O caráter do nosso trabalho é sociológico, porém não se fugiu da necessidade de uma interpretação de alguns dos eventos físicos ocorridos em um acidente de trânsito, pois estes são esclarecedores no que tange aos ferimentos e às chances de vida ou morte nesse tipo de evento. Portanto, o caráter físico do ocorrido pode ser ligado aos tipos de vitimização abordados e relacionado ao crescimento das taxas dos números absolutos de mortes, uma vez que, quando ocorre a elevação das vendas deste tipo de veículo, seguida do aumento dos números absolutos de casos de acidentes com motocicletas, há respectivamente um acréscimo também da exposição dos usuários a essas “forças físicas”, que potencialmente podem matar facilmente um motociclista.
As leis da física permitem analisar, entre outras características, a força média envolvida em um impacto frontal, a projeção do corpo do motociclista após o impacto e a velocidade final do condutor após a colisão, eventos que estão diretamente ligados aos ferimentos impostos às vítimas. Visando a construção simplificada dos cálculos, reduziu-se o número de variáveis envolvidas no sistema até criar um sistema imagético também simples, excluindo, assim, alguns eventos que ocorrem durante o acidente63.
Chamaremos aqui de sistema o veículo motocicleta mais seu condutor. Suponha- se que o sistema seja composto por um veículo tipo moto com massa igual a cento e vinte quilogramas (120 kg)64, conduzido por um piloto com massa corporal igual a setenta quilogramas (70 kg), que se move com velocidade de sessenta quilômetros por hora (60 km/h). Assim, da maneira como os dois elementos foram apresentados, o piloto e a moto formam um único sistema, chamado moto/piloto, que tem massa total a cento e noventa quilogramas (190 kg), e viajando com velocidade constante de sessenta quilômetros por hora (60 km/h). Satisfeitas as condições, o sistema colide com um obstáculo fixo, esse obstáculo não se desloca e a deformação provocada pelo impacto da moto é desprezada, pode-se imaginar um poste ou um muro. Após a colisão, o sistema moto/piloto é dividido em duas partes: uma composta pelo piloto, que é arremessado na direção do obstáculo, e a outra pela moto, que para instantaneamente, assim desprezamos além da deformação, a elasticidade da colisão para o veículo e o obstáculo.
63Considerou-se tanto a moto quanto o piloto como pontos materiais, ou seja, desprezaram-se suas dimensões e, além disso, ignorou-se o efeito da resistência do ar sobre o sistema. Outro fator importante foi considerar que, ao colidir, a moto pararia instantaneamente, de modo que a energia do sistema (moto/piloto) seria transferida somente para o piloto.
Quando uma motocicleta atinge um obstáculo fixo ou mesmo um veículo em movimento, a barreira provoca na motocicleta um giro do seu corpo em torno do eixo anterior. Devido ao giro, o condutor da motocicleta é alavancado como se estivesse em uma catapulta. (ALMEIDA, 2014, p. 261)
A conservação do momento linear é uma das formas responsáveis por medir força e velocidade resultantes do tipo de impacto desenhado acima. O evento da colisão que foi construído para o sistema imagético acima pode ser expresso matematicamente pela fórmula: P = m.v (HALLIDAY; RESNICK; KRANE, 2003), onde P é a quantidade de movimento total; m é a massa total do sistema e v é a velocidade. Aplica-se65 “o princípio da conservação de quantidade de movimento”, que em nosso caso hipotético terá como um dos efeitos, após a colisão, a divisão do sistema piloto/moto ocorrendo a separação entre piloto e moto, resultando em dois sistemas individuais: um composto agora só pela moto e outro composto só pelo corpo do piloto.
A moto atinge velocidade igual a zero instantaneamente após a colisão, provocando, por inércia, o arremesso do piloto. A força resultante apenas sobre o piloto após a separação chamaremos de 𝐏𝐟𝐢𝐧𝐚𝐥 e pode ser expressa matematicamente por 𝐏𝐟𝐢𝐧𝐚𝐥= 𝐦𝐩𝐯𝐩, onde 𝐏𝐟𝐢𝐧𝐚𝐥 é a quantidade de movimento do piloto após a colisão, 𝐦𝐩 é a massa do piloto e 𝐯𝐩 é a velocidade do piloto. Para obter o valor de 𝐯𝐩, utilizou-se a seguinte expressão matemática 𝐦𝐯 = 𝐦𝐩𝐯𝐩, o que resultou em um valor de aproximadamente cento e sessenta e dois quilômetros por hora (162 km/h).
Quadro 03: Variáveis para determinar a quantidade de movimento.
P = 180 kg x 60 km/h
M = 190 kg (massa do sistema)
V = 60 km/h (velocidade do sistema)
Mp = 70 kg (massa do piloto)
Vp = Velocidade do piloto a ser determinada
P Quantidade de movimento do sistema moto/piloto
Pfinal Quantidade de movimento do sistema piloto após colisão
Valor de Vp em Km/h 162 km/h
Fonte: Elaborado pelo autor/2017.
