensoriais distintos dos nossos desenvolvam uma linguagem proposicional e recusar o relativismo de esquemas conceituais?
Haack (1996) apresenta o relativismo como uma família de teses segundo a qual “algo é relativo a algo”. Para ela, contudo, há aspectos do mundo que independem de nós e de como nós pensamos que ele seja (embora o mundo não seja uma totalidade fixa independente do mental, ou seja, ela defende a realidade do mental). Por exemplo, uma pedra é algo que está no mundo independentemente do que quer que pensemos acerca dela. Ela denomina sua posição de realismo inocente [“innocent realism”]. Sua posição, grosso modo, é de que há muitos vocabulários e descrições diferentes que podem dizer o mesmo sobre o mundo, sendo compatíveis e podendo ser verdadeiros simultaneamente. Por outro lado, descrições contraditórias da realidade não poderiam ser simultaneamente compatíveis.
Essa perspectiva, ainda que “inocente” pode ser esclarecedora para compreendermos o tipo de realismo de Davidson (realismo quotidiano, na denominação de Malpas). Como seria possível descrições diferentes da mesma realidade serem ambas verdadeiras? Pelo fato de que elas foram construídas a partir da relação com a realidade. Sem essa relação, não haveria linguagem alguma para descrever coisa nenhuma. Então, por mais diferentes que duas linguagens sejam entre si, ambas conseguirão estabelecer pontos de contato com a realidade. Haack enfatiza que essa proposta de realismo não se compromete com uma perspectiva da verdade como correspondência sendo, portanto, compatível com o coerentismo de Davidson.
A evolução deu ao ser humano uma série de instrumentos comuns para lidarmos com o mundo, instrumentos que nos permitiram a construção da linguagem e de outros instrumentos externos a nós para olhar e decifrar essa realidade, mas sobre uma base comum, mais ou menos compartilhada por todos. Se, na linha de Davidson, recusarmos o dualismo esquema/conteúdo, caímos em um antropocentrismo? Essa parece ser, então, uma motivação de Tennant para defender a retomada desse dualismo. Porém, convém investigar a possibilidade de recusar o dualismo esquema/conteúdo sem precisar recusar junto a possibilidade de que extraterrestres com aparatos cognitivos completamente diferentes dos nossos possam desenvolver uma linguagem, ou seja, sem precisar cair em uma visão completamente antropocêntrica.
Se houvesse extraterrestres com aparatos sensoriais completamente diferentes dos nossos, em princípio, nada impediria que eles tivessem linguagem, ainda que não tivéssemos recursos para realizar a tradução. Mas como a linguagem teria se desenvolvido para eles? Ora,
se aceitamos a argumentação de Davidson, podemos considerar que a linguagem para eles se desenvolveu da mesma maneira que para nós, ou seja, a partir da relação entre falantes e mundo, por meio de relações causais que envolvem a própria realidade. O próprio argumento de Tennant parece nos conduzir a essa conclusão, já que, no experimento de pensamento proposto por ele, o desenvolvimento dos instrumentos científicos acaba por permitir algum nível de tradução entre nossa língua e a língua dos extraterrestres. Nesse sentido, embora nós e eles tenhamos aparatos cognitivos diferentes, há a possibilidade de nos ajustarmos justamente porque nosso conhecimento e o deles foi construído sobre as mesmas bases: as relações com o mundo real (certamente, o fato de termos evoluído em planetas diferentes irá dificultar bastante as coisas, mas a existência de um mundo compartilhado é pré-requisito para a possibilidade de tradução). Por isso, nós e eles também compartilhamos de um fundo de crenças a partir do qual, com uma série de ajustes, se torna possível a compreensão mútua.
Para compreender isso, não precisamos postular diferentes esquemas conceituais. O aparato sensorial deles pode ser diferente do nosso, mas a linguagem deles foi constituída por meio do contato direto com a realidade, mesmo que essa realidade seja muito diferente da nossa, seja lá que instrumentos eles possuem para fazer esse contato. Por mais que o contato deles com o mundo possa se dar por outras vias, isso não significa que eles constituirão uma perspectiva da realidade completamente diferente da nossa e que seus conceitos serão completamente distintos. Tanto é que, com o desenvolvimento científico e tecnológico, no experimento de pensamento de Tennant, a tradução começa a se tornar possível. Assim, o experimento de pensamento não conduz ao relativismo de esquemas conceituais e, se for unido ao pensamento de Davidson, nos conduz a um tipo de realismo: esse realismo davidsoniano que compreende as crenças como sendo construídas a partir do envolvimento direto com o mundo.
O princípio de caridade, portanto, pode ser conciliado com a ideia de que outros seres, constituídos pela sua relação com o mundo de forma completamente diferente da nossa, possam também ter desenvolvido uma linguagem, ainda que não sejamos capazes de reconhecer essa linguagem. Essa ideia, Tennant também pretende defender, mas à custa da adoção de um relativismo de esquemas conceituais. Mas isso não é necessário. Podemos aceitar essa ideia e, ao mesmo tempo, manter a rejeição do que Davidson considera o terceiro dogma do empirismo, adotando um tipo de realismo bastante fundamentado nas nossas experiências comuns.