A problemática do “território”, colocada por Besse (2014, p. 58) compreende o desafio de entender o espaço dentro da complexidade de relações morfológicas, temporais e funcionais que ele guarda com outros espaços, trata sobretudo da relação entre escalas. Segundo Corajoud (2011, p. 217) “A paisagem é o lugar do relacional onde todos os locais só são compreensíveis por referência a um conjunto que se integra, por sua vez, num conjunto mais vasto”.
De acordo com Diedrich (2013, p. 93), normalmente ao investir num projeto de paisagem o projetista se desloca dos problemas e características específicos da área de intervenção, para explorar aspectos que ligam esta área a sistemas mais abrangentes. Esta visão está embasada na compreensão de que no território, uma ação aparentemente pontual nunca fica restrita à sua área de intervenção, mas extravasa e atinge outras esferas no tempo e no espaço. Por esta razão, Corajoud (2002, p. 124-125) destaca que no projeto é preciso explorar os limites e superá-los, tendo em vista que na paisagem não existem bordas extremamente
definidas ou fechadas. Os espaços se articulam à espaços vizinhos, transbordam, segundo Corajoud (2002, p. 125) “cada forma vibra e se abre para fora”30.
No projeto de paisagem o debate sobre os limites merece interesse, é nessas bordas ou espaços de transição que surgem características marcantes, o que leva Corajoud (2002, p. 126) a apresentar a ideia de horizonte. O horizonte é para o autor uma força de desdobramento e abertura, que é incompleta, múltipla e dinâmica, um lugar de inter-relação onde se sobrepõem e se encadeiam paisagens singulares.
Corajoud (2002, p. 126) estabelece que para explorar os horizontes devemos por vezes nos afastar do lugar estudado para liberar sua influência assim como devemos, em outros momentos, nos voltarmos para esses espaços, adentrando sua intimidade por meio de uma investigação minuciosa e progressiva. Esse processo de aproximação e distanciamento é feito por meio do cruzamento de escalas, de acordo com Corajoud (2002, p. 128) o ato de projetar consiste em dominar de maneira simultânea o conjunto e o detalhe, o que está perto e o que está longe. Uma vez que existem inúmeras correspondências entre os elementos que constituem a escala local e a escala global.
A articulação entre a escala local e a escala global, o conjunto e o detalhe é apontada por Beveridge (1986) ao falar do trabalho de Olmsted através do princípio subordination (subordinação). Segundo o historiador, Olmsted compreendia cada elemento como parte de um todo estruturado para se alcançar um efeito maior. Nesse sentido, a exuberância do parque seria afirmada através de uma visão de conjunto que relacionava o parque a outros componentes da cidade:
É um erro comum considerar um parque como algo para ser produzido completo em si, como uma imagem a ser pintada em uma tela. Deveria ser planejado como um a ser feito num afresco, com constante consideração dos objetos exteriores, alguns deles à distância e até existentes ainda apenas na imaginação do pintor.31
(OLMSTED, 1870, p 34)
A visão relacional e sistêmica de Olmsted está presente não somente no projeto de sistema de parques, mas também no próprio projeto do parque, afinal Olmsted entende o parque como um todo articulado por elementos distintos com formas e funções arranjadas de modo a compor certa unidade. Assim como na proposição de subúrbios ou campos universitários, uma
30 Tradução livre do autor do original em língua espanhola. [...] cada forma vibra y se abre hacia afuera.
(CORAJOUD, 2002, p. 125).
31 Tradução livre do autor do original em língua inglesa. It is a common error to regard a park as something
to be produced complete in itself, as a picture to be painted on canvas. It should rather be planned as one to be done in fresco, with constant consideration of exterior objects, some of them quite at a distance and even existing as yet only in the imagination of the painter. (OLMSTED, 1870, p 34)
abordagem de conjunto, ou “compreensiva”, como era chamada à época, orientava seu pensamento.
O planejamento compreensivo correspondia a elaboração de um conjunto de propostas e planos físicos para solucionar os principais anseios da cidade em larga escala. À época, conforme Peterson (1996, p. 46-49), a definição do campo do planejamento ainda não era organizada, de modo que as comissões de especialistas eram convidadas a conceber o plano de uma cidade inteira, de forma a controlar as linhas principais de desenvolvimento segundo uma visão definitiva de futuro.
Nesse contexto, as propostas de Olmsted consistiam no planejamento compreensivo de determinada área física da cidade, como o centro da cidade ou o campus de uma universidade, ou se limitava a determinadas funções necessárias a cidade. Peterson (1996, p. 46) acrescenta que normalmente esses planos apresentavam ideias para suprimento de água, sistema de esgoto, criação de edifícios institucionais ou loteamentos residenciais.
O projeto do subúrbio Riverside de 1869 foi fruto de um plano compreensivo, no qual ao invés de explorar a criação de um sistema de parques, Olmsted e Vaux investiram numa integração mais fluída entre os cenários naturalistas e o loteamento residencial. Segundo Schuyler (1986, p. 163), para Olmsted e Vaux havia duas estratégias para combater o crescimento urbano do século XIX: de um lado a separação de bairros comerciais compactos e áreas residenciais com amplas áreas vegetadas nas cidades; de outro lado, a migração para o subúrbio, como forma de descongestionar a cidade.
