aos “voluntários” do texto do Pioneiro.
A matéria considerou os haitianos, senegaleses e nordestinos também como voluntários, além da “comunidade”, que possibilitariam que se contasse a “história sobre o crescimento de Caxias do Sul da origem aos dias atuais”. Da maneira como o texto foi elaborado, subentende-se que “a comunidade” no geral se inscreve no desfile, por livre e espontânea vontade, para contar a história de Caxias do Sul, assim como fez a menina: por adesão livre e espontânea. Logo, voluntária. Como nos processos identitários considera-se a vontade subjetiva dos atores sociais, a expressão “participantes por inscrição” torna-se mais objetiva e imparcial.
Mas o fato é que não é efetivamente por participantes “voluntários”, no sentido proposto pelo jornal, que se fez a composição de pessoas do desfile, até porque as inscrições foram minoria. Houve um processo organizacional. Houve as pessoas e grupos relacionados, os “não avulsos”. Houve muitos significados entre a decisão por parte da comissão em convidá-los, o convite e o aceite. A próxima parte do capítulo tratará sobre esses significados.
4.3 Desfile e entidades: como se fez a composição de participantes
Antes de se iniciarem as análises sobre como se deu a participação de pessoas no desfile da Festa da Uva de 2014 é necessário retomar os nomes dos grupos selecionados para esta pesquisa: os “afrodescendentes”, a Associação Germânica Caxias do Sul – Allesgut, Braspol, o grupo de danças Família Trentina e Os Gaudérios, os “haitianos”, os “índios”, os “nordestinos”, os “senegaleses”, (ou seja, os não-avulsos).
Alguns destes nomes são o de entidades e outros não. Esse aspecto é passível de análise. A comissão convidou a Allesgut, e não os “alemães”. A Braspol, e não os “poloneses”. Não constaram na lista como “alemães” ou “poloneses”. Quanto aos grupos de dança, já pelos seus nomes, é possível notar suas conexões com os “gaúchos” e os “italianos”. Mas tampouco apareceram dessa forma. Portanto, na lista havia grupos sem nomes formais de entidades, isto é, os “índios”, os “nordestinos”, os “senegaleses” e os “haitianos”. Junto aos dois últimos havia o contato do CAM (Centro de Atendimento ao Migrante), uma entidade formalizada. Tais grupos com nomes formais podem ser considerados como já instituídos, sendo escolhidos e escritos porque já existiam. Os outros talvez não tenham sido escritos por desconhecimento, por parte da comissão, da existência de que possuíam uma entidade representativa, ou talvez pela sua, de fato, inexistência. Porém, os significados que estão por
trás dessas nomeações (e nos sentidos tanto de eleger, como de denominar), serão descritos na presente análise.
No caso da entrevista com a presidente da Allesgut, verificou-se que a participação no desfile se deu em seguida ao surgimento da entidade. Em 2005 surgiu a associação. Em 2006 batizaram o nome fantasia, e logo foram convidados a participar do desfile. No caso do representante da Braspol, também ocorreu da mesma forma, porém, sua participação se deu antes da Festa de 2006. Mas foram convidados logo após terem fundado a entidade, em Caxias do Sul. Também é relevante salientar que, logo no início da conversa com ambos informantes, uma das primeiras relações que fizeram foi a de mencionar que suas participações no desfile se deram através das entidades.
No caso do representante da Braspol, é interessante a relação que fez caracterizando a sua primeira participação como “no vácuo”, ou “na carona” dos outros grupos, conforme o trecho da conversa:
Ana Lia: [...] essa participação de vocês de dois mil...que tu falaste, né? Celestino: Isso!
Ana Lia: Como é que aconteceu [...] essa participação?
Celestino: É que, nós tínhamos as pessoas que já, parece que sempre participaram, sempre não, há muito tempo já vinham participando do desfile né? E...quando, quando da organização assim, da...do desfile foi, foi aberta assim...essa possibilidade e...nós entramos assim meio que na carona na primeira vez né? [...] Ana Lia:[...] eu gostaria de entender mais esse [...] “na carona dos outros grupos”[...] Celestino: (risos) não, porque que nem eu te falei né? Não foi...ahm...já tinha pessoas da nossa...do nosso meio que participavam, né? Participavam...sabe...as pessoas se engajam...
Ana Lia: Mas eles vieram também da Braspol ou não?
