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La formation continue

B. A NNEXES L EXIQUELEXIQUE

O Apoio Administrativo foi uma subdivisão das atividades do que é atribuído pela organização como Apoio religioso, construída para fins de análise. Não há esta denominação na organização, já que todos os voluntários que se reportam diretamente à Assessoria de Memória e Cultura são considerados como do grupo de Apoio Religioso. Embora estejam registrados num mesmo setor, esses voluntários passaram a desenvolver atividades distintas daquelas que são consideradas de apoio religioso. E percebendo o crescimento e ênfase nessas atribuições, consideramos pertinente essa classificação. O apoio Administrativo configura-se, portanto, num trabalho que envolve uma média de 50 voluntários em tarefas diversas que exigem certa sistematização e que possuem um caráter mais pragmático, pois atendem a demandas que surgem no núcleo e que necessitam de cumprimento de prazos. Durante a observação participante neste grupo, a pesquisadora ajudou na contagem das notas fiscais e na colagem dos adesivos com a imagem de Irmã Dulce nos tijolinhos. Ainda que a sensação de contar aquelas notas fiscais não nos remeta a nada especial, é um trabalho que exige concentração e obediência aos critérios de segregação das notas para não haver erros na contagem nem deixar passar notas sem validade.

• Divisão do Trabalho

No apoio Administrativo, os voluntários ajudam na contagem das notas fiscais para a Campanha "Sua Nota é um Show de Solidariedade", realizada pelo governo do Estado da Bahia. Recolhem as notas nos postos de coleta, levam para a instituição notas fiscais coletadas por eles próprios ou por amigos e parentes, e fazem a colagem e embalagem dos tijolinhos com a imagem de Irmã Dulce que são vendidos na Campanha para a construção da nova igreja - Imaculada Conceição da Mãe de Deus. Além de outras tarefas que vão aparecendo no

dia-a-dia daquele setor e que os voluntários colaboram sem restrições e com total disponibilidade.

Há uma grande interface entre o coordenador geral do voluntariado e seus voluntários. A questão da afinidade e identificação com a organização também é um ponto bastante importante nesta relação. Existem alguns voluntários neste setor que são extremamente assíduos e que possuem uma relação de lealdade e compromisso com o coordenador. Estes geralmente são os mais requisitados para todos os trabalhos necessários e emergenciais que aparecem.

Este trabalho de apoio administrativo tem a função de suprir determinadas demandas da organização que se não fosse a colaboração dos voluntários, certamente os funcionários não teriam condições de assumir tantas atribuições. Nesta divisão de tarefas, há um sentido de utilidade na realização deste trabalho voluntário, pois é algo tido como necessário para o bom andamento das atividades da organização.

• Hierarquia e Normas

Há um grande respeito à figura do coordenador geral do voluntariado. Este, pelo carisma, abertura e senso de orientação que imprime ao grupo, consegue a colaboração e o comprometimento daqueles que com ele diretamente trabalham. Apesar das suas outras atribuições como Assessor de Memória e Cultura, Osvaldo procura manter uma relação mais próxima com seus voluntários e esta sua postura acaba permitindo um melhor acompanhamento destes em suas atividades. Os mecanismos formais de determinação de normas e controles ficam em segundo plano, visto que a impessoalidade é inexistente. Se há a determinação de uma regra, esta é comunicada ao voluntariado como uma necessidade da instituição que precisa ser respeitada e compreendida pelos voluntários, na medida em que estes se consideram parte dela. O que exige uma consciência de engajamento e compromisso com a organização por parte deste voluntariado. A implantação de algumas destas normas pela instituição têm o intuito de sistematizar este trabalho para que não haja margens de erros e desperdícios de recursos com retrabalhos. Há uma preocupação com o desempenho na determinação destas normas para o atendimento de metas de natureza técnica, a exemplo da quantidade de arrecadação de notas fiscais para cada campanha. O que também insere uma clara orientação do grupo para os resultados almejados. Embora se perceba que para se atender a objetivos mais instrumentais são utilizados recursos que passam pelo âmbito

relacional, visto que esta relação é de pessoalidade, envolvendo respeito mútuo, consideração e afinidade entre o voluntariado e sua liderança.

