De tudo que vimos acima, fica muito claro que a perícope que analisamos é importan- te na economia narrativa de Marcos. Mesmo que Crossan tenha razão ao considerá-la uma duplicação,327 ela não é de forma alguma secundária. Ela é rememorada no fechamento da primeira grande seção do evangelho. Além disso, ela é início de uma grande sequência de milagres, que somente se encerrará no capítulo oito.
O verso 35 é candidato para uma análise de redação. Segundo Bultmann,
uma vez que o sono de Jesus no v. 38 pertence à base essencial da história, a menção da hora tardia deveria ser uma parte original da introdução. Por ou- tro lado, " " " é editorial, ...328
De fato, Bultmann parece ter razão. A expressão “naquele dia” vincula a narrativa às parábolas anteriormente proferidas. Vale lembrar que o esquema temporal em Marcos é altamente artificial, como o demonstra o “primeiro dia” do ministério de Jesus.329
Além disso, devemos contar com uma mão redacional na questão da “desaparição dos barcos”. É mais provável que eles sejam parte de uma eventual fonte, uma vez que não faria sentido introduzi-los desnecessariamente, e não há menção alguma (por exemplo) de um eventual naufrágio. Assim, Bultmann afirma
Como o é [editorial] ! ( " "), que está vinculado com vv. Iss., enquanto a menção aos é antiga, e foi tornada ininteligível pela edição.330
Embora seja possível, como vimos, que Marcos tenha lançado mão de fontes literárias pré-existentes na confecção desta seção, sendo possível até mesmo que nossa narrativa fi- zesse parte desta coleção,331 é evidente que a organização do material é fortemente influen- ciada pelo interesse teológico-literário do autor.
Como observa Kümmel,
Se é permitido concluir que foi o próprio Marcos quem criou o itinerário de Jesus, então é preciso também admitir que a grande concentração da ativida- de de Jesus na Galiléia teve origem em algum motivo de ordem teológica.
327 CROSSAN, John Dominic. O Jesus Histórico. pp. 349 – 350. 328 BULTMANN, Rudolf. The History of the Synoptic Tradition. p. 215.
329 SOARES, Sebastião Armando Gameleira; JÚNIOR, João Luiz Correia. Evangelho de Marcos. Vol. 1. p. 95.
O autor afirma “O primeiro dia é paradigmático. Jesus atua em favor de enfermos e endemoninhados”. Ênfa- se nossa.
330 BULTMANN, Rudolf. The History of the Synoptic Tradition. p. 215. Cf. tb. DIBELIUS, Martin. From Tradi-
tion to Gospel. p. 74.
[...] A estrutura de Marcos está, pois, de acordo com determinados cenários geográficos.332
É evidente, pois, que a localização geográfica do mar não é casual.333 O mar é, para Marcos, um lugar revestido de significados teológicos. Fatos importantes de seu evangelho, como vimos, se dão ou em um barco, ou em torno do mar. É evidente, também, que ao fazer do mar um componente geográfico importante nesta seção de seu evangelho, Marcos está lançando mão – de maneira criativa – de um tema que já analisamos no capítulo anterior, relativo ao mar como local de forças demoníacas e caóticas.
Outro tema que é enfatizado nesta seção – e, portanto, é fruto de atividade redacional – é a tensão entre “fé” e “falta de fé”.
O segundo grupo de milagres consiste de 4. 35 – 6. 6. É mantido junto pelas palavras-chave () e (), isto é, por um motivo literário característico dos mila- gres (4. 41; 5. 34, 36; 6. 6). O início e o final desta seção ligam a crença nos milagres com a questão da identidade de Jesus: ‘Quem é esse?’ (4. 41) e ‘não é esse ... ?’ (6. 3).334
Assim sendo, nossa perícope começa a articular um tema que será desenvolvido ao longo de toda uma seção do evangelho. Ela não apenas começa um ciclo de milagres que terminará no capítulo oito, mas passa a expor um tema fundamental para Marcos.
Aqui reencontramos uma tensão que já havíamos detectado. O verso 40, que consiste na dupla pergunta retórica de Jesus, é claramente intrusivo na forma literária. Porém é jus- tamente nele que se avança o tema da “fé”/ “falta de fé”. Em outras palavras, ele é um can- didato fortíssimo a ser fruto da mão redacional de Marcos. Assim, Meier afirma que:
Até onde diz respeito à mão editorial de Marcos, os melhores candidatos pa- ra a intervenção redacional são as questões retóricas correlacionadas que já percebemos. Os comentários rudes, não-edificantes dos discípulos para Jesus são típicos do Evangelho de Marcos, assim como o são as repreensões seve- ras de Jesus, que por vezes representam os discípulos como sem fé ou nem um pouco melhores que os cegos de fora do grupo. Como a maioria dos co- mentaristas observa, o duplo ataque verbal de Jesus aos discípulos como co- vardes e – mais significativamente – como ainda sem fé se encaixa perfei- tamente com a representação de Marcos dos discípulos bem como seu tema do “segredo messiânico”.335
332 KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. pp. 102 – 103. Cf. tb. SOARES, Sebastião Ar-
mando Gameleira; JÚNIOR, João Luiz Correia. O Evangelho de Marcos. Vol. 1. p. 33.