Celestino: Não, não! É que a Braspol antigamente ela nem existia... Ana Lia: Ah, sim, sim!
Celestino: Daí quando a Braspol se formou... essas pessoas se integraram à Braspol e já participavam dos desfiles anteriores, mas não como Braspol...eles podiam participar por outras entidades, né? E aí nós entramos... não lembro muito bem porquê já faz... passaram quinze anos, né? Mas era...pelo que eu lembro era mais ou menos isso, né? Enfim! Recebemos o convite dessas pessoas que já participavam que eram casal de professores...e...então eles estavam bem integrado nessa, nessa questão do desfile da Festa da Uva (SZYNWELSKY, Celestino. Entrevista. [abril 2015]. Entrevistador: Ana Lia Branchi. Entrevista concedida à pesquisa de mestrado, grifo nosso).
Ao responder a pergunta sobre o que significaria participar “na carona” dos outros grupos, surgiram uma série de relações presentes no processo de participação de pessoas no desfile. A Braspol, segundo seu relato, quando se formou, integrou como membros pessoas que já participavam do desfile, ou já estavam “engajadas”, ou ainda “integradas” na questão do desfile e até mesmo participando por outras entidades. O informante afirmou não se lembrar da razão de terem entrado, mas o convite que foi feito à Braspol, desta vez, veio de
pessoas vinculadas ou próximas à organização do desfile, que se vincularam, posteriormente, à entidade. Parece que o “na carona” veio no sentido de que a entidade foi convidada por pessoas que a integravam, e não pela comissão da Festa, e também por terem iniciado timidamente, “sem saber o que fazer”. Apesar disso, Celestino relatou que, nas edições seguintes,
[...] a gente foi aumentando, foi aumentando...tanto é que nós, nos últimos, né?...a gente...participou com grupo de dança, e coisa assim, conseguimos elaborar né? Uma turma maior em, sempre vestida tipicamente com trajes típicos poloneses, trazendo até digamos na última agora uma coisa que se identificasse[...]era um carro alegórico era um ovo, em polonês até tem um nome específico é o pisanki né? [...] então a gente desfilou atrás desse carro alegórico que na verdade era um ovo gigante, né? (SZYNWELSKY, Celestino. Entrevista. [abril 2015]. Entrevistador: Ana Lia Branchi. Entrevista concedida à pesquisa de mestrado, grifo nosso).
Nesse contexto, percebe-se a relevância de significado que o participante atribuiu quando apareceu no desfile da Festa da Uva representando a sua entidade e, mais ainda, em ver a sua entidade sendo representada. Embora tenham participado de outras edições (não como Braspol), as mais significativas para ele foram as que estavam em maior número, com trajes típicos e até mesmo danças típicas e com um carro alegórico que os identificava, como ocorreu na última.
Muitas vezes assinalou, também, a importância de representar sua “etnia” no desfile, aspecto a ser analisado adiante. Destaca-se da sua fala, também, a questão do “engajamento” das pessoas no desfile, sendo que a busca pelo entendimento do que significa a participação por engajamento também deve ser realizada. Ainda, grifou-se, logo no início, que a participação se deu por abertura de uma possibilidade por parte da organização.
Tendo em vista os aspectos referidos e analisando-se os dois casos, pode-se constatar que a participação dos informantes no desfile da Festa da Uva se deu por meio da sua vinculação às entidades. As entidades, por sua vez, participaram a convite da organização do desfile, ou de pessoas vinculadas ou “engajadas” no desfile. Esse processo se deu, conforme as falas, tanto no desfile de 2006, quanto no desfile de 2014, demonstrando uma continuidade dessa maneira de recrutar participantes.
Nesse contexto, compreende-se com mais clareza o significado do termo “avulsas”, utilizado para designar os participantes por inscrição, ou seja, os que não têm vinculação a uma entidade ou uma relação ou integração anterior ao desfile, à comissão, ou às pessoas envolvidas. Portanto, é possível identificar a distinção entre os participantes “avulsos” e os “engajados”, sendo os últimos em maior quantidade e fundamentais para que ocorram os
desfiles. O engajamento das pessoas apareceu também no trecho a seguir, destacado, em que disse que nos desfiles, em relação ao seu grupo,
[...] sempre aparece bastante gente por que as pessoas realmente gostam de participar do desfile, né? É uma coisa voluntária, [...] mas as pessoas fazem sacrifícios até pra ir, né? [...] um exemplo, quando no desfile de abertura que era, tinha que tá às cinco e pouco...então tinha que sair mais cedo do trabalho, era numa quinta-feira, sair mais cedo do trabalho, pra...pra botar a roupa e ir pra avenida, né? Então...realmente as pessoas se engajam né? E querem participar, gostam de participar [...] (SZYNWELSKY, Celestino. Entrevista. [abril 2015]. Entrevistador: Ana Lia Branchi. Entrevista concedida à pesquisa de mestrado, grifo nosso).