• Controles

Nestas tarefas de cunho administrativo, muitos erros já foram encontrados, retornando da Secretaria da Fazenda, milhares de notas da Campanha "Sua nota é um Show de Solidariedade" para a instituição, em decorrência destas falhas. Em função destes acontecimentos, o cuidado deste setor tornou-se redobrado, e assim como têm voluntários que fazem a contagem das notas, outros passaram a fazer a recontagem e reavaliação das mesmas no intuito de reduzir esses deslizes, frutos da distração e do entusiasmo de ajudar e de “apagar incêndios”. Alguns voluntários chegam a fazer comentários tendenciosos a respeito de outros parceiros que fazem esta contagem incorretamente, como se o fizessem de forma deliberada para ver se passam mais notas, ou porque não são capazes de fazer esta tarefa. Esta desconfiança ou crítica em relação ao trabalho do outro, mostra-se como um comportamento freqüente àqueles que buscam se destacar como exemplos pelo papel que cumprem na organização.

Em virtude destas pequenas desconfianças ou competições, a organização vem sendo cada vez mais criteriosa no acompanhamento destas atividades, colocando funcionários e os próprios voluntários como "vigilantes" deste processo. Alguns voluntários são designados como principais responsáveis pela verificação dos registros das contagens, assim como, pelo monitoramento da assiduidade e compromisso dos seus parceiros. Neste sentido, há uma grande interface entre estes poucos voluntários e os funcionários deste setor no intuito de manter a ordem e o controle destas atividades. Estes controles são amparados pelo objetivo de atender aos fins organizacionais, mas são realizados de forma a compartilhar esta responsabilidade também com o voluntariado.

• Comunicação e Relações Interpessoais

Entre os funcionários deste setor e seus voluntários há uma grande interação. De forma similar à relação com o coordenador do voluntariado, percebe-se uma grande identificação destes voluntários com funcionários que se destacam pelo seu carisma e que lhes dão uma maior abertura no que tange ao acesso às informações e a assistência na solução de

problemas. Esta relação de proximidade e familiaridade gera um maior comprometimento e solicitude deste voluntariado em relação à organização. A atuação de pessoas carismáticas neste rol de relações oxigena esses vínculos e cria um clima todo especial ao ambiente organizacional.

Há uma postura de cortesia e amparo por parte da organização em relação a estes voluntários. Há voluntários que almoçam quase todos os dias na instituição, aqueles que conseguem remédios gratuitos e ainda aqueles que conseguem consultas médicas para seus parentes e para eles próprios. Nestes gestos da instituição, não foi percebido nenhum excesso de burocracia, nem de formalismos para com o voluntariado. Nestas situações, a reciprocidade se faz presente não para quitar dívidas, mas para perpetuar estes laços, na medida em que, estes voluntários mostram-se cada vez mais solidários e participantes da rotina da organização.

Nestas pequenas formas de ajuda, estes gestos acabam tornando-se maneiras de estreitar laços com este voluntariado, pois é como se lhes fosse dado um voto de confiança e consideração por parte da instituição. Onde muitos deles não recebem estas retribuições da organização em benefício próprio, mas para ajudar um amigo que não tem condições, um parente, um vizinho... Formando desta maneira uma grande rede de relações e de ajuda. O que caracteriza esta rubrica pela presença da dívida, consubstanciada pelo fortíssimo vínculo e cumplicidade entre funcionários e voluntários, assim como entre os próprios voluntários, na realização destas trocas.

• Conflitos

Alguns conflitos são gerados em função da não aceitação de determinados posicionamentos da liderança, o que ocorre muitas vezes pelo baixo nível de instrução destes voluntários e pela necessidade de se sentirem úteis e percebidos nos processos organizacionais. Chamar atenção de um voluntário ou mostrar que aquele tipo de tarefa não é o mais adequado para ele, torna-se extremamente cauteloso. Apesar de haver uma relação de abertura entre a coordenação e estes voluntários, alguns deles mostram-se constrangidos em serem chamados atenção e não aceitam serem privados da realização de algumas tarefas, por não possuírem perfil para determinada atribuição. Este aspecto foi percebido durante a contagem das notas em que uma voluntária, uma senhora de idade, queria ensinar uma outra parceira a fazer a contagem e seleção das notas. A funcionária interveio pedindo-lhe que

aguardasse uma terceira voluntária, mais jovem e que tinha mais experiência, para iniciar esta contagem. Ela imediatamente retrucou dizendo que também sabia fazer aquele trabalho e que tinha condições de ensiná-la. A funcionária, com cautela e paciência, argumentou que sabia da sua capacidade, mas que era uma questão de organização do setor.

Por serem atividades de cunho administrativo e que atendem a uma finalidade organizacional, estes fins por muitas vezes não convergem à mesma lógica da ação voluntária, fundamentando os conflitos. Entretanto, deve-se levar em consideração a preocupação da organização de contornar estes conflitos através da reafirmação da importância da pessoa nesta relação, onde não há a idéia de descarte, de ruptura daquele que não atende à determinada demanda, mas de que a sua contribuição é importante para outros processos.

