• Aucun résultat trouvé

Acceptation et maintien de la mission - suivi des mandats

Dans le document Td corrigé LE MANUEL pdf (Page 11-71)

Eu escolho a memória. A desmemoria assombra, porque não a nomeamos, respira em nossos porões como monstros sem palavras. A memória, não. É uma escolha do que esquecer e do que lembrar – e uma oportunidade de ressignificar o passado para ganhar um futuro. Pela memória, nos colocamos não só em movimento, mas nos tornamos o próprio movimento. Gesto humano, para sempre incompleto. (Eliane Brum – Meus desacontecimentos – A história da minha vida com as palavras)

Tomando por base o recorte histórico proposto por Bolivar (2012), dentro de um contexto pós-positivista, da investigação qualitativa, o enfoque biográfico e narrativo tem adquirido uma identidade própria. Para o autor, a investigação biográfico-narrativa traz em si a crise da investigação positivista convencional, ou o que poderíamos chamar de dissolução do sujeito em estruturas, primeiro, por um movimento materialista, depois, por um movimento estruturalista. Então, nos é possível compreender, diante desse contexto, que a investigação biográfico-narrativa vem reclamar um retorno do ator, um retorno do sujeito em ciências sociais.

Dito isso, é importante que saibamos que ao romper com os paradigmas marxista, behaviorista e estruturalista, o que vamos denominar de abordagem (auto) biográfica compreende o indivíduo como um sujeito-ator-autor-em-devir (Delory-Momberger, 2012). Para Passeggi (2016) o sujeito autobiográfico permite a reconexão, nas pesquisas sobre o humano, entre a razão, concebida enquanto sujeito epistêmico (do conhecimento) e a emoção, concebida enquanto sujeito empírico (da experiência). Notadamente separados pela tradição dicotômica, sujeito/objeto, razão/emoção, teoria/prática.

Nesse contexto, Passeggi, Nascimento e Oliveira (2016) discutem que as narrativas em primeira pessoa já se configuravam enquanto fontes privilegiadas no tocante à pesquisa

56

qualitativa interpretativista há quase um século; porém, sua consolidação se deu a partir dos anos 1980, no chamado “retorno do sujeito”, o que Passeggi (2011, citado por Passeggi et al., 2016) se refere à guinada biográfica nas ciências humanas e sociais e especialmente na educação, se desenvolvendo em uma tradição alemã (Biographie forschung), anglo-saxônica (Biographical research), em países de língua espanhola (investigación biográfico-narrativa), em países de língua francesa (Recherche biographique), Portugal e no Brasil (Método (auto) biográfico ou Pesquisa (auto) biográfica).

Entendendo o que é posto por Souza (2006), a pesquisa (auto) biográfica se consolidou em abordagem e modo de compreender, a partir do trabalho com histórias de vida, que pode ser compreendida como concepção maior, que abarca outras modalidades, como a história oral, narrativa de vida, etnobiografia.

É interessante notar que ao longo deste texto são utilizadas diversas nomenclaturas, o que pode confundir o leitor, mas isso se deve ao fato de que há uma série de formas de nomear, a partir, principalmente, de um início e percurso histórico que também se originou de várias correntes e caminhos possíveis, como visto. Assume-se, porém a nomenclatura usual de (auto) biografia ao longo do trabalho proposto, entendendo que, assim como para Josso (1991) citado por Souza (2006), a autobiografia se expressa no escrito da própria vida, opondo-se de tal forma à biografia, visto que no caso autobiográfico, há a demarcação do papel vivido de ator autor de suas próprias experiências, sem mediação externa dos outros.

Passeggi e Souza (2017) chamam atenção que os parênteses surgem pela primeira vez, com Novoa e Finger, na hipótese de que os autores ao usarem esse recurso, ressaltam o caráter formativo do discurso autobiográfico. Nessa mesma linha, os autores destacam que há uma evidência no eu (auto), com o uso dos parênteses, para demonstrar mais claramente que

57

nas pesquisas em educação “o interesse recai sobre a atitude do ser humano para configurar

narrativamente sua experiência e com ela reinventar-se” (Passeggi & Souza, 2017, p. 16).

Bolivar (2012) afirma que para além de uma metodologia/análise de dados, a investigação biográfico-narrativa tem se constituído hoje enquanto uma perspectiva própria, uma forma de construção de conhecimento. Nesse sentido, Webster e Mertrova (2007) citado por Bolivar (2012) discutem que essa própria perspectiva de conhecer o mundo e construir realidade se desvela também em um método de investigação. Para Abrahão (2006) citada por Souza (2008), se faz pertinente, dentro do contexto da pesquisa com narrativas autobiográficas, compreendê-las em um movimento de tríplice aspecto: enquanto fenômeno, quando diz do ato de narrar-se; como método de investigação, no tocante a recolha de fontes para a pesquisa; como processo de autoformação e intervenção, ao lançar possibilidades de reflexão sobre a construção identitária dos sujeitos.

Na busca de uma síntese da epistemologia da perspectiva biográfica, Bolivar (2012) refere que a investigação biográfica e narrativa em ciências sociais se configura dentro do dito “giro hermenêutico” produzido nos anos 1970, onde, de uma instância positivista se passa a

uma perspectiva interpretativista, quando os significados atribuídos pelos atores, passa a ser o foco central da investigação. Para o autor, a investigação hermenêutica se dirige a dar sentido e a compreender, e não a explicar em relações causa-efeito, a experiência vivida e narrada.