333 Vide também MARXEN, Willi. El Evangelista Marcos. pp. 49 – 109. Este autor discute longamente o “es-
quema geográfico” do Evangelho de Marcos.
334 THEISSEN, Gerd. The Miracle Stories of the Early Christian Tradition. p. 208. 335 MEIER, John P. A Marginal Jew. pp. 929 – 930.
Como vimos, tal invectiva de Jesus contra os discípulos não é “casual”: ela correspon- de formalmente à primeira intervenção rude dos discípulos, também retórica. Meier chega a argumentar que é possível que mesmo esta pergunta por parte dos discípulos seja redacio- nal:
Agora, se a pergunta retórica de Jesus mais a repreensão em 4. 40 são adi- ções de Marcos à história, assim, também, mais provavelmente, é a pergunta retórica mais repreensão correlacionada proferida pelos discípulos no v. 38.336
Ele vai além disso. Meier chega a postular a possibilidade da própria “pseudo- aclamação” no final da história também ser fruto da pena de Marcos:
Uma vez que as contribuições de Marcos à esta história aparentemente toma- ram a forma de perguntas retóricas – primeiro pelos discípulos, então por Je- sus – pode-se perguntar se a quase-aclamação dos discípulos ao final da his- tória também seja formulação de Marcos, uma vez que ela também assume a forma de uma pergunta retórica que os próprios discípulos elucubram. Ade- quadamente, esta pergunta retórica final enfatiza a tensão entre a experiência dos discípulos de Jesus como o operador de milagres (“até mesmo o vento e o mar lhe obedecem”) e sua falta de compreensão de quem ele realmente é (“Quem é esse?”). A tensão entre a experiência íntima do poder de Jesus e a falta de compreensão de sua natureza verdadeira é o grande tema da repre- sentação dos discípulos por Marcos. Portanto, conquanto a história primitiva pudesse ter tido algum tipo de aclamação coral conclusiva, a formulação presente bem pode vir da mão de Marcos.337
O Segredo Messiânico é outro tema que nos interessa neste momento. Já vimos que a divisão do evangelho em duas partes se dá na transição do capítulo oito para o nove. Esta transição, porém, está ligada ao tema que Marcos articula em torno deste segredo. Segundo Joachim Gnilka, o primeiro a propor tal conceito para a compreensão de Marcos foi Wrede:
O descobrimento do segredo messiânico no Evangelho de Marcos (em cone- xão com 4. 11) se deveu ao trabalho inovador de W. Wrede. Para Wrede, es- te segredo não está baseado na vida do Jesus histórico, mas sim é uma cons- trução dogmática. É constituído por três elementos: as ordens para guardar silêncio dadas aos curados, aos demônios e aos discípulos, cujo cumprimen- to resulta freqüentemente impossível; das repetidas observações sobre a in- compreensão e a incredulidade dos discípulos bem como do doutrinamento por parábolas como uma forma de doutrinamento pensada para o povo. Os três elementos constituem um conceito unitário e fechado. Não obstante, Wrede opina que a teoria do segredo, por causa dos diversos momentos em que aparece em Marcos, não foi obra do evangelista, mas já existia anterior-
336 MEIER, John P. A Marginal Jew. p. 930. 337 MEIER, John P. A Marginal Jew. p. 930.
mente a ele. A Marcos corresponde apenas uma participação importante em sua apresentação.338
Em outras palavras, mesmo que Marcos tenha herdado o esquema básico do segredo messiânico, ainda assim lhe deu forma e expressão particulares – isto é, o segredo messiâni- co no Evangelho de Marcos tem um aspecto redacional. Na lista que Wrede sugere consta, justamente, a questão da fé e falta de fé dos discípulos. Assim, nossa perícope adquire um significado dentro deste contexto. Theissen já observara339 que a seção 4. 35 – 6. 6 era arti- culada em torno deste tema, e Meier já comentara que isto era vinculado ao segredo messiâ- nico.340 Tal vinculação se dá, como vimos, através da forte possibilidade que as perguntas retóricas tanto dos discípulos quanto de Jesus sejam frutos da atividade redacional de Mar- cos. Ao intervir na forma literária da história de milagre, Marcos o faz deliberadamente – e através disso vincula a perícope não apenas a uma seção imediata do evangelho, mas ao seu esquema maior para a obra.
Após considerarmos a “mão editorial” de Marcos, podemos passar, pois, a analisar a forma literária da narrativa como a temos agora.