No fragmento acima transcrito também emergiu a questão de ser uma participação voluntária. Porém, se o sentido de voluntário for o de fazer parte de uma corporação por mera vontade e sem interesse26 e o de engajamento for o de envolvimento ao serviço de uma ideia ou de causa27, depara-se então com um paradoxo: a participação pode ser voluntária e engajada ao mesmo tempo? Participa-se desse evento sem esperar nada em troca? Qual o motivo das entidades participarem? A decisão em aceitar o convite da organização, nessa ótica e com base na fala do informante, se aproxima mais do engajamento do que do voluntariado. Do engajamento, devido ao envolvimento em prol de uma causa que pode pressupor uma intenção, ou, até mesmo, um ganho, e tal ganho não quer dizer monetário, mas simbólico. E ainda: esse engajamento ou a presença das entidades é instituído, pois, caso contrário, a comissão não teria nomeado os participantes por inscrição como “avulsos”. Tanto é instituído que facilmente localizaram-se os informantes através da lista de contatos dos grupos e representantes, fornecidas pela comissão, para a presente pesquisa.
Em tal circunstância, existiam grupos ou entidades que tinham uma relação com a comissão que organizava o desfile e por parte dela verificou-se um interesse em convidá-las. E também havia interesse por parte dos grupos em aceitar o convite (engajamento). Se a sociedade está organizada em entidades torna-se mais ágil e fácil a articulação de pessoas para o desfile, pelo menos nesse aspecto de captação de participantes.
Em síntese, a comissão nomeou (elegeu) grupos para participar do desfile e os convidou. Alguns deles eram instituições formalizadas e já constituintes da rede de relações da organização, como o caso das duas associações referidas. Outros informantes também relataram participar dessa maneira, ou seja, a convite da comissão e de uma maneira engajada,
26Dicionário Priberam da língua portuguesa, disponível em http://www.priberam.pt/dlpo/volunt%C3%A1rio. Acesso em 20.06.2015.
27 Dicionário Priberam da língua portuguesa, disponível em http://www.priberam.pt/dlpo/engajamento. Acesso em 20.06.2015.
conforme o fragmento de transcrição a seguir. Ao ser questionado sobre como iniciou sua participação nos desfiles da Festa da Uva, contestou:
Na verdade, como a gente faz parte da, da cultura gaúcha através do grupo “Os Gaudérios”, a gente sempre fez parte no, no bloco tradicionalista, né? Então eu faço parte dos desfiles há alguns anos, algumas Festas, algumas edições. A gente teve várias, várias participações nos desfiles e na Festa da Uva no geral [...] sempre os desfiles eles acontecem, a organização, eles, eles classificam como uma, a Festa da Uva como uma feira multicultural né? [...]e aí eles buscam [...] as pessoas que cultuam as tradições de cada etnia pra contemplar o desfile, os italianos, os gaúchos, os alemães, o negro e a, a gente recebeu o convite por a gente cultua as tradições gaúchas. Então é dessa forma aí! (MENEZES, Marcelo de. Entrevista. [abril 2015]. Entrevistador: Ana Lia Branchi. Entrevista concedida à pesquisa de mestrado, grifo nosso).
No trecho acima, o representante da cultura gaúcha (por auto atribuição, na entrevista) afirmou que sua participação no desfile se deu há anos, tanto que disse que “sempre” fez parte no bloco tradicionalista, o que demonstrou um engajamento dele e do grupo que representava. Também relatou que a organização do desfile buscava pessoas que representavam diferentes culturas, para que o desfile pudesse contemplar o que classificavam como uma feira multicultural. Aqui apareceu também a eleição (nomeação) de grupos por parte da comissão. O aspecto da diversidade também constou na sua fala e entendeu que a busca pelo seu grupo foi em função, entre outras razões, a de que representavam a cultura gaúcha.
