Como visto no decorrer deste capítulo, a cidade de Paraty passou por diversas fases que influenciaram diretamente seu desenvolvimento. A fase do ouro, do porto, do café, do açúcar e, por fim, a fase do turismo. Esta última teve seu impulso inicial em 1970, após a abertura da BR 101 - Rodovia Rio-Santos. Tanto Diuner Mello - historiador - quanto Sr. Zezito - José Carlos de Oliveira Freire, habitante mais antigo da região -, relatam, em entrevistas concedidas à pesquisadora em julho de 2005, que, quando da abertura da rodovia, o fluxo de turistas aumentou consideravelmente. Naquela época, segundo eles, os habitantes locais passaram por um processo de mimetização - conceito trabalhado por Armand Mattelart na obra Comunicação-mundo: história das idéias e das estratégias -, ou seja, rejeição da própria cultura e assimilação total de hábitos e costumes diferentes. "Eles tinham vergonha de ser caiçaras. Vergonha de andar com os pés no chão. Vergonha de suas casas e de suas roupas. Vestiam-se como hippies, uma tendência da época, trazida pelos paulistanos que freqüentavam o local".
Ainda segundo os entrevistados, no período de maior fluxo de turistas - alta temporada - a população local parava suas atividades e "tirava férias". Todo o comércio da cidade, exceto os hotéis e alguns poucos restaurantes existentes no período, permanecia inoperante. Este movimento passou, com o tempo, a afastar a população flutuante que vinha em busca do turismo cultural, ou seja, do acesso ao patrimônio cultural da região - à história, à cultura, e ao modo de viver das comunidades locais.
Alguns escritores como Tom Maia e Thereza Maia – moradores de Paraty - relatam que foi elaborado um trabalho de conscientização junto à população a respeito da importância da cultura e dos hábitos locais para a atração dos viajantes. A partir disso e, considerando que "os adeptos ao turismo cultural não buscam somente lazer, repouso e boa vida e estão motivados em conhecer regiões onde seu alicerce está baseado na história de um determinado povo, nas suas tradições e nas manifestações culturais, históricas e religiosas", (MOLETTA, 200, p. 10), as comunidades retomaram o cotidiano abandonado e passaram a fazer do turismo mais uma fonte de renda.
Para os habitantes do centro histórico, as modalidades de turismo cultural e de eventos - abordados no primeiro capítulo deste trabalho -, tornam-se lucrativas através do comércio e das inúmeras possibilidades de serviços prestados. Para os habitantes das regiões mais distantes - 'habitantes da roça', como são chamados - tais modos de turismo proporcionam a
comercialização de excedentes de pesca, de farinha de mandioca e artesanato produzidos no local, assim como apresentações - em eventos que ocorrem na cidade - de danças e festejos típicos onde, geralmente, são servidos alguns pratos tipicamente caiçaras. Estes eventos possibilitam a divulgação da cultura caiçara e, em alguns casos, geram a contratação dos grupos para apresentações em outras localidades.
A cidade em si conta com uma estrutura básica que possibilita a recepção do grande fluxo turístico e existem, na prefeitura, projetos em desenvolvimento que pretendem melhorar tal infra-estrutura. Segundo Cristina Maseda26, "a cidade ainda não se encontra capacitada para receber uma alta concentração de turistas num único momento" (a mesma refere-se ao período no qual acontece a FLIP). Para ela, é necessário que se criem mais leitos em hotéis, mas isso afetaria diretamente o sistema de saneamento da cidade. Atualmente, a prefeitura, em parceria com o Governo Federal, vem realizando os seguintes projetos no intuito de melhor preparar a cidade para o turismo:
• Sinalização: foi implantada recentemente uma sinalização turística padronizada, observada nas principais vias da região central. No entanto, o restante do município não possui um modelo igual de placas indicativas, sendo estas, muitas vezes, feitas e colocadas pelos próprios moradores da região.
• Portal: está sendo construído na entrada do perímetro urbano do município, mas inexiste uma previsão para o término da obra.
• Centro de informações: encontra-se localizado no prédio que sedia a Secretaria Municipal de Turismo e Cultura - ponto central de acesso ao centro histórico.
• Belvederes: na região do bairro da Boa Vista está localizado o Belvedere da Pedra da Cruz com vista de boa parte da Baía de Paraty. O mesmo encontra-se em processo de restauração.
• Paraty todas línguas: projeto que visa capacitar os indivíduos atuantes no comércio da região através do ensino de idiomas – inglês e espanhol – no intuito de facilitar a comunicação dos habitantes com o turista.
• Paraty para ti: projeto que visa capacitar os habitantes das comunidades isoladas – aqui se encaixam os moradores do Saco do Mamanguá e da Ilha do Araújo – no intuito de torná- los guias ambientais e culturais em suas comunidades. Este projeto age diretamente na comunidade que sai de seu quase isolamento – já que os membros das mesmas
26 Cristina Maseda é uma das responsáveis pela realização da FLIP. Entrevista concedida em janeiro de 2005.
freqüentam o centro histórico em média uma vez ao mês, para realizar compras de alimentos – e passa a manter contato com o viajante em seu próprio habitat. Estando capacitados, os ‘líderes’ comunitários passam a levar os turistas para a comunidade e a demonstrar todo o seu modo de vida e de sobrevivência.
Todos estes projetos foram colocados em prática a partir do ano de 2001, quando o órgão oficial de turismo do Estado do Rio de Janeiro - TurisRio - através de seu Plano Diretor de Turismo Estadual, estabeleceu que Paraty fosse considerada área de turismo de alcance internacional, área de veraneio de alcance interestadual, zona turismo cultural, náutico, balneário e de ecoturismo.
O turismo propiciado pelas belezas naturais da região, pelo patrimônio imóvel e cultural e, principalmente por determinados eventos - como é p caso da FLIP - é, sem dúvida, o principal responsável pela renda do município. De acordo com pesquisas encomendadas pela prefeitura e desenvolvidas pela Solving Consultoria em Turismo, no ano de 2003, o montante movimentado por turistas foi de R$ 94.879.000,0027. Trata-se de um valor representativo para o desenvolvimento da região e para o sustento da população. Nas comunidades aqui estudadas este valor também é representativo já que, segundo Antonio Carlos Diegues (1999, p. 95) cerca de 29.5% dos chefes de família destas regiões trabalham, de alguma forma, com o turismo.
Trata-se de prestadores de serviço – caseiros, transportadores de turistas, guias, artesãos e comerciantes que encontram no turismo uma nova realidade e uma nova forma de economia. A seguir, serão feitas as descrições das comunidades estudadas, suas histórias e alterações decorrentes do processo turístico.
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Fonte: Dados estatísticos do turismo em Paraty. Pesquisa realizada pela Solving Consultoria em Turismo, 2004, p. 30.