O autor pontua que como metodologia hermenêutica, a (auto)biografia permite dar significado e compreender as dimensões cognitivas, afetivas e de ação. Destarte, é compreendido que ao contar suas próprias vivências e interpretar ações à luz das histórias que os agentes narram, trata-se de uma perspectiva peculiar de investigação, demarcando, desse modo, toda relevância à dimensão discursiva, da individualidade, os modos como os humanos

58

vivenciam e dão significado ao mundo da vida, mediante a linguagem. Nesse contexto, a subjetividade é também uma condição necessária ao conhecimento social (Bolivar, 2012).

Nesse contexto, Bolivar (2012) destaca o pensamento do filósofo alemão, Hans-Georg Gadamer na fundamentação da epistemologia hermenêutica, uma vez que o referido filósofo defende que o ordenamento social ocorre no interior das instituições e é determinado pela autocompreensão interna dos indivíduos que formam a sociedade, não existindo uma realidade social que não se expresse em uma consciência linguística articulada. Fazendo justiça ao chamado giro hermenêutico, outros autores também são de grande expressão entre eles: Marie Christine Josso, Gaston Pineau, Paul Ricouer. No quadro desta dissertação não teríamos como dar conta de tantos teóricos. Assumimos, então, uma inspiração mais particularmente em Passeggi e Delory-Momberger para dialogar, em alguns momentos, com referências anteriores do campo da fenomenologia existencial, como Critelli, partindo também de Hannah Arendt acerca do escopo das histórias de vida, e Merleau-Ponty, no que se refere ao olhar para as infâncias.

Para Delory-Momberger (2012), a pesquisa biográfica se constitui a partir de um projeto fundante, que se relaciona com uma das questões centrais na antropologia social, que diz respeito à constituição individual: como os indivíduos se tornam indivíduos? Para a autora, uma das questões implicadas nesse projeto é a compreensão do indivíduo como ser social singular. O objetivo da pesquisa biográfica é o de explorar os processos de vir-a-ser dos indivíduos em espaço social, mostrando como eles dão forma às suas experiências, de que modo significam os acontecimentos de sua existência. Dentro desse quadro, é possível compreender os processos de gênese sócio individual, a partir do estudo dos modos de constituição do indivíduo como ser social singular (Delory-Momberguer, 2012).

59

Passeggi (2016) retoma Delory-Momberger (2014) e Alheit e Dausien (2006) para discutir que a capacidade de fazer a narração da própria vida pode ser denominada como biografização, e compreendida enquanto uma atividade mental, cognitiva, por meio da qual o humano organiza, de forma narrativa, a experiência vivida. Para tais autores citados por Passeggi (2016), o ato de biografar a própria experiência seria não só uma ação circunstancial, mas, sim, um processo permanente, no qual nos tornamos, a cada dia, quem somos. Para a autora, ao contar nossa história, nos damos conta de nossa condição histórica enquanto pessoa que age e interage no mundo.

Souza (2008) pontua que a partir da abordagem biográfica, o sujeito produz conhecimento sobre si, sobre o outro, sobre seu cotidiano, revelando-se na subjetividade das experiências. Tal centralidade do sujeito no processo da pesquisa reforça a importância da abordagem compreensiva e das relações entre subjetividade e narrativa, que concedem ao sujeito o papel de ator e autor de sua própria história. Para o autor, a construção da narração inscreve-se na subjetividade, e estrutura-se num tempo, um tempo não-linear, um tempo da consciência de si, voltado para as representações que o sujeito constrói de si mesmo.

Passeggi (2010, citado por Souza, 2014) nesse sentido, afirma que vivemos em processo constante de nos autobiografar; então narrar a própria vida se configura enquanto ação humana espontânea.

O que importa é que ao narrar sua experiência, a criança, o jovem, o adulto, dota-se da possibilidade de se desdobrar como espectador e como personagem do espetáculo narrado; como objeto de reflexão e como ser reflexivo. Essa relação dialógica e dialética entre ser e a representação de si confere ao humano um modo próprio de existência: como sujeito biográfico que religa o sujeito epistêmico e o sujeito empírico, no mundo da vida e do texto. O sujeito biográfico se constitui, pois pela narrativa e na narrativa, na ação de pesquisar, de refletir e de narrar: como ator, autor e agente social. (Passeggi, 2016, p.82)

60

Nesse sentido, Delory-Momberger (2012), reconhece um lugar particular para a enunciação e para o discurso narrativo, ao passo que entende que o narrativo é a forma de discurso que mantém a relação mais direta com a temporalidade da existência humana. Construção de concepção essa, de grande relevância para nosso entendimento do fazer científico.

E, assim, no estudo que segue, pretende-se lançar mão do apoio teórico-metodológico da abordagem (auto)biográfica, no esforço de compreender as infâncias produzidas e construídas no espaço do acolhimento institucional, a partir das próprias narrativas infantis, inserindo-se, assim, dentro do escopo de discussão afirmado dentro da construção teórica da Sociologia da Infância.

61

Dans le document Td corrigé LE MANUEL pdf (Page 11-71)

Documents relatifs