O informante representante do “Grupo de Danças Família Trentina” teve uma resposta similar ao do informante recém referido:
[...] a nossa participação na Festa da Uva já vem de longos, longos anos. Eu participo aqui da comunidade da Festa do Vinho Novo, é, desde 2006 [...] e a Festa do Vinho Novo sempre participa do desfile da Festa da Uva. No primeiro momento, participei em dois anos [...] dando suporte, à questão da Festa nos desfiles [...] conduzindo as rainhas, as princesas e o pessoal que desfilava, auxiliando [...] na coordenação dos desfiles. E posteriormente nas duas últimas Festas participando de forma mais efetiva com o grupo de danças Família Trentina de Forqueta, no qual eu faço parte (SERAFIN. Pedro. Entrevista. [abril 2015]. Entrevistador: Ana Lia Branchi. Entrevista concedida à pesquisa de mestrado, grifo nosso).
Tendo em vista o trecho citado se percebe o engajamento do informante nos desfiles da Festa da Uva, tanto pela entidade que representou nos últimos dois anos, ou seja, o grupo de danças, quanto pelas Festas do Vinho Novo, que, segundo ele, sempre participaram dos desfiles. Também mencionou a decisão da comissão de inserir as danças italianas no desfile. Por isso, entendeu terem sido convidados (nomeados/eleitos) para participar do desfile, conforme observou:
[...] o nosso grupo [...] é um dos poucos grupos de dança italiana que ainda resiste na nossa região [...] existe o grupo Família Trentina de Forqueta e mais um ou dois, não
mais. Nesse sentido, a coordenação da Festa da Uva entendeu por bem que inserir essa questão da dança italiana nos desfiles...e foi por isso que nós acabamos participando e aceitando o convite de plano da coordenação da Festa da Uva (SERAFIN. Pedro. Entrevista. [abril 2015]. Entrevistador: Ana Lia Branchi. Entrevista concedida à pesquisa de mestrado, grifo nosso).
E para encerrar as análises desses dois casos, houve a semelhança no convite, isto é, ambos entenderam que os grupos os quais representavam foram convidados por uma necessidade específica da comissão e o interesse no que representavam – a cultura gaúcha e italiana, por meio das danças. Também tiveram igual o fato de enfatizarem as participações de longos anos, ou afirmando terem “sempre” participado, diferindo em relação ao fato do engajamento pessoal, sendo o primeiro pelo grupo de danças, e o segundo pelo grupo e pela Festa do Vinho Novo.
Os quatro informantes referenciados até o momento se disseram representantes de entidades, e estas, por sua vez, foram convidadas a participar. A primeira mencionou sua participação a partir da Festa de 2006, logo que a associação foi instituída, em 2005. O segundo, a partir da Festa de 2000, logo que a entidade foi instituída. Os dois últimos declararam ter participado “sempre” ou “sempre no bloco tradicionalista”. Nesse caso, as entidades já eram formadas quando foram convidadas para o desfile, já eram instituídas antes de iniciarem sua participação. E sua participação no desfile de 2014 também se deu pela sua organização, pelo convite e pelo seu engajamento, pois já eram participantes há várias edições.
Entretanto, essa pesquisa permitiu a constatação de que há outros modos de nomeação (eleição ou denominação) por parte da comissão, a saber: a comissão do desfile procurou o participante para convidá-lo a participar, e, com sua ajuda e engajamento, a buscar outras pessoas para compor um grupo para aparecer no desfile, conforme a necessidade. Foi o caso que ocorreu com o Mestre Brasil, no desfile de 2006, ao ser, segundo ele, convidado a “buscar figurantes”, ou, em suas palavras, “[...] fomo procurado...tivemo toda a assistência...pra ai foi.. foi fazer um trabalho...buscar os figurantes... convencer eles...ah...de que a Festa era nossa... de que estavam nos convidando...”. (BRASIL. Diógenes. Entrevista [março 2015]. Entrevistador: Ana Lia Branchi. Entrevista concedida à pesquisa de mestrado).
