• Aucun résultat trouvé

ACCEPTABLE FORTRAN II STATEMENTS

Dans le document 5/7 (Page 34-39)

No filme “Inquérito sobre um cidadão acima de qualquer suspeita”, de Elio Petri (1970) tem-se uma representação da “insuspeitabilidade” das autoridades, através da alegoria do policial que comete um crime e não consegue provar a própria culpa. Enquanto inocentes são presos em seu lugar, as autoridades que deveriam reconhecer a culpa do colega, rebatem qualquer de seus argumentos que comprovem ser ele, o próprio chefe de polícia, o assassino.

O filme de Petri poderia servir como uma ilustração do panóptico de Bentham. Quem ocupa o centro do dispositivo pode ver a todos, interceptar suas ligações, vigiar-lhes pelo simples desejo de fazê-lo e ainda assim ser invisível. Do alto de sua torre central enquanto chefe de polícia, não pode ser visto, não pode ser tornado suspeito e sua confissão está fora do enunciável.

Antes de deixar a cena do crime, o assassino planta todos os indícios que sabe que serão procurados por seus subordinados. Pegadas de sangue de seu sapato, impressões digitais, um fio de sua gravata de seda. Intencionalmente deixa todos os rastros que levariam a ele. Se não é visto é por que está fora do visível,

está acima de qualquer suspeita. A assimetria da visibilidade no filme de Petri é uma paródia, não apenas do sistema de justiça e da polícia, mas das ciências humanas que fazem ver a tudo na medida em que invisibilizam os autores e os motivos das investigações.

O assassinato é a cena inaugural do filme. Antes de entrar no apartamento de sua vítima, que é a sua amante, o policial vê as inscrições “Giustizia” e “Scienza” na fachada do prédio. Ao encontra-lo, a mulher lhe pergunta: “como vai me matar hoje?” e ele responde “Vou cortar sua garganta”. Ficção e realidade estão em jogo. A encenação dá lugar ao crime sem romper qualquer ordem ontológica.

O debochado policial consegue provar sua insuspeitabilidade justamente no momento de sua confissão. O assassino não pode ser visto nele. O policial é o duplo do criminoso, seu avesso, e talvez por isso mesmo seja inalcançável. Alguns são suspeitos independentemente do que façam, outros não podem ser culpados por mais que confessem seus crimes.

Para o chefe de polícia de Petri todo subversivo é um criminoso e todo criminoso um subversivo. Não há distinção entre crimes comuns e políticos, pois todo crime é, em última instância, um crime político. Uma ameaça à ordem vigente. Assaltantes de banco e manifestantes de esquerda servem ao mesmo propósito contra certa ordem social e devem ser combatidos da mesma forma (MELLO, 2018). No fim de seu discurso afirma:

O uso da liberdade é uma constante ameaça para os tradicionais poderes e às autoridades constituídas. O uso da liberdade torna qualquer cidadão um juiz e impede o livre uso das nossas funções. Defendemos a lei que deve ser imutável e gravada no tempo. O povo é imaturo, a cidade está doente, outros tem a tarefa de educa-la e curá-la, mas nós [a polícia] temos o dever de reprimi-la! A repressão é nossa vacina. Repressão é civilização. (PETRI, 1970)

A imagem da autoridade construída por Elio Petri está conectada à figura do pai, exercendo seu poder sobre um povo infantilizado. Seu poder sem limites está aquém e além da legalidade. A repressão encontra um fim em si mesma, pois é sinônimo de civilização. Em outra ocasião, Petri retoma em flashback um diálogo entre o assassino e sua futura vítima:

Procure lembrar as imagens mais vergonhosas da tua vida. Pense que eu posso saber tudo sobre você. O Estado fornece todos os meios para conhecer uma pessoa.

Vou convencê-la que sei tudo sobre você para provocar um complexo de culpa [...] Todos voltam a ser crianças quando confrontados com a autoridade estabelecida. Eu represento a lei. Eu me torno o pai. É um modelo inatacável. Eu assumo a posição de Deus e da consciência. É uma armadilha para descobrir segredos e profundos sentimentos. [...] No final, os agentes policiais assumem suas semelhanças com os criminosos, suas palavras e atitudes e até seus gestos (PETRI, 1970)

A própria vítima não deixa de notar a infantilidade do agente da lei, tomado por seus desejos, agindo de acordo com suas pulsões, buscando limites, deparando-se com seus interditos. O modelo psicanalítico é evidente. Os pais não seriam, afinal, tão diferentes das crianças, mas agora detendo certo poder, certa “insuspeitabilidade”, graças à sua posição social. Perto da autoridade estatal, entretanto, todos são crianças. (MELLO, 2018)

A produção de poder, tanto dos pais em relação aos filhos quanto do policial em relação aos cidadãos, tem muito a ver com um modelo assimétrico de visibilidade. O pai é capaz de notar os indícios inacessíveis à percepção infantil. Não saber o que sabe a autoridade é um elemento de submissão, mesmo quando se é inocente. O delito, por estar além do visível da criança, pode ter sido cometido sem que se saiba. O olhar do pai pode descobrir o pecado que nem o filho que o cometera tinha acesso.

Peter Berger (1973), considerando a construção social da realidade, percebe a vantagem dos que, através dos universos simbólicos parciais interiorizados, conseguem manter versões mais favoráveis sobre si mesmo através da “dramatização do eu” que se torna possível apenas fora do universo simbólico infantil, no qual se está vulnerável à transmissão do real de seus “outros significativos”. É apenas após a socialização primária, cujo fim em muitas culturas é marcado por rituais de passagem, que as “verdades” transmitidas tornam-se questionáveis. O “eu” dos universos simbólicos parciais e questionáveis, passa a ser representável, não dando acesso imediato ao olhar do outro:

O indivíduo estabelece então uma distância entre seu eu total e sua realidade, de um lado, e o eu parcial, funcionalmente específico e a realidade deste, de outro lado. Esta importante façanha só é possível depois de ter havido a socialização primária. Dito em termos claros, mais uma vez, é mais fácil “esconder-se” da professora do que da mãe. Inversamente é possível dizer que o desenvolvimento desta capacidade de “esconder-se” é um importante aspecto do processo de crescimento e passagem ao estado adulto. (BERGMAN, 1973, p. 184)

O que a “virada indicial” apresenta, é um universo simbólico em que apenas alguns passam, de fato, ao estado adulto, tendo com isso as faculdades de transitar por universos simbólicos parciais, enquanto a grande maioria das pessoas não especialistas, são infantilizados por um olhar capaz de ultrapassar suas máscaras e chegar ao seu “eu” da socialização primária, do qual, dificilmente, essas pessoas conseguem escapar.

A capacidade de controlar sua emissão sígnica é uma das coisas que permite ao indivíduo adulto criar “personas”, que representam, ao menos em parte, aquilo que querem representar. O olhar policial (do policial em si, do psicanalista, do médico, do antropólogo...) desnuda as pessoas de suas possibilidades de “esconderem” o que não querem que seja visto. O “intencional” é tido como “o que é passível de mentira” (parecer e não ser), enquanto o não intencional (não parecer e ser) entrega as verdades recônditas A criação de corpos especializados derivados de técnicas disciplinares, colocam o “homem comum” em uma posição imposta de ingenuidade. Por não conhecerem os códigos e não terem acesso ao “olhar clínico” especializado.

Dans le document 5/7 (Page 34-39)

Documents relatifs