Aplicando os valores idealizados no sistema e feitos os cálculos, o resultado apontou que a pessoa vítima desse tipo de acidente, nas condições supostas aqui, será lançada a cento e sessenta e dois quilômetros por hora (162 km/h) no sentido do obstáculo com o qual colidiu, o que implica em elevadas chances de morte se seu corpo atingir o mesmo ou outro obstáculo, ou mesmo na queda.
Ressaltamos que muitas considerações foram feitas para facilitar o cálculo e, portanto, essa velocidade não condiz com a realidade, pois apenas a lei da conservação do momento linear foi considerada. Ao introduzirmos outras variantes no mesmo sistema como deformação e recuou dos objetos que colidiram, bem como, movimento oblíquo realizado pelo corpo do piloto após projeção da moto e rotação sobre seu próprio eixo, resistência do ar e mais variantes que podem surgir neste tipo de evento obteríamos valores menores. A Figura 10 apresenta o lançamento do piloto após ter ocorrido a colisão da motocicleta desconsiderando o recuo, deformação e rotação do veículo, tendo por base apenas a conservação do momento linear.
Figura 10: Projeção do piloto por conservação do momento linear.
Fonte: Elaborada pelo autor/2017.
Pode-se também, fazer o cálculo da velocidade da motocicleta pela distância percorrida pelo corpo do motociclista após ser projetado pelo impacto. Outras tantas considerações são feitas, duas principais forças são consideradas: a força peso decorrente da gravidade, e a força perpendicular, que é a força exercida pelo acento da moto junto ao corpo do motociclista. Após a colisão, a moto fará um giro sobre seu próprio eixo, esse giro mais a conservação do momento linear resultaram no arremesso do corpo do motociclista à frente. A Figura 11 exibe a situação delimitada, ressaltamos que nesse sistema outras considerações são observadas e os resultados encontrados serão outros.
Figura 11: Projeção do piloto por giro do veículo.
Fonte: Elaborada pelo autor.
O cálculo construído, da forma exposta acima, aponta um valor muito abaixo dos cento e sessenta e dois quilômetros por hora (162 km/h) encontrado nos primeiros cálculos. As considerações para a projeção do piloto feita através do giro do eixo do motociclista e da força perpendicular, para uma velocidade de aproximadamente setenta quilômetros por hora (70 km/h), indicariam a projeção do corpo do motoqueiro a cerca de setenta e dois vírgula cinco quilômetros por hora (72,5 km/h). Mesmo com valores mais baixos, um impacto a esta velocidade pode facilmente retirar a vida do condutor, dependendo da forma, do tempo após a primeira colisão, e do obstáculo em que seu corpo sofrerá o segundo impacto, se esse segundo impacto será com algo que estar fixo ou em movimento, ou se o condutor se chocará com o solo, de como será o impacto com o chão, e de que forma, em todas essas variantes, as partes do corpo do motociclista serão atingidos.
Algumas observações podem ser feitas a partir da análise desses resultados: primeiro, um acidente envolvendo moto, mesmo que em velocidade não muito alta, congrega em si um potencial mortífero elevado. O resultado do acidente para a vítima depende em muito da forma como o evento ocorreu, pois nas condições idealizadas para os cálculos da pesquisa, onde o piloto sofrerá um segundo impacto quase imediatamente após o choque com o veículo, caso o corpo do piloto atinja o obstáculo com o qual a moto colidiu, ou outro próximo, as chances de óbito são altíssimas. Caso atinja o obstáculo com os membros inferiores ou superiores, pernas e braços, a força do impacto é suficiente para arrancar esses membros do corpo, provocando intensa hemorragia, elevando também significativamente as chances de óbito da vítima. A chance de sobrevivência em caso de amputação de membros ficará dependente do tempo que levará para ser socorrido devido à hemorragia provocada. Percebe-se, então, que a
velocidade com que o piloto atinge o obstáculo, bem como o tipo de colisão e a parte do corpo atingido, estão diretamente ligados ao óbito e às sequelas resultantes deixadas pelo acidente, bem como à produção de lesões mais graves, e que os pilotos estão praticamente a mercê da sorte durante a ocorrência de um acidente, pois quase não há equipamentos de proteção com exceção do capacete.
As motos que desenvolvem maiores velocidades necessitam, por sua vez, de motores com mais cilindradas, que são fisicamente maiores, portanto, ao aumentar a massa e a velocidade do veículo, aumenta-se exponencialmente a velocidade resultante de uma possível colisão, bem como a força resultante no modelo hipotético de acidente66 ampliando as chances de óbito em caso de um acidente.
Ao visitarmos os três maiores revendedores de motos na cidade de Picos-PI, percebe-se que não existe qualquer alerta visível para os clientes sobre a possibilidade de acidentes graves na condução desses veículos. Nenhum funcionário informou, espontaneamente, sobre essa possibilidade, nem orientou sobre direção defensiva ou qualquer cuidado que devesse ser tomado ao adquirir esse tipo de veículo. Ao contrário, notamos um cartaz, em umas das lojas visitadas, que incentivava o cliente dar “asas a suas emoções”. Percebe-se claramente a desvinculação entre propaganda e as possibilidades do produto ofertado causar problema ao consumidor, acobertando, assim, uma probabilidade bem real da ocorrência de um acidente com o produto adquirido.