Diante disso, a partir da decisão por parte da comissão de que haveria a participação dos negros - conforme se analisou anteriormente, por inserção da diversidade, constatada por Mocellin (2008) e verificada na fala do próprio informante, havia a necessidade do contato com as pessoas. O contato foi feito com o Mestre Brasil e, provavelmente, pudesse ter havido um primeiro convencimento, o dele próprio. O primeiro passo da comissão seria o de
convidá-lo, engajando-o “na causa”, para que houvesse a representatividade dos negros no desfile. Vencido esse passo, ele deveria fazer o mesmo com as pessoas que convidasse. Em suas palavras: - “[...] o pessoal nos procurou e depois a gente... bater de porta em porta pra convidar homens, mulheres, crianças... porque precisávamos estar incluído... precisávamos [...]”. Relatou, no transcurso, uma resistência inicial que encontrou, mas contou que pôde participar desse processo que denominou como “revolução”:
[...] mas corríamos íamos na casa...montemo uma equipe de pessoas....tem umas pessoas chegavam assim...não...não... –“para aí...para aí...isso aqui é uma questão política”...é porque aqui tá o prefeito que entrou... e tal... e ai o pessoal não queria mais...- “essa Festa não é nossa”... mas... como eu tinha... um crédito na sociedade...ia na casa dos pais dos meus alunos da capoeira que eram...que começaram criança... então eu tinha esse crédito... convencendo um... e convidava os adolescentes... convidávamos até chegar nos pais...e convencer eles da importância...porque lá estava a representação dos negros e era um orgulho pra “nóis”...saber... que a primeira moradia...que daí...viemos a descobrir isso...que que era o primeiro barracão dos imigrantes? [...] e então convencer foi um processo leeento... e gradual... leeento e gradual... o primeiro grupo que nós procuramo foi o das pessoa ligada... ligadas ao movimento negro, né? que a gente faz parte... E foi a primeira resistência... [...] por ser o movimento de resistência mais antigo do país... [...] e... conseguimo algumas adesões...e depois...mudamos a estratégia...[...] vamo convidar pessoas... que não tem envolvimento político... partidário... e nem ligação com o movimento negro...que essas pessoas vão acabar...acreditando em “nóis”[...]quando conseguimos as primeiras cinquentas pessoas...dizemo o seguinte: cada um... convida mais um... né? Até quando chegou um momento... que nós tínhamos quatrocentas e noventa pessoas participando...então[...] foi todo o processo[...] (BRASIL. Diógenes. Entrevista. [abril 2015]. Entrevistador: Ana Lia Branchi. Entrevista concedida à pesquisa de mestrado, grifo nosso).
Pelo convite da comissão ao representante do movimento negro de Caxias do Sul, perpassou a ideia do convencimento, primeiro do representante e depois das pessoas que ele convenceria. Na justificativa desse convencimento continha a motivação em participar, as representações dos negros no desfile e na construção de Caxias do Sul, como já analisado. Nesse processo, as ditas resistências que enfrentou o fizeram mudar as estratégias e buscar pessoas negras sem envolvimento político. Ele se valeu de seu engajamento, do seu “crédito na sociedade”, por causa da capoeira, e angariou as adesões através dos seus alunos e familiares. Em relação à experiência relatou que o objetivo foi atingido (salienta-se: o dele e o da comissão):
[...] conseguimo fazer [...] uma das maiores Festa realmente assim...que marcou esse período...por que ela veio resgatar o ser humano...veio trazer pessoas negras que eram excluídas da Festa...que não podiam participar...que não tinham motivo nenhum... pra ir visitar os pavilhões...qual o motivo, tu veja? Não tem motivo! A pessoa se sente excluída... completamente fora... ah... revoltadas...e de repente... tava... de repente tava um..um colono... que assim era visto o então prefeito Sartori, né?...incluindo pessoas pra dentro da Festa... e acabo abrindo...abrindo então a f... fazendo essa...essa abertura...e eu tive essa oportunidade, né?...de vim tá participando ali... e depois nunca mais saí da Festa... aliás a Festa da Uva eu venho
cooperando muito... com a história dos afrodescendentes da cidade...cada vez trazendo...então trouxe essa primeira parte...ali..quando saíamos dali já saíamos...é... assim... pronto pra próxima... já saindo com a certeza...com a certeza de que estaríamos na próxima Festa...e... com a certeza de que havíamos criado os laços que não se desfariam mais...Com...coordenação da Festa...com... figurantes...tivemos aquela...certeza... de que o nosso povo tava dentro da Festa... [...] (BRASIL. Diógenes. Entrevista. [abril 2015]. Entrevistador: Ana Lia Branchi. Entrevista concedida à pesquisa de mestrado, grifo nosso).