• Satisfação Individual

O voluntariado que trabalha no apoio administrativo mostra grande identificação tanto com a instituição como com o coordenador deste setor. Estas pessoas deixam transparecer com nitidez o orgulho que sentem em serem requisitadas pela instituição em qualquer tarefa que seja. Não parece haver uma preferência pelas atividades que exercem, mas pelo status, importância que estas imprimem ao se relacionarem mais freqüentemente com as pessoas e os assuntos da organização. A satisfação deste voluntariado é decorrência do reconhecimento por parte da instituição que se dá de diversas maneiras, algumas de valor material e em sua grande maioria de valor simbólico. Em relação ao ganho das cestas básicas41, por exemplo, esta iniciativa faz parte da campanha realizada pela instituição para arrecadação de notas. Não somente os voluntários participam da campanha, mas também os funcionários. Este reconhecimento serve de estímulo e muitas vezes de competição entre os grupos para arrecadar o maior número de notas. E a instituição atinge seu objetivo - a arrecadação - através do empenho de seus colaboradores e voluntários.

Sentirem-se importantes, queridos, valorizados pela organização os faz permanecerem ainda mais engajados em suas ações. Uma funcionária deste setor certa vez queixou-se da pouca relevância dada à participação dos voluntários nos eventos e da necessidade de uma postura mais clara da organização em relação ao voluntariado, já que eles também fazem parte da instituição. A OSID, por sua vez, já mostra sinais de mudança, na medida em que, cada vez

41 Na Campanha de arrecadação das notas fiscais, para cada 4.000 notas válidas arrecadadas, os voluntários recebiam uma cesta básica.

mais os voluntários estão sendo chamados para participarem de entrevistas para a mídia, da comemoração entre funcionários e voluntários que se destacaram no ano, das campanhas realizadas pela organização, como destaque no Informativo Interno das Obras, dentre outros eventos. A relevância que a instituição dá ao trabalho voluntário parece funcionar como motivação e também traz grandes frustrações quando esta não acontece. A indiferença é uma das maiores fontes de insatisfação destes voluntários. O que marca a presença da importância da pessoa nesta rubrica, consubstanciando a relação entre os voluntários e a própria instituição.

• Dimensão Simbólica

Ainda que realizado por grande parte de pessoas do apoio religioso, este trabalho não demonstra ter relação com o divino, nem muito menos expressa uma relação com pacientes e moradores. As pessoas realizam estas atividades basicamente pela afinidade e integração que possuem com o coordenador do voluntariado e com a instituição. Esta maior proximidade na relação, em muitos momentos representa a confiança depositada pela instituição em seus voluntários na realização destas atividades. São os voluntários mais próximos da coordenação, mais assíduos e comprometidos que são os mais requisitados. Portanto, não deixa de ser um círculo de relações mais fechado, porém demonstra nesta rubrica dois elementos muito importantes nesta análise: O Aumento da incerteza e a importância da pessoa. Estas não iniciaram seu trabalho na instituição realizando tarefas administrativas, com o tempo, com a convivência, foram se integrando e fazendo parte da instituição. Não há como a organização impor ou obrigar as pessoas a fazerem estas atividades, mas simplesmente contar com a colaboração de algumas, preservando a liberdade das mesmas nesta relação. Não há garantias de que elas sempre irão corresponder, embora as pessoas demonstrem fazer questão de corresponderem e de estreitarem estes vínculos. Osvaldo Gouveia em entrevista relata um pouco desta relação com os voluntários:

[...] recentemente eu tive uma demanda aqui de um determinado líder que queria que eu botasse os voluntários para vender tijolinhos na rua, e eu não posso fazer isso, a não ser que parta dele, dele querer pegar o tijolinho e vender. Agora, eu impor a ele que ele vá até determinado local, eu não posso fazer isso, inclusive ele vai estar na rua, se expondo e expondo a instituição. [...] trabalhar com voluntário você tem que ter acima de tudo um espírito de alegria, um espírito de acolhimento muito grande e é por isso que Dora (funcionária) [comentário nosso] é fundamental nessa história toda. Tanto é que dá vontade de matar Dora, porque é demais, essa relação de amor, ela gosta das pessoas, ela é feliz e eu também, nós temos que ser felizes porque se formos carrancudos, infelizes, você assusta o voluntário. Por que, o que é que traz o voluntário para aqui? Basicamente o que é, é esse clima, apertado, confusão, tem

hora que o voluntário briga, tem hora que eu fecho a porta por causa de voluntário, Carla não consegue trabalhar, mas é esse clima de amizade que faz com que ele permaneça42 (informação verbal).

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