Olmsted e Vaux partiam do entendimento de que o subúrbio32 fazia parte do processo
de urbanização. Segundo Schenk (2008, p. 126), ainda que outras experiências para a criação de subúrbio já tivessem sido elaboradas, Riverside (figura 35) tinha como ponto de partida a elaboração de uma “paisagem que funcionasse como instrumento urbanístico completo, uma alternativa que estendia os benefícios da cidade e mitigava suas mazelas”.
32 Schuyler (1986, p. 166) chama atenção para o fato de que a descentralização e a ocupação dos subúrbios
foram motivadas por desejos pessoais, mas acabaram por trazer consequências e implicações públicas à longo prazo, sobretudo, problemas sociais. Pouco a pouco, a busca por segurança e isolamento motivou a supremancia de valores privados que contribuíram para a fragmentação dos espaços em bairros divididos por raça, origens étnicas e atividades econômicas. No século XX, grande parte dos loteamentos suburbanos foram construídos como enclaves, desarticulados com o entorno e restritos a determinada parcela da população, claramente esse tipo de espaço não era fruto de um planejamento compreensivo.
Figura 35 - Projeto de Riverside de Olmsted e Vaux.
Fonte: http://s242218570.onlinehome.us/historyofriverside/riv-03.htm. Acesso: 16/07/19 De acordo com Andrade (2010, p. 107), o projeto de Riverside se tornou um modelo de surbúrbio ajardinado que veio a influenciar as propostas cidades-jardins assim como arquitetos modernos, dentre eles Le Corbusier. O local escolhido para a criação da comunidade ficava a 9 milhas (aproximadamente 14 km) ao oeste do centro de Chicago, nas margens do rio Des Plaines. O sítio foi escolhido principalmente por sua topografia acidentada que poderia dar origem a criação de visuais interessantes, assim como pela existência da primeira estação suburbana de Chicago, Burlington, e da ferrovia Quincy, que permitiriam o acesso a cidade.
Para complementar a ferrovia, segundo Schuyler (1986, p. 163), Olsmted e Vaux sugeriram a construção de um amplo passeio arborizado com ocasionais abrigos. Conforme Schuyler (1986, p. 163-164), no subúrbio o conforto e o caráter doméstico eram mais importantes do que a velocidade da viagem, por essa razão o traçado das vias e passeios seguiam as linhas de curva do terreno, tomando contornos suaves. Para aumentar a atratividade das ruas, os projetistas sugeriram que elas fossem espaçosas com fileiras de árvores e abundância de áreas gramadas em suas bordas.
Conforme Schuyler (1986, p. 164-165), Olmsted e Vaux reservaram uma porção de terra, The Long Common, para propósitos públicos e no centro do loteamento designaram uma praça para eventos da comunidade. Também foram distribuídos pequenos espaços recreativos,
como praças com playgrounds, no projeto. Ainda assim, o principal espaço recreativo criado foi um parque linear de 160 acres (cerca de 65 ha) desenvolvido ao longo do trecho do rio Des Plaines que atravessava o sítio. De acordo com Schuyler (1986, p. 165), perto do rio os projetistas estabeleceram uma via e um passeio de pedestres, recomendaram a construção de locais para atracação de barcos, terraços e balcões que pendiam sob a água, além de pavilhões em pontos desejáveis para observação de regatas.
O projeto de Riverside substituiu o tradicional uso da grelha de traçado ortogonal por uma malha de caráter orgânico, com espaços generosos e ausência de ângulos agudos. Outra inovação foi a composição de grandes recuos entre os lotes para a criação de jardins privados, que misturados aos espaços livres públicos definiram uma continuidade naturalista.
Durante a construção do projeto, os projetistas passaram dificuldades na relação com os promotores imobiliários, o incêndio de Chicago em 1871 e a crise econômica de 1873 também modificaram a dinâmica de realização do projeto. Conforme Schuyler (1986, p. 165), apesar dos problemas, a comunidade foi construída seguindo as orientações de Olmsted e Vaux e mais tarde se tornou o subúrbio de sucesso que os projetistas tinham previsto. Segundo Peterson (1996, p. 46):
[...] Olmsted sênior possuía a rara habilidade de responder de forma ousadamente criativa às necessidades de sua geração, sua visão do futuro urbano assumiu formas marcantes e inovadoras. Durante o planejamento de parques, sistemas de parques ou loteamentos residenciais, seu objetivo era desenvolver cidades mais espaçosas, mais saudáveis, mais verdejantes e, ao mesmo tempo, mais propícias ao benefício mútuo da associação humana assim como da privacidade em família.33
Ainda no século XIX, Chicago voltou a contratar Olmsted, dessa vez para realizar um sistema de parques. De acordo com Medeiros (2014, p. 97), ele propôs a criação de dois parques articulados por meio de um canal margeado por áreas vegetadas (figura 36). Desses somente o
Washington Park foi construído, o Jackson Park e a Midway Plaisance ficaram previstos
apenas em projeto. Quase vinte anos depois da proposta do sistema, Olmsted retornou à cidade de Chicago para viver um momento emblemático que promoveu sua obra internacionalmente: a Feira Mundial de Chicago de 1893.
33 Tradução livre do autor do original em língua inglesa. Because Olmsted senior possessed the rare ability
to respond in boldly creative ways to the perceived needs of his generation, his vision of the urban future assumed striking and innovative forms. Wheter planning parks, park systems, or residential subdivisions, his goal was to develop cities that were more spacious, more healthful, more verdant, and at the same time more conducive to De acordo com Peterson (1996, p. 47), Olmsted nunca sugeriu que o planejamento deveria atingir todas as necessidades físicas da cidade inteira, centro e subúrbio. mutually beneficial human association as well as to family privacy. (PETERSON, 1996, p. 46)
O evento tinha o objetivo ambicioso de projetar a cidade de Chicago, recém recuperada do grande incêndio de 1871, no cenário nacional e mundial. À época, conforme Medeiros (2014, p. 105), Olmsted já era reconhecido inclusive na Europa, tanto pelas ideias pioneiras na arquitetura da paisagem como também, por sua ideologia e posicionamento político. Dessa forma, Olmsted foi convidado como arquiteto paisagista consultor e se uniu a nomes como Louis Sullivan e William Le Baron Jenney, representantes da Escola de Chicago. A Exposição adquiriu relevância pela exposição do cenário arquitetônico e urbanístico dos Estados Unidos.
Figura 36 - Projeto do Sistema de Parques de Chicago de Olmsted de 1871.
Fonte: http://burnhamplan100.lib.uchicago.edu/newberryexhibit/nurturing/cultivating-green.shtml. Acesso: 16/07/19
Tendo em vista o retorno à Chicago, Olmsted decidiu por investir na retomada de sua proposta de sistema de parques, focando na construção do Jackson Park e do canal presente na Midway Plaisance. O sítio era uma ilha em meio a um pântano, de acordo com Medeiros (2014, p. 106), a peculiaridade do projeto foi a grande presença das águas num sistema de bacias e canais. O plano urbanístico da exposição foi realizado por Daniel Burnham, notável arquiteto defensor do Movimento City Beatiful. É possível perceber como a quantidade de componentes naturais vegetados foi reduzida se comparada a proposta anterior de Olmsted e a proposta que foi construída para a Feira Mundial (figura 37).
Figura 37 - Projeto do Jackson Park de Olmsted.
Fonte: https://www.archdaily.com/873081/ad-classics-worlds-columbian-exposition-daniel- burnham-and-frederick-law-olmsted/593b3834e58ece83c40003ac-ad-classics-worlds-columbian-exposition-
daniel-burnham-and-frederick-law-olmsted-image. Acesso: 16/07/19
Esse projeto foi um dos últimos da carreira de Olmsted, conforme Medeiros (2014, p. 107), a partir de 1895 o arquiteto paisagista passou a apresentar traços de desgaste físico e emocional, falecendo em 1903 aos 81 anos. A continuidade do seu trabalho foi estabelecida
pelos seus filhos na firma Olmsted Brothers, que operou até a década de 1950 sob direção de Frederick Law Olmsted Jr.34 e Jonh Charles Olmsted, encerrando suas atividades em 1980
(MEDEIROS, 2014, p. 108).
Olmsted entendia o projeto de parque como parte de um plano urbano abrangente e compreensivo. Pode-se dizer que a preocupação com o contexto leva Olmsted a “uma relação renovada com o território [...] da ampliação da escala de intervenção e, mais ainda, da articulação entre as diferentes escalas de intervenção” (BESSE, 2014, p. 58). Para ele, o parque não era um acréscimo ornamental na cidade, deveria ser parte integrante de seu tecido, componente estruturador capaz de impulsionar o crescimento urbano em diversos campos: espacial, econômico, social e cultural. Sua abordagem sistêmica, sistemática e previdente no processo de projeto de paisagem contribuíu para o nascimento do planejamento urbano no início do século XX. Segundo Eisenman (2013, p. 302):
[...] a maior contribuição de Olmsted para a posteridade pode não ser as qualidades composicionais, funcionais ou estéticas específicas de seus projetos para parques, parkways e sistemas de parques, tão bem-sucedidas e influentes como elas provaram ser. Em vez disso, é o pensamento público, orientado para o futuro e sistêmico de Olmsted sobre o urbanismo, e sua crença subjacente no desenvolvimento elevando a capacidade das cidades, este pode ser um de seus legados mais notáveis. Mais importante de tudo, talvez, fosse sua intenção de ser um agente para a evolução urbana.35
3.3 Sistemas de parques e articulação de espaços livres públicos nos planos urbanísticos