verbo ser na disposição lírica
Duas possibilidades importantes de nuanças temporais, que podem ser relacionadas ao tempo de presença, ocorrem em construções sintáticas e disposições espaciais do verbo "ser" − embora também possam ser perceptíveis noutros termos e disposições, como nos provocados pela ruptura rítmica-temporal do enjambement −, que transformam o sentido do poema pelo investimento temporal sobre sua disposição e seu significado, ou seja, com incidência no corte sintático e na relação significativa estabelecida por esse corte, na frase.
É o que podemos chamar de caráter mácron e caráter braquiado, invocando aqui a ideia básica dos diacríticos latinos clássicos do alongamento (macro/mácron) e da brevidade (braquia) vocálica, ideia que creio aplicar-se bem às temporalidades estabelecidas por dois usos do verbo ser, como efeito sintático- semântico no poema: uma incidência durativa, extática ou de suspensão significativa, adquirindo um sentido que se orienta para um aspecto durativo-
ontológico, o qual podemos sinalizar com [ē']; e um aspecto copulativo, cujo acento
desliza para ser lançado sobre a predicação qualificativa do sujeito, que podemos sinalizar com [ĕ']. No poema, tais nuanças são extremamente importantes para sua apreensão compreensiva e para a orientação temporal que nele se estabelece, pois se de um lado o acento está numa temporalidade contínua e num desejo de perpetuação da duração, no sentido de um mergulho na essencialidade ou na atemporalidade, no outro, o acento é trilha para uma visão outra do sujeito, e outra relação da linguagem com o mundo (ou da linguagem do mundo).
Recorro a dois exemplos, um deles nos é dado pela poesia de Josoaldo Rêgo, e o outro, pela de Fábio Andrade, referidas não no sentido de valor comparativo, mas pelas possibilidades que apontam e fornecem, principalmente no que diz respeito ao dimensionamento do tempo de presença. De Josoaldo (2016), em trechos do seu livro Carcaça:
A chuva é o começo (Calhas, p. 20) a fratura é tempo e maresia (Fraturas, p. 26) a Terra-é o quebrar pedras e desalojar a botânica dos ossos
(Natimudo, p. 33)
ou é a selva ou não é
(Alinhador de trilhos, p. 56)
Em todos estes exemplos, o corte do verso define uma temporalidade [ē'], que recai em primeiro lugar sobre a condição de ser da coisa ou sobre um estado de permanência, estendendo-se sobre seu próprio alongamento, antes de recair sobre seu complemento, antes de ser qualificado como isto ou aquilo, é o que é. Descobrimos, nesse alongamento da coisa-linguagem, que a temporalidade se torna também tempoespaço suspensivo, delongado, estendido até recobrir tudo, inclusive o sujeito falante, que desaparece − ou se dilui na paisagem-tempo como mediador do nosso olhar, do nosso pensamento −, como é ressaltado mais nitidamente na "antroponáutica" de Fraturas: "a fratura é [ē']/ tempo e maresia". O espaço, por sua vez, também se temporaliza, transcendendo para uma ontologia, antes de tornar-se do desalojamento do impulso vital do sujeito pelo trabalho trágico (sisífico) do absurdo: a Terra-é/ o quebrar pedras/ e desalojar/a botânica dos ossos - resquícios ainda da fratura entre pele e osso. E, no caso do último excerto, vemos uma totalização, em que se impõe presença ou ausência absolutas, do tipo "ser ou não ser", encarnadas na presença da selva.
Podemos convocar, nestes exemplos, também a noção do tempo de
presença, de Rodriguez, que aí se faz, entretanto, na acontecência dos elementos
espaçotemporalidade em devir, sendo: o que é, e o que já não é, porque o próprio
presente há-de ser posto em dúvida, para que a coisa encarnada na linguagem se retenha e se projete, ultrapassando-se para além da ecstase.
Em Fábio Andrade, "a matéria da presença"52 já pode ser tomada por outros meios, mas elejo aqui um exemplo para discutir o outro uso do verbo ser, seu caráter braquiado [ĕ'], conforme estamos trabalhando. Mostras do livro A
transparência do tempo (2009): Toda palavra é cruel não cicatriza nem fecha a espera amarga quem da palavra espera trégua toda palavra é guerra campo marcado ossos arruinando sem pressa toda palavra é menos do que a seta que a espera revela com nitidez o que nos fere e cerca.
(Dizer, p. 32)
Retomando o questionamento do homem com o dizer − com a linguagem−, desde que o mundo ganha sua consciência linguística, e, mais especificamente, o clássico embate do poeta com a palavra, aqui Fábio transforma essa palavra em mais que "luta vã", mais que o desafio do esgrimista baudelairiano, num embate ainda mais rude e arcaico: a palavra, enquanto linguagem, é um campo de guerra corpo-a-corpo, em que o sujeito leva uma seta nas mãos, e, enquanto necessidade de precisão, é a condição do que nos fere e cerca (mesmo quando estamos com a seta, à sua espera), deixando a ferida em aberto: esta ferida do dizer e do sentido, que não sara, por aprofundar-se, sob a casca. Aqui, não estamos
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numa brincadeira de adivinhação de movimentos, de defesa e ataque. Nós buscamos a palavra certa, nós estamos com a seta para cravá-la (ela, qualquer uma, é cogitada como menos que a seta...), mas é ela quem, afinal, segundo a "última" fala dessa voz, cerca-nos e apanha, acertando-nos na imprevisibilidade e fazendo-nos sangrar, mesmo na (suposição da) certeza − palavra s/ce(r)teira − de sua transparência e nitidez.
Aí, o tempo é o que se estende sobre o cenário dessa guerra, é o já dado, ou como tempo gnômico53 da verdade inelutável acerca da palavra, ou na revelação do movimento, na espera dessa seta e em sua ferina ou cruel atualização. Não obstante essa omnitemporalidade estabelecida pelo embate, construtivamente há uma transitividade sintático-semântica imediata proporcionada pela ligação do verbo
ser entre o sujeito e sua predicação, onde repousa o acento, a ênfase, a revelação.
A palavra não é [ē'], ontológica e temporalmente como duração, antes de ser cruel ou ser guerra: ela simplesmente [ĕ'] cruel, [ĕ'] guerra; deste modo, não sendo, é, ao menos aparentemente, "menos que a seta que a espera".
Com base, então, nessas ocorrências dentro da poesia, proporcionada pelos procedimentos escriturais, pelos "modos de dizer", podemos tratar dessa outra face relativa à duração no poético, concernente ao tempo de presença, e observável no uso particular das disposições sintáticas, neste caso, em dois usos diferentes das formas do verbo ser. São, digamos assim, duas formas de desaguamento (do rio) do tempo, uma do que escoa encarpelado, hesitante entre as pedras da retenção e da protenção, enquanto o outro jorra na entrega de tudo quanto leva. E, no entanto, ambos estão no território da imperfectividade, mas o tempo de presença não se apresenta do mesmo modo: esta é a diferença do que podemos propor como "temporalidade mácron" e "temporalidade braquiada", nas disposições líricas.
1.2.5 Cronótopos da atualidade confrontada: o presentismo, o pós